Viagem: Butão

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Revista Sobremesa

Autor:  Francisco Po Egea

Fotos: Francisco Po Egea

 

Butão, um reino nas nuvensbutao2

Abrigado no canto oriental do Himalaia, feito de vales profundos e montanhas cobertas de neve. Este pequeno país defende com zelo sua intimidade e sua filosofia de vida baseada na moral budista. Enquanto se abre ao desenvolvimento e à tecnologia.

Debruçado sobre uma falésia de 900 metros de altura; protegido por trás pela montanha que se eleva até o céu. Taktshang Gompa, “o ninho do tigre”, é o templo mais famoso dos quase 400 que estão espalhados pela complicada geografia do Butão. O guru Rinpoche, introdutor do budismo no país, chegou até este lugar, segundo a lenda, montado nas costas de sua amante que, na ocasião, estava transformada em uma tigresa voadora. Precisamos de pelo menos três horas de subida para nos encontrarmos frente a frente com o templo e desfrutar de sua imagem tão especial.

O esforço foi muito bem recompensado. Aos nossos pés, o encantador vale de Paro é um nirvana da natureza. Formado por arrozais de um verde brilhante entre as florestas de salgueiros e de mosteiros de fachadas brancas iluminadas e telhados amarelos ou dourados. É o culminar de uma viagem por este lugar de sonho, que é defendido como o novo Shangri-la.

O Butão é o único país do mundo onde a prioridade do governo é melhorar a Felicidade Interna Bruta antes do Produto Interno Bruto. Esta norma, estabelecida no final do século passado pelo rei Jigme Singye Wangchuk, baseia-se em quatro pilares; desenvolvimento sustentável, proteção ao meio ambiente, conservação da cultura e boa administração. A norma é mantida pelo seu filho, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, formado em Oxford, que subiu ao trono em 2008.

O atual rei acredita, assim como seu pai, que a identidade nacional vem sendo ameaçada por influências exteriores. E, por isso, mantém um pé no passado, enquanto se arrisca com o outro no futuro. Concluiu com sucesso o passo em direção à democracia, convertendo a monarquia absoluta em parlamentar, apesar de alguns lamas superiores e chefes de família influentes do país terem lembrado, na ocasião, o provérbio butanês: “onde existem muitos carpinteiros, a casa não é construída”.

Do tamanho da Suíça e com pouco menos de um milhão de habitantes, encravado entre a China e a Índia, o Butão é uma terra imaculada, de montanhas altíssimas, rios cristalinos, vales cobertos por flores e bosques densos. Seu nome, “terra alta”, é o mais adequado. O país ascende como uma gigante escada dos 300 metros de suas planícies meridionais até os picos de mais de 7.000 metros, que definem a espinha do norte do Himalaia. Os butaneses o chamam de “Druk Yul” ou “Terra do Dragão do Trovão”.

Oitenta por cento de seus habitantes vivem nas aldeias e casarios pendurados nas montanhas, e sua cultura é baseada na religião budista tibetana, cheia de espíritos, deuses benevolentes, demônios terríveis e lendas ingênuas. No entanto, hoje navega entre a necessidade de se abrir ao progresso e o desejo de preservar a tradição.

A televisão por satélite, os celulares e a Internet só chegaram em 1999, foi o último país do mundo a aceitar estes avanços, e o governo segue obrigando suas mulheres a se vestirem com a tradicional kira – uma espécie de kimono – e os homens com o gho – uma túnica até os joelhos – nos colégios e lugares públicos, obrigatoriedade que aumenta nos finais de semana. A arquitetura e a decoração das casas devem seguir o estilo butanês e, apesar do próprio rei fumar há dez anos, está proibido a venda e o uso de cigarro em público.

Muitos, no entanto, pensam que o Butão está passando de um estilo de vida medieval para outro, pós-moderno, muito rapidamente: de não ter telefone para usar celulares; de não ter serviço postal para chegar à Internet e de não ter um único turista há trinta e cinco anos, para receber cerca de sessenta mil em 2013.

Em Thimphu, a capital, uma cidade maltratada até pouco tempo e agora febril com a construção de novos edifícios e de uma nova estrada de acesso, embora ainda sem semáforos, as adolescentes levam o kira obrigatório, mas voltam da escola para casa, calçando sapatos de plataforma, recém-comprados em um dos novos centros comerciais. De noite, as três ou quatro discotecas e karaokês lotam com jeans, camisetas, saias curtas e tênis de marca falsificados na China, ao som dos últimos ritmos pop vindos do ocidente materialista.

