Por que cada vez mais as garrafas de vinho têm tampas alternativas e não rolhas de cortiça natural?

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Nove a cada dez garrafas no mundo têm uma tampa alternativa à cortiça natural. Este número descreve a experiência do consumidor e pode ser observado por você na sua casa. Não era assim há dez anos, não é?
Claro que essa única garrafa com a rolha natural não é, obviamente, uma garrafa accessível. Porque enquanto a cortiça é reservada para os preços altos. As tampas alternativas ocupam o terreno dos segmentos de valores médios e baixos.

Quais são as razões para essa mudança e quais vantagens ou desvantagens ela oferece para os consumidores de vinho?

Motivo histórico
shutterstock_68947018Segundo o International Wine Challenge (IWC), o maior concurso de vinhos do mundo, entre 5 e 6% dos vinhos que participam da contenda apresentam algum tipo de defeito associado ao fechamento da garrafa. Sabor de cortiça, oxidação ou redução são os três mais comuns, sendo o primeiro mais conhecido pelo consumidor.

Denominado TCA, trata-se de um aroma desagradável, que lembra um porão úmido ou clausura. E a responsável por isso é a rolha. Por trás  desse desagradável sabor, está um grupo de bactérias que atacou o Alcornoque (árvore que produz a cortiça) antes de se produzir a rolha e que, em contato com o vinho, transforma-o em algo que não dá para beber.

Segundo os dados do IWC, do total de vinte mil amostras que são catadas por ano, o TCA é o responsável pelo menos por 2,5% dos defeitos, uma cifra que se mantém há muito tempo. Para resolver esse problema, na década de 1980 algumas indústrias vinculadas à elaboração de plásticos e borrachas apresentaram uma primeira solução alternativa: tampas sintéticas. Elas oferecem um fechamento seguro e inerte ao vinho. Paralelamente, as tampas Stelvin chamadas de tampa de rosca, também foram apresentadas como solução. Mas na corrida para se estabelecer a futura tampa para as garrafas de vinho, as alternativas atravessaram experiências boas e más.

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Entre as más, a dificuldade de utilizar o saca-rolhas em alguns tipos de rolha sintética  ou a dureza da extração. Já a tampa de rosca não conseguiu cativar o consumidor, que ainda hoje, segundo estudos, as considera desprestigiantes. Entre as experiências boas, por outro lado, é que se eliminaram os riscos de contaminação por TCA. Mas há outros defeitos, como os que estão associados à óxido-redução do vinho, que, em média, representam a metade dos defeitos que se encontram, também segundo o IWC. Por esse grupo de defeitos, são responsáveis precisamente as tampas alternativas. Explicamos:

O futuro das tampas técnicas
Acontece que, uma vez que o vinho está na garrafa,  as poucas moléculas tampa
de oxigênio que ficaram presas no interior ou que entram através da rolha natural, são a chave para sua evolução dentro do recipiente .Esta questão foi reconhecida recentemente, na mudança de milênio, quando as tampas alternativas foram responsáveis, em certa medida, pelo defeito de redução. Em outras palavras: por falta de oxigenação, em particular nos vinhos tintos, sentia-se um odor de ovo podre.

A solução veio de mãos dadas com a ciência. Empresas como Nomacorc e Diam, começaram a estudar a forma em que o oxigênio penetrava na garrafa, uma vez fechada a mesma. E descobriram que a rolha natural oferecia uma filtração na ordem de uma parte por milhão, que era a chave para que o vinho não se reduzisse e apresentasse cheiro de ovo podre.

O problema é que a rolha natural não garante uniformidade dessa dosagem entre a mesma partida de cortiça. E assim, é a responsável pela oxidação, quando dosificada em excesso. Trata-se do defeito inverso da redução, que é a cor de telha ou marrom, sem aromas atrativos e caráter diluído.

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Com isso, a Nomacorc, empresa de origem belga, com fábricas nos Estados Unidos e agora também na Argentina, começou a trabalhar na hipótese de obter uma tampa de goma expandida que, além de evitar o TCA, permitisse dosificar o oxigênio previsivelmente.

Na década de 2000 criaram uma gama de tampas chamadas Select Series, que oferecem diferentes níveis de oxigenação: um vinho tinto, por exemplo, pode resultar em frutado ou reduzido, conforme se utiliza uma ou outra tampa no mesmo prazo de tempo, enquanto que outro reduzido pode ficar frutado assim que for cumprido o processo de oxigenação programado.

Desta forma, a tampa também é uma ferramenta enológica. Para que um vinho chegue ao ponto ótimo de consumo, o enólogo sabe que pode engarrafá-lo com uma tampa que, aos dois meses, permita ao vinho uma evolução plena. Ou propositalmente o contrário. Qualquer que seja o caso, uma coisa é certa: com a nova geração de tampas Diam ou Nomacorc, os defeitos na hora de se tomar um bom vinho são coisa do passado.

Por isso, cada vez mais, os vinhos de alta rotatividade. Os cotidianos e os de gama média são fechados com tampas técnicas, como são denominadas agora. São tampas que oferecem um segredo invisível para o consumidor. E que garantem, na hora de pagar uma garrafa,  que você vai beber aquilo que comprou, e não uma surpresa.

