Índia: Conheça mais sobre o país e sobre Chai

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Té Chai, a Índia em uma xícara

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O segundo país mais populoso. É uma bomba sensorial tão grande que pode esgotar as palavras daqueles que tentam descrevê-lo. Picante e quente, o chai se oferece para fazer uma metáfora.

Estado de Kerala, sul da Índia. O dono de uma loja de especiarias da cidade de Alleppey; propõe um truque gastronômico. “Senhoras e senhores, aproximem-se”. Mistura um pouco de anis estrelado com cardamomo; cravo; uns grãos de pimenta negra; gengibre; cominho e canela. O mágico improvisado remove os ingredientes da palma da sua mão. Esmaga-os com uma pequena pinça e estende a mão para que o aroma chegue aos narizes apontados. “Tem cheiro de quê?” – pergunta.

A masala chai

O chá negro servido com leite e aromatizado com especiarias é a Índia reduzida a uma proporção tão pequena que cabe em uma única xícara de café. A infusão é candidata a converter-se na bebida nacional do país, embora já detenha o título não oficialmente. O chai se consome quente – independente da estação –, muito açucarado, não importando a hora do dia, e com o marcado toque de especiarias, como toda a gastronomia do país. As bancas indianas que o vendem são como as tabernas no costume espanhol.

Estão onde quer que se vá, seja no norte ou sul, em Calcutá ou em Mumbai. Sempre há alguém controlando a chama de um forninho, mexendo o líquido com perícia para que não transborde do tacho onde é preparado. Se alguém não encontra um chai, o chai o encontrará. Um sem-fim de vendedores pulula pelas cidades com bules de chá nas mãos para que a bebida ocre chegue até o último recanto. A melodia alerta quando estão por perto: “Chai, chai, chai, chai…”.

viagem indiaQuem provar uma taça na cidade meridional de Munnar reconhecerá, aos goles, o sabor de chá de textura áspera.

A localidade encontra-se em uma das grandes áreas de cultivo da Índia. Depois dos célebres jardins de Darjeeling. Uma vez ali, a alusão é quase literal: tudo o que os olhos alcançam são plantas de chá. As colinas verdes sobem e baixam, sinuosas, com arbustos de altura média, e entre elas aparecem, de vez em quando, mulheres envoltas em lonas azuis recolhendo as folhas. É fácil de adivinhar onde passaram a tesoura: as plantações já trabalhadas têm o ar de quem acaba de visitar o cabeleireiro. Na cidade de Munnar não falta oportunidade para comprar e provar os resultados desse trabalho, mas a loja oficial de KDHP, abreviação popular de seu extenso nome em inglês, é a opção preferida, pela ampla variedade de chás certificados.

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Em rota

O trem espera o viajante na cidade de Kochi, a partir de onde fará uma viagem até o Norte. A trilha sonora da viagem tem de novo a toada “Chai, chai, masala chai”. Convém esclarecer uma dúvida frequente: masala é nome genérico. Não é um sabor específico, mas uma mistura de ingredientes, como o sofrito mediterrâneo (um molho usado como base, no qual os ingredientes aromáticos variam). Por isso, toda a combinação de especiarias, às vezes, apresenta-se com o nome de chai. Os vendedores ambulantes repetem seu nome como mantra, enquanto percorrem o corredor do trem. Não é necessário ser avistado para comprá-lo, pois sempre haverá outro vendendo chai para atendê-lo.

O líquido protagonista de nossa viagem concentra a essência da Índia contemporânea, por isso surpreende abrir os livros de História e descobrir que o chá temperado com leite, na realidade, não é realmente uma receita milenar tão antiga quanto seus deuses. A classe alta britânica do século XVII amava o chá verde trazido da China. Esse capricho avultava as contas que chegavam à metrópole, que decidiu impulsionar o cultivo da planta na Índia, oferecendo terras e recursos aos europeus que se encarregassem das fazendas de chá. Assim nasceram as grandes plantações de norte a sul do país, o preço da importação do produto baixou, no final do século XVII, e a infusão converteu-se em uma bebida popular na Grã-Bretanha.

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Na Índia, no entanto, seu consumo estagnou até 1950, quando a Associação do Chá do país lançou uma grande campanha para promover a compra em um ano de excedentes. O leite, que era o “rei” do copo nos estados do Norte, em combinação com as especiarias, alterou a receita britânica. Assim, foi concebido o masala chai. Hoje, o país é o segundo produtor mundial de chá e as estatísticas mostram que perto de 80% da colheita anual se consome dentro de suas fronteiras.

