Londres: o vinho e seu protagonismo incomum

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londresA capital britânica está cheia de estímulos para os sentidos e as inquietudes culturais. Por isso, o vinho – que encaixa bem nessa junção de atrativos – tem na cidade um protagonismo incomum para um país tradicionalmente não produtor. Londres é, sem dúvida, a capital para o vinho.

Não é novidade que Londres é um ninho de tendências no qual o resto da Europa se espelha. E que o interesse dos londrinos pelo vinho é respeitável. A cidade do Big Ben olha bodegas e distribuidores com um interesse. Que, apesar de ser um mercado maduro e com pouco crescimento; mostra-se como um espelho para ser olhado. Na metrópole britânica, é fácil encontrá-lo. Está presente em bares; lojas; restaurantes; grandes armazéns; Wine Bars… É verdade que a cerveja é a bebida favorita dos ingleses. Mas o vinho persegue-lhe os passos. Não há como esquecer que, como afirma um dos maiores experts vinícolas britânicos; o Master of Wine, Tim Atkin, “Londres marca tendência no resto do Reino Unido”.

Vinho na cidade

O interesse pelo vinho em Londres é tanto que; desde novembro de 2013 já é possível encontrar a bebida elaborada em uma adega urbana. A London Cru. Situada em uma antiga destilaria de gin, em Earl’s Court, South Kensington. É um projeto dirigido, desde o início, pelo expert australiano Gavin Monery. E pelo aspirante a Master of Wine, Mark Andrew. London Cru é provida de toneladas de uvas italianas e francesas. As frutas chegam até o centro de Londres em caminhões refrigerados, em 36 horas, no máximo. E com elas são elaborados vinhos “top” em meio urbano. Monery comenta que “temos a liberdade de criar os estilos que queremos sem as regras que se aplicam em tantas regiões vinícolas.” Os visitantes também podem fazer vinhos personalizados para levar e beber em casa. Visitar as instalações para ver como se elabora. Catar ou assistir a cursos.

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Mas London Cru não é o único espaço onde se desata a paixão pelo vinho. Em Londres, os habitantes e visitantes vivem e desfrutam a rua. (Apesar da chuva e dos constantes dias nublados). Percebe-se um crescente interesse foodie, por exemplo, em mercados como Borough Market, cujas bancas de queijos, ostras ou verduras e os locais do entorno estão repletos de gente e as mesas cheias. Isso porque consumir vinho na cidade não é um capricho barato: é difícil encontrar locais apetecíveis onde o preço seja menor do que três ou quatro libras (3,6 e 4,8 euros).

Paraísos de enófilos

Não muito longe do magnífico Borough Market está Vinopólis, outro templo dedicado ao “elixir de Baco”. No qual se pode degustar garrafas de todos os tipos. Graças a distribuidores automáticos, que funcionam introduzindo um cartão carregado com dinheiro. E onde é possível encontrar os vinhos separados por sensações; redondos e potentes, maduros e frutados… Uma comunicação sensível, que atrai os consumidores jovens.

As vinhotecas e a legenda “vinho” em cartazes de supermercados são frequentes no centro de Londres. Os londrinos seguem  com pressa, num ritmo implacável e acelerado, e o vinho talvez sirva como um dos seus abrigos para o sossego. O comprador pode optar por grandes espaços, como o gigante Laithwaite’s, com lugares de cata e degustação que permitem conhecer o vinho antes de comprá-lo, ou lojas mais modestas em bairros centrais, como a Amathus, com duas filiais, uma na chamada City ou centro financeiro, e outra no Soho, mais acolhedora, onde se pode assistir a cursos sobre vinhos e destilados, além de comprá-los para consumir em casa.

Paraísos de enófilos

londresDe acordo Atkin, o costume de consumir vinho é praticado nas casas do Reino Unido por 63% dos adultos – ainda que seja um item de luxo nas casas inglesas. Outro estabelecimento imperdível é a Berry Bros & Rudd, em St. James Street, no bairro central de Mayfair.  Mesmo sem ser um ávido bebedor de vinho, esta charmosa loja é uma atração em si, apenas pelas histórias que abarca.

Fundada em 1698 pela viúva Bourne. Em suas cavas reuniu secretamente Napoleão, durante seu exílio. São provedores da Casa Real Britânica desde o reinado de Jorge III (1760-1811) e conserva o nome das famílias proprietárias negociantes de vinhos e destilados e criadores, entre outros, do whisky Cutty Sark. Nas prateleiras de Berry Bros, fora marcas de vinhos internacionais, pode-se encontrar até 70 referências de vinhos e bebidas espirituosas com seus respectivos produtores (incluindo alguns espanhóis), cujo nome aparece no rótulo. Entre sua equipe pode haver até oito Masters of Wine, que além de vender bebidas, realizam catas temáticas que fazem as delícias de qualquer vinófilo. Atualmente, seus armazéns em Hampshire albergam mais de oito milhões de garrafas de estoque próprio e de clientes privados, que contratam suas cavas com temperatura controlada.

