A palavra na ponta da língua: O acento africano

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Muitos estrangeiros dizem que a Língua Portuguesa é “gostosa” de ouvir, soa bem, é melódica
e atraente. Mesmo que não compreendam uma vírgula do que é dito. Mesmo sem saber que aquele brasileiro nativo ao seu lado está, na verdade, tirando uma onda com ele, alemão, russo, canadense, japonês.

A manifesta riqueza do idioma deve- se, em boa parte, à salada léxica que ajudou a encorpar o vocabulário nacional. Entre tantas palavras agregadas de diversas culturas (sem desprezar a inquestionável contribuição dos índios daqui), um considerável legado cabe ao continente negro. E o mesmo vale à mesa. A raiz da culinária brasileira, como se sabe, é portuguesa, mas também ganhou corpo e personalidade com a adição destas mesmas duas famílias, a indígena e a africana.

Esta última trouxe, em particular, ingredientes inéditos. Coco, banana, café, azeite de dendê, manga, quiabo, amendoim, cana-de-açúcar, inhame, jiló, e por aí vai. Uma lista vasta como as savanas, as tribos e os dialetos da África. Também chegaram novos modos de preparo e uma espetacular arte do improviso, providencial nos tempos da colônia escravagista e essencial na própria formação da nossa escola gastronômica.

O povo negro de maior presença e influência no Brasil foi aquele que desembarcou primeiro, o bantu. Um grupo linguístico que compreende cerca de 400 línguas semelhantes, faladas em 21 países. As que mais nos impactaram foram o quimbundo (região central de Angola), o quicongo (República Popular do Congo) e o umbundo (Zâmbia e sul de Angola). E como impactaram. Principalmente na cozinha, tanto nos pratos quanto nas palavras, em sua maioria provenientes do quimbundo (que chegou a ser a língua mais falada nas regiões Norte e Sul, na infame época da escravidão).

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Hoje, só na Bahia, cerca de 5 mil palavras de origem africana são usadas de forma corrente.

Mais do que trazer até você um breve dicionário gastronômico, de fácil digestão e apreciação, a intenção desta coluna é colocar em pratos limpos os significados e histórias de palavras e expressões vinculadas à arte culinária.

MALAGUETA: a pimenta que foi trazida da Costa da Malagueta, perto de Gana. Segundo o historiador Câmara Cascudo, já havia no Brasil uma espécie semelhante.
QUIBEBE: não se toma, se come, pois é uma papa de abóbora ou banana.

A CACHAÇA, PINGA ou BIRITA é que o brasileiro gosta de beber.

MINGAU: outra papa. Originalmente, um tipo de milho cozido em água e sal. Parente da CANJICA, sucesso junino de milho verde ralado.

QUINDIM: o famoso doce que usa gema de ovo, coco e açúcar. Na Bahia também quer dizer meiguice, carinho, dengo.

GOROROBA: mais conhecida como a comida preparada com restos de alimentos, malfeita,
difícil de engolir. Seu oposto é o QUITUTE, iguaria fina e delicada.

MOCOTÓ: na tradução literal, tornozelo. Na tradução culinária, a pata de bovino utilizada como alimento.

QUITANDA: do quimbundo “kitanda”. Feira, venda, estabelecimento onde são expostas mercadorias alimentícias variadas.

MOQUECA: guisado de carne ou peixe. Carne magra é MUXIBA.

FUBÁ: uma farinha fina de milho bastante popular em bolos, e utilizada em pratos como a polenta e o ANGU (que também leva farinha de trigo, mandioca ou arroz).

Texto: Fábio Angelini

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