Keep calm and drink chai (mantenha a calma e beba chá), diz com acerto o slogan. Os fãs indianos do chai bebem-no muito quente e com a avidez de engolidores de fogo, embora a bebida também seja um símbolo de paciência. O viajante logo descobrirá que os trâmites no país são lentos, as negociações, demoradas, e que a melhor opção para esquecer dos minutos é imitar os nativos. Assim, recomenda-se buscar um vendedor de chá e sorver a infusão com estoicismo até que a situação se resolva.

Olhar, comprar, sentir

viagem indiaO trem de nossa viagem para na cidade de Mumbai e logo aparece outro uso social do chai. No mercado Mangaldas não faltam oportunidades para fazer negócios, tampouco no Bazar Chor –“chor” é uma palavra que significa ladrão em hindi urdu – local onde apareceram alguns pertences da rainha Victoria que se perderam ao desembarcar no porto, segundo uma de tantas lendas urbanas.

Telas, antiguidades, alimentos, brilhantes utensílios de cozinha ou equipamentos em geral reclamam a atenção do transeunte, que deve ser advertido que, assim que colocar seus olhos sobre algum objeto, é altamente provável que os experientes vendedores usem a sua oratória para persuadi-lo e conduzi-lo ao interior de sua loja. “Passe, passe, olhar é grátis”.

Se ao final, sua compra foi grande, a conversa foi amena, ao ponto de confraternizarem, ou se ele espera encontrá-lo em seu estabelecimento em futuras ocasiões, oferecerá a você uma xícara de chai. Não será ele quem irá buscá-lo, enviará um subordinado ao posto mais próximo e este aparecerá em poucos minutos, com dois copos vazios e um par de porções de chá dentro de um saco plástico selado.

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Mumbai, antiga Bombaim, trocou seu nome em 1996 e hoje é uma megalópole de 12,5 milhões de habitantes, famosa pelas compras, pelos negócios e por ser a meca do cinema de Bollywood.

Seu tráfego flui e se interrompe pouco, os vendedores gritam os benefícios de seu produto, os táxis tocam a buzina uma, duas, cem vezes e a cidade é tão vibrante e movimentada que, ao final do dia, a cabeça armazena uma “biblioteca de ruídos”. Para descansar as orelhas do barulho e os olhos da cidade multíplice, a jornada pode acabar em Marine Drive, um calçadão onde as conversas daqueles que passeiam ou a toada já conhecida serão alguns dos poucos estímulos que alterarão os rumores do quebra-mar.

Qual a receita perfeita do masala chai? Pode-se dizer que todo bom viagem indiacopo tem a canela como sabor de fundo. O mais é entrar em detalhes que ninguém vai concordar. Pode-se adicionar umas folhas de menta fresca; gotas de limão ou aumentar a quantidade de gengibre para que os matizes cresçam. Os puristas vetam o uso de água durante a cocção; outros defendem empregar uma parte para cada duas de leite, com o intuito de suavizar o gosto.

Se tivesse que escrever uma receita conciliadora, mais ou menos, diria o seguinte: verta o leite frio em um recipiente, acrescente uma colherada de chá, uma pitada de especiarias e uma quantidade generosa de açúcar. Acenda o fogo e mexa, de vez em quando, enquanto espera que o leite ferva até o ponto de transbordar o tacho.

Neste instante, seja rápido para retirá-lo do calor e permita que abaixe a espuma. Volte a colocá-lo no fogo e ferva outras duas ou três vezes. Quantas vezes mais ferver, dizem, mais forte será o sabor. Por último, coe.

O trem para pela última vez. Esse percurso termina na célebre cidade sagrada, às margens do rio Ganges. Onde os fiéis hindus peregrinam, uma vez na vida. Para purificar os pecados ou vão para incinerar seus mortos em piras na beira da água.

Senhores passageiros, bem-vindos a Benarés. Todos os dias, ao amanhecer; quando a luz é de cor rosa e os primeiros raios de sol lançam faíscas sobre a água. Uma maré de corpos caminha até alguns dos degraus que conduzem ao rio para o banho ritual. As mulheres o fazem envoltas em 5 metros de sari. Há jovens que só se respingam, velhos que aproveitam para tomar banho e há aqueles que exageram e bebem a água do rio sagrado. A vontade de unir-se a eles é tentadora. Mas a lista de recomendações para o viajante estabelece deixar os banhos para águas mais claras. Então, como comungar com essa paisagem? Deve-se conquistar um degrau próximo ao burburinho. Esperar que um vendedor de chai se aproxime e beber num grande gole um copo da Índia quente, aromática e intensa.

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Autor: Ana Torres

Revista Sobremesa

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