Viagem: Colômbia

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Sobremesa

Texto: Francisco Poegea.

Fotos: Francisco Poegea.

AS PAISAGENS DO CAFÉ

Nas encostas dos vales férteis da cordilheira central Palenquera en Armeniaandina. Os cafezais se entrelaçam com a vegetação luxuriante; as belas cidades e povoados com traços coloniais e a arquitetura colorida constituindo o chamado “eixo cafeeiro”.

Estou na Fazenda Combia, perto de Armenia, capital do distrito de Quindio. Um dos três que compõe essa região cafeeira. Frente a uma mesa com seis pequenas xícaras de café; trinta e seis frasquinhos de seus possíveis aromas; vários grãos de diferentes variedades e um moedor. João, meu anfitrião abre um frasquinho para que eu identifique seu aroma. Vai preparando outro. Eu digo: baunilha talvez…, banana arrisco.  E esse? diz ele – mel, respondo.

Não devo ter acertado. Mas, educadamente ele me explica que foram identificados mais de oitocentos aromas no café. Dos quais trinta e seis são os típicos. E são agrupados em sabores frutados; florais; terra; caramelo; cereal; nóz; em gostos: ácido, amargo, doce e em aguado ou espesso. O café obtém o seu aroma da terra e do clima. Portanto, depende do país de origem e da variedade. O robusta é mais intenso e o arábica, produzido na Colômbia, é mais delicado e ácido. Também do processo. É possível produzir cafés com diferentes aromas a partir do mesmo produto controlando temperatura e tempo.

Complexidade na xícara

Experimentamos agora os cafés das tres xícaras que cada um de nós tem à sua frente. Qual eu mais gosto? Qual considero o melhor? Um é leve e aguado, esse eu descarto. Escolho o de sabor mais forte, com corpo untuoso e certa acidez. “Na Europa estão acostumados aos cafés torrefatos, me conta João, aqui nós preferimos os torrados mais naturais. O melhor seria este outro, pelos seus aromas florais com um corpo cremoso e uma acidez média.” Eu experimento novamente e coincido com ele.

“Sim, tem um retro gosto mais prolongado”. Após a degustação  e as características do café, que eu nunca suspeitei que fossem tão complexas, visitamos a plantação: observo como as plantas se beneficiam da sombra das bananeiras, bambus gigantes e outras arvores. “temos uma temperatura média de uns 19º, o que garante um amadurecimento lento e regular” Na mesma planta e no mesmo ramo coexistem frutos com diferentes graus de amadurecimento desde o verde até o vermelho com as flores. Por isso é necessária a colheita manual e seletiva. Depois se abre a cereja para obter os grãos do seu interior. A secagem acontece durante cinco dias ao sol e se envia para a torrefação.

Começamos nossa jornada em Manizales, capital de Caldas. Sobre a crista de uma montanha, com suas ruas e casas encostadas em ambas as ladeiras, uma paisagem magnífica de montanhas e vales verdes, que nós viemos admirar ao amanhecer, no Mirador de Chipre.

Não menos imponente é a vista da torre da Catedral, com seus 108 metros – a mais alta do país. De onde se pode ver – como não pode faltar em nenhuma cidade colombiana que se preze – uma estátua de Simón Bolivar, “o libertador”; aqui representado como um condor com suas asas abertas. Manizales é uma cidade universitária e isso lhe dá um ambiente noturno muito alegre com muitos bares e danceterias. Para os que preferem prazeres mais puros, há nos arredores, tres parques naturais: El pensamento, Los Yarumos e Río Blanco, onde é possível admirar, entre vegetações transbordantes de orquídeas, bambus gigantes e árvores grandes, centenas de pássaros, insetos, borboletas, mamíferos e até ursos dos Andes.

O turismo cafeeiro

Salento calle RealAlguns quilômetros por uma estrada de terra entre plantações para chegar à Fazenda Venécia: uma das primeiras que perceberam o seu potencial para desenvolver outro tipo de colheita: o turista. Nos anos noventa o preço do café despencou e muitos proprietários de fazendas se voltaram para o turismo para incrementar seu faturamento.

