Na cozinha tem história: A invenção dos saca-rolhas

A invenção dos saca-rolhas é a história da engenhosidade, da criatividade movida pela sede, pois entre as coisas que incendiaram a imaginação criativa do homem, o desejo de beber está em primeiro lugar. O saca-rolhas é a parábola perfeita entre a sede de vinho e o engenho humano empenhado em saciá-la.

Ao longo dos muitos séculos nos quais os homens dedicaram-se a beber vinhos e a aperfeiçoá-los, o principal problema nunca foi a forma de abri-los, mas como mantê-los.

saca rolha

Desde as ânforas gregas e romanas – provavelmente os recipientes mais perfeitos da antiguidade clássica –, até as garrafas modernas, ninguém pensou que o problema seria rolha. Porém, quando a indústria inglesa do vidro avançou sobre a fabricação das garrafas em série, por volta do século XVIII, e a técnica se estendeu pela Europa, aconteceu uma mudança sideral: pela primeira vez na história, havia um recipiente perfeito para o vinho, que não alterava seu sabor nem acelerava sua decrepitude. Mais do que isso: parecia que o sabor dos vinhos guardados era de outro planeta.  Entretanto, aí tem-se o início do problema com a rolha. Um transtorno pelo qual todos nós, bebedores de vinho, passamos quando esquecemos de levar o saca-rolhas para um acampamento: como extrair a rolha tenazmente aderida ao vidro? Com essa pergunta nasce, exatamente em 1795, o saca-rolhas.

As primeiras patentes

Foram os soldados que apresentaram uma solução inicial. Nas frentes napoleônicas, eles precisavam da necessária distração do vinho e levavam as novas garrafas para os acampamentos, ou as saqueavam nos povoados, perfeitamente vedadas com uma rolha, o que significava mais do que uma distração, uma dor de cabeça. Para abri-las, tentaram de tudo, até que um combatente teve a ideia de usar uma ferramenta espiral utilizada para a limpeza de mosquetes de “avant carga”. Se ela servia para extrair dos canos os resíduos dos disparos, poderia servir também para extrair a rolha das garrafas. E assim iluminou-se a ideia de usar o velho parafuso de Arquimedes para saciar a sede.

O assunto é polêmico, pois ter armas carregadas junto com garrafas de vinho não é algo recomendável. Mas, pode-se argumentar que, pelo menos neste ponto da história, a “inteligência militar” foi bem-sucedida.

Em 1795, ao tomar conhecimento da descoberta, um reverendo chamado Samuel Henshall, nascido em Oxford, Inglaterra, teve a genial ideia de patentear o primeiro saca-rolhas em “T”, empregando uma rosca de metal aderida a um pedaço de madeira. Consta que foi o primeiro registro de um saca-rolhas na história.

O próximo passo veio com Edward Thomason. Conhecido em Birmingham por sua criatividade e inventividade, ele adicionaria um elemento por causa da observação do saca-rolhas de Henshall: acrescentou um limite à rosca, para obrigá-la a rotacionar dentro da boca da garrafa e facilitar sua extração, desprendendo-a do vidro.

Patentes mais, patentes menos, se dermos crédito aos livros de história, essas duas patentes foram as primeiras a serem inscritas na história da propriedade intelectual. Aí se esconde outro dos dados curiosos do saca-rolhas: sua existência e seu desenvolvimento estão intimamente ligados ao de uma legislação defensora das ideias. Mas essa é outra história, da qual nos interessam alguns dados: a contar da primeira patente inglesa, houve, ao menos, mais 350 registros no Reino Unido, outros nos Estados Unidos e uma quantidade similar na França. Todas inscritas ao longo do século XIX.

Ideias para extrair uma rolha

Contudo, as diferenças entre as muitas patentes são pequenas e os

saca-rolhas podem ser classificados, segundo três tipos de espessura e segundo o princípio empregado:

  1. a) Saca-rolhas tipo Auger: a rosca é semelhante a uma escada em caracol, na qual a ponta situa-se no centro do espiral. Requer menor força, mas tende a romper a rolha, se ela não estiver em bom estado.
  1. b) Saca-rolhas tipo hélice: reconhece-se facilmente, porque a ponta da espiral não está centrada. É construído de forma que a rosca deixe um cilindro de ar em seu interior. Exige mais cuidado para introduzi-lo, mas não rompe a rolha ao removê-la.
  2. c) Saca-rolhas tipo “π” ou “ah-so”: emprega duas chapas de aço que se introduzem pelos lados da rolha, que é removida quando aplicada a torção.

A seu favor conta o fato de ser seguro. Ele não tem ponta e é ideal para rolhas velhas. A desvantagem é que as chapas geralmente se rompem com o uso e requerer perícia.

A esses três métodos básicos foram somados todo tipo de multiplicadores de força e alavancas destinados a reduzir o esforço de extrair a rolha. Os garçons atualmente empregam um com uma única alavanca e um ponto de apoio; (melhor ainda se for articulado). Por outro lado, em muitos lares, usa-se o de alavanca dupla que é prático, mas incômodo para carregar por causa do tamanho. Usam-se também os de torque que se prendem ao gargalo até ativar outra rosca que levanta a cortiça. Em geral, o saca-rolhas converteu-se em uma ferramenta efetiva e portátil.

Apesar das inumeráveis patentes, a criatividade humana não descansa. Em 1979, empregou-se um ângulo especial de hélice. (Recoberta por teflon para torná-la escorregadia), sacando a cortiça pela espiral. A descoberta completa-se com o saca-rolha pneumático (patenteado apenas depois). No qual uma agulha injeta gás dentro da garrafa gerando pressão interna e expulsando a rolha.

Diante disso, pode-se esperar que, a qualquer momento, um novo aparelho seja inventado de modo a resolver o problema da remoção da rolha.

Pensando bem; o mais provável seja que a invenção se dê no recipiente ou na própria rolha. E a longa marcha do saca-rolhas chegue ao seu fim, após dois séculos de engenhosidade e criatividade. Quem sabe?

Texto: Joaquín Hidalgo
Fotos: banco de imagens

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