Nas calçadas da rua principal; as camponesas, de cócoras com seus cestos, oferecem punhados de pimentas e molhos de cebolas, e nas lojas são vendidos arroz e lentilhas a granel junto com batatas fritas e “vermes” importados da Índia. Enquanto isso, nas paredes, convivem pôsteres das famosas estrelas de Hollywood seminuas com os de santos lamas enrolados em suas túnicas granada. Em certos mosteiros perto da capital, alguns monges arrumam as grandes lâminas de papel onde estão impressos os antigos textos sagrados do budismo. Enquanto outros os transcrevem nos computadores. No campo de tiro, arqueiros vestidos impecavelmente com o gho tradicional e meias de lã até o joelho acertam os alvos situados a 140 metros com arcos made in USA de fibra de vidro e aço inoxidável.

butaoExiste um projeto de levar a ferrovia da Índia à capital, Thimphu, mas até agora as únicas vias de acesso são a estrada que conduz até a fronteira com a Índia e uma outra (com inúmeras voltas, buracos e deslizamentos de terra) que une, através de portos, a mais de 3.000 metros de altitude, o leste e o oeste deste reino. São 260 quilômetros que demoram dois ou três dias para serem percorridos.

Esta via é a que percorrem os turistas, que a partir do aeroporto de Paro, no leste, entram no vale de Bumthang, no centro do país, depois de atravessar três portos, cheios de bandeiras de orações e com vistas espetaculares das altas montanhas. É possível visitar dzongs; imensas fortalezas medievais de pedra caiada que abrigam, simultaneamente, o governo da província. A antiga sede da família real e o maior mosteiro do país, construído sobre uma colina. Templos, gompas, empoleirados nas encostas oferecem paisagens invioláveis. Na primavera e no outono, comemora-se nos pátios de alguns templos os festivais de danças religiosas, muito antigas e seculares.

Em seu interior, iluminados por centenas de lamparinas piscando, a profusão de deuses, em sua forma santa ou demoníaca, confunde-se o mais versado no budismo tradicional. Esses templos estão repletos de imagens sexuais, mostra da disciplina tântrica da iluminação através da união carnal. Apesar de estar proibido se beijar em público, diante das casas camponesas, o viajante encontra um enorme pênis pintado na fachada decorado com uma fita, símbolo da proteção do lama do século XVI, conhecido como o Divino Louco. Em sua peregrinação pelos mosteiros do país, aniquilou demônios e abriu inúmeras virgens para “a iluminação”, com seu “relâmpago extravagante”.

Outros viajantes escolhem um cansativo trekking pelos vales altos,  à sombra dos gigantes, como o Chomolhari e o Gangkhar Puensum (7.541 metros), o pico mais alto do mundo – nunca escalado, pois o Butão proíbe o alpinismo.
AGENDA

Como ir: o acesso para os turistas está limitado. Somente pode ser feito numa viagem organizada através de uma agência autorizada pelo governo. Que é quem se encarrega de administrar o visto.

É cobrada uma taxa diária de 250 dólares (185 euros); nos meses de março a maio e de setembro a novembro (inclusive a melhor época para ir); 200 dólares (170 euros) no resto do ano. Inclui alojamento, comidas e transporte com motorista e guia. Uma pessoa extra, 40 dólares; duas pessoas, 30 dólares. Desta quantia, 65 dólares são destinados para a educação e para a saúde gratuita dos butaneses.

A própria agência encarrega-se dos voos; de Dacca, Bangkok, Nova Deli e Katmandu a Paro. Vistas espetaculares do Himalaia, incluindo o Everest. A partir dos dois últimos pontos.

Acomodações: o alojamento incluído na tarifa básica é em hotéis de três estrelas. São simples e limpos. Com os serviços essenciais, mas existem vários resorts de luxo; Amankora, Una Paro e Taj, que exigem um adicional de 300 a 500 dólares por noite. Fora do itinerário habitual, existem fazendas e casas privadas aprovadas pelo governo.

Gastronomia: a cozinha faz uso extensivo de pimentas. Os butaneses não imaginam um prato que não seja picante. O arroz é a base da culinária; acompanhado de verduras ou legumes e de um prato de frango, vitela ou porco cozido com especiarias. Os hotéis e restaurantes para turistas oferecem cozinha indiana adaptada aos paladares mais melindrosos. Embora também seja possível encontrar pratos da cozinha ocidental.

Informação: Turismo de Butão, Butão Exclusivo.

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