Abriram suas lindas casas com vários dormitórios e elegantes salões com mobiliário vindo da Europa para oferecer aos viajantes: cama, mesa e a experiência da vida rural. Por isso que, após a visita até a plantação e as instalações de processo, nós pudemos relaxar em uma piscina e ducha antes de dividir o jantar: um creme de abóbora e um frango ao chocolate, com um casal de jovens canadenses e um par de casais de Bogotá. Lá despertamos com o canto dos colibris e com um café da manha tradicional com ovos mexidos, tomates e arepas (tortinhas de milho).

A caminho de Pereira, desfrutamos um longo passeio pelos Termais de Santa Rosa, um conjunto de cascatas, nascentes e piscinas termais em um entorno fecundo de vegetação e vida animal que caracteriza esta região privilegiada com um clima sempre primaveril. As helicônias, “filhas da selva colombiana”, pendem de seus caules competindo em beleza com as orquídeas e as aves desse paraíso.

Esquilos, ursos preguiçosos, tatus e iguanas surgem entre os braços do rio que descende em cachoeiras – uma com mais de cem metros de altura – da montanha. As mariposas de bolinhas rubis são de tamanho tal que parecem mover as asas em câmera lenta, enquanto pássaros “sangue de toro”, de plumagem negra, peito vermelho e pico prateado, voam em grupos de galho em galho. Assim deve haver sido o paraíso.

Noites na cidade

Em Pereira, capital de Risaralda, somos recebidos por Bolivar, desta vez totalmente nú, arreando seu cavalo com gesto de paixão libertadora. Cidade de poucos de poucos atrativos turísticos, porem, animada em suas ruas comerciais e intensa vida noturna. Que pode começar no Bar Celona, como seu nome dissimula, mas a decoração não esconde,  propriedade de um torcedor do Barça, e terminar no La Cantera, do outro lado da cidade, com baile e canções cantadas em coro por uma animada concorrência.

A poucos quilômetros, a Fazenda São José, agora hotel, e a mais bela entre as que visitamos. Fundada em 1888 e rodeada de jardins cobertos por palmeiras, tamarindos e ceibas, se sobressaem as varandas cheias de flores e interiores estilo colonial espanhol com belos moveis antigos. Cada um de seus onze quartos e suítes é diferente e todas muito pessoais. Uma piscina maravilhosa e um restaurante gastronômico onde não esqueceremos o filé mignon perfeito acompanhado com deliciosas batatas e verduras.

Novas tonalidades de verdes no Valle de Cocora nos sopés picos agudos de Los Nepueblo Vados. Uma paisagem espetacular de grandes prados enfeitados com Palmas de Cera – as palmeiras más altas sobre a terra com seus 60 metros de altura, consideradas a arvore nacional. Suas copas recortadas sobre o azul intenso do céu fixam nosso olhar enquanto caminhamos até La Montaña (4 horas para ir e 4 horas para voltar) para abraçar o vale.

Chega-se a Cocora em um dos imaculados jeeps Willys estacionados na praça, brilhante de fachadas brancas e galerias de madeira pintada com cores brilhantes – azul, verde amarelo e vermelho no lindo povoado de Salento. O encanto de seus balcões coloridos, o edifício da prefeitura facilita a pintura – que continua pelas ruas em particular pela Real, lojas de artesanato e cafés, até chegar ao Alto de la Cruz com magnificas vistas.

Armenia com seu Museu do Ouro Quimbaya−la, cultura indígena da região, e a visita á fazenda Combia serão o ponto final de nossa trajetória. Além de belas paisagens, lembraremo-nos da boa educação, da cortesia e da amabilidade inatas dos habitantes do Eixo Cafeeiro e de todos os colombianos.

“O CAFÉ OBTEM SEUS AROMAS DA TERRA, DO CLIMA. E, TAMBÉM, DE SEU PROCESSO; O ROBUSTA É MAIS INTENSO E O ARÁBICA, PRODUZIDO NA COLOMBIA. MAIS DELICADO E ACIDO”.

 

 

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