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O maravilhoso mundo da grande superfície

Além de estar nos mercados de rua onde se pode encontrar vinhos e acompanhá-los com pratos internacionais, como o próprio Borough Market ou os arredores de Portobello, o mercado vintage mais conhecido de Londres, cheio de locais cool com vinhos por taças, o vinho é uma atração de compra nos grandes armazéns. Há espaços que também merecem uma visita rápida ou inclusive, para amantes de ofertas, promoções e pacotes especiais: o gigante Marks & Spencer é uma opção recomendável. Nada tão estimulante como as vinotecas, mas um consolo para apurados.

Sherry bars e cava bars, a grande esperança branca

O consumo per capita do Reino Unido, de uns 26 litros anuais, segundo dados da Wine & Spirit Trade Association 2013, não está entre os primeiros do mundo (cujos lugares ocupam França e Itália). Mas em Londres, essa cidade trendy, o vinho é visto por onde quer que você caminhe, e os Wine Bars já não são apenas uma tendência, mas uma realidade. Além deles, há os locais especializados em tipos concretos de vinho, um caminho que, para Atkin, “ainda só está começando a ser uma escolha real.”.

Antes de percorrer um sherry bar, pode-se abrir o apetite em um encantador local chamado Gordon’s. Aberto em 1890, é supostamente o bar mais velho de Londres. Se não para os garçons e o público, sem dúvida é para os mais moderninhos. É um lugar em que o tempo parece ter parado. Pátina indelével da história pode ser vista nos tetos muito baixos e empoeirados; barras de ferro separando o que parecem antigas adegas de guarda, ou velas que vão deixando vestígios em velhas garrafas usadas como candelabro…

No geral, seus atrativos, não em vão, aparecem retratados no precioso livro The most beautiful cellars in the world. Aqui, além de vinhos por taças, o mais típico é tomar portos, xerez e madeiras diretamente servidos de pequenos barris, que bodegas como Barbadillo confeccionam sob medida para eles. Abel Lusa, riojano de Ezcaray, empreendedor (palavra tão na moda que vem sendo pronunciada como um curativo para cobrir o sangramento da crise), há duas décadas se estabeleceu em Londres, e acredita firmemente no futuro dos sherry bars. Em 1995, com pouco mais de 20 anos, abriu um bem sucedido restaurante, em Old Brompton Road (Chelsea, a parte nobre da cidade), chamado de Cambio de Tercio, com cozinha espanhola e decoração cañí. Esta, a sua primeira loja na capital britânica, deu-lhe renome suficiente para inaugurar espaços gastronômicos com acento espanhol.

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Atualmente, já são cinco que levam suas características letras T&C: a família aumentou com Tendido Cero, Tendido Cuatro, C. Tonic Bar (este, local de Gin&Tonics, é a mais recente novidade) e o mais atrevido, o sherry bar Capote y Toros, cuja carta de xerez inclui entre 10 a 11 referências de cada um destes vinhos: manzanilla (camomila), palo cortado (“pau cortado”), amontillado, oloroso e alguns menos doces PX (ou Pedro Ximénez). Além de vinhos espanhóis em garrafas magnum de formato de meio litro, toda uma série de estímulos para o maior consumidor de jerez do mundo, o inglês, que é bem experiente ainda mais com uma carta na qual todos os pratos incluem vinho Jerez na receita. As touradas e flamenco inundam o lugar, onde se pode escutar o rasgar de uma guitarra nas horas de maior afluência de público.

Capote y Toro não é o único sherry bar da cidade. Onde há lugares como Barrafina; Cigala; Fine ou Pepito. Este último aberto pelo britânico Richard Bigg. Fundador do restaurante espanhol Camino, en King’s Cross. Que se atreveu com o bar Taça de Cava (adivinhem que vinhos se servem em seus balcões) na Black Friars Lane, próximo do Tâmis. Na verdade, o cava é uma bebida pungente no país. Uma vez que mais de um terço dos 9 milhões de casos de espumante que entra no Reino Unido é espanhol.

Naturais, por favor

Outra tendência também presente em países europeus é a de bares de vinhos naturais, biodinâmicos e ecológicos. Um bom exemplo é o chamado “Green Man & French Horn”, em West End (junto a Trafalgar Square) um lugar para autênticos “geeks” do vinho com fraqueza pela Gamay, uva do Loire , famosa por ser a matéria-prima do beaujolais, aberto pelos proprietários de terroirs próximos – pequeno, mas célebre wine bar onde se encontra, sobretudo, vinhos espanhóis, italianos e franceses. Seus proprietários têm outros dois estabelecimentos: Brawn, na Columbia Road – também centrado em vinhos naturais –, e Soif (Battersea Rise), com uma carta mais eclética.

 

Autor: Raquel Pardo

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