Para descobrir mais sobre o assunto, assista ao nosso vídeo Minuto sobre vinho: Rolha natural ou sintética

Texto: Joaquin Hidalgo

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31 Comentários

  1. Aos bons conhecedores e apreciadores de vinho, desejo sucesso na abertura de seu vinho predileto. O charme e ritual também são indiscutíveis na hora de abrir uma garrafa com rolha. Mas levando em conta que estamos vivendo num mundo em plena evolução tecnológica, eu voto a favor das novas “tampas” com rosca.
    Eu gosto muito de vinho, e por isso digo que a meu ver, as rolhas são um ponto desfavorável. Já quebrei muita rolha, muito saca rolha e algumas garrafas também, justamente no momento da sua abertura. E claro, além de perder o líquido dos Deuses, arrumei uma bela confusão local. Todo o glamour daquele momento foi pelos ares.

    • Muito bom! Parabéns aos Portugueses que sabem muito sobre vinho! E mais … Alcornoque em bom português chama-se SOBREIRO árvore protegida por Lei Ambiental em Portugal.

  2. José Luiz Montagnana em

    Estamos em um progresso científico sem precedentes.
    O vinho torna-se, a cada dia, mesmo no Brasil de clima mais quente, uma bebida cada vez mais apreciada.
    Será que o glamour, para mim o contrario, o horror das cortiças, prevalecerá?
    Já perdi vinhos bons com esse problema da cortiça.
    As tampas de rosca são perfeitas para nossos dias…higiênicas, fácil de abrir,
    permite fechamento fácil e garantido, ao contrario da cortiça que uma vez furada não garante a qualidade.
    Aos apaixonados pela cortiça, usem Ford “bigode”, máquinas fotográficas de papel, telefone de parede, esqueçam Tesla, Google, Delphi, Apple. Ah da licença!!!!

    xingu

    • A REVISTA SOCIEDADE DA MESA em

      Olá José Luiz,

      Concordo com você. E chegará de fato um momento em que todos os consumidores de vinho também concordem.
      Quando será é que é dificil saber.

      Dario

      • Carlos Alberto Lyra em

        Tenho observado que os vinhos com tampa de rosca estão mais “autênticos” , os de tampa de cortiça alteram o sabor ou estragam o vinho em pouco tempo principalmente no nosso clima .

  3. Novas Tecnologias são sempre bem vindas ! E porque não aceitarmos um novo fechamento com rolhas sintéticas? Um vez que já foi provado que são melhores que as de cortiça?
    Tomar Vinho por si só já é um gesto glamouroso 😉 Então, se Rolha sintética não compromete o gosto, textura, aroma e todas as características do vinho e não prejudica nossa saúde. Que venham a modernidade. 😀

    Rose Silva, Rio de Janeiro,

    • Olá Alencastro Zim Filho, ficamos felizes que tenha gostado. Continuaremos empenhados em publicar matérias tão boas quanto. Um brinde a você!

  4. Eu tenho observado que vez por outra ao comprar o vinho verifico que a a tampa é de alumínio o que me facilita na hora de abrir a garrafa. Pra mim a tampa de alumínio é melhor e me induz a consumi-lo mais rapidamente já que ao abrir a garrafa não consigo consumi-lo todo imediatamente e aí necessito conserva-lo em refrigerador para não perder a qualidade do produto. Mas ainda assim ao tornar a consumidor o produtor após aberto a rolha torna-se um obstáculo para alcançar o conteúdo da garrafa.

  5. Sou absolutamente zero como conhecedor de vinhos mas gosto de tomar um bom vinho vez ou outra, dependendo da ocasião, alimento,oportinidade. Tenho alguns vinhos em casa, amazenados deitados, em ambiente escuro mas não na temperatura ideal .Muito bom ot exto acima, acho que vou procurar um bom livro que aborde o assunto! E entrar neste site mais vezes!

  6. Vivendo aprendendo, já bebi vinho estragado, não acreditei quando olhei para a garrafa notei uma marca na rolha de cortiça quando bebi observei que o vinho estava estragado, realmente tinha dúvida com relação ao fechamento das garrafas, ou seja qual seria a melhor, rolha de cortiça, plástico ou de rosca, a partir de agora só vou comprar vinho de tampa de rosca ou de plástico, muito obrigado gente.

    • “Concordo com quase tudo que foi dito . Ao meu ver . as rolhas alternativas são para vinhos com pouca duração .Em relação aos vinhos que abrem e degusta , não deverá retornar à adega . Pois o sabor não será o mesmos . Como se explica os vinhos de guarda , que ficam durante quarenta , cinquenta anos e o sabor continua inalterado ?

  7. A rolha de cortiça obriga que a garrafa fique deitada ,para que o vinho embeba a rolha e não deixe o oxigênio penetrar na garrafa pois , se a garrafa ficar em pé , com o tempo , a rolha se retrai permitindo a passagem do oxigênio e o subsequente avinagramento ; com a rolha sintéica ou de rosca , o comerciante pode expor a garrafa em pé , facilitando a visualização por parte do cliente!

  8. Não entendo de vinhos, mas adoro este novo sistema de fechamento, uma vez não pude tomar um vinho por que estava sozinha e não consegui abrir a rolha, kkkkk. Viva a modernidade, muito bom o texto,parabéns.

  9. Sou apreciador de vinhos italianos DOCG (Brunello de Montalcino, Barolo, Chianti, etc) e todos, literalmente todos, utilizam rolhas de cortica de primeirissima qualidade (diametro e comprimento) que por seem vinhos de guarda requerem um fechamento que garanta a qualidade e longevidade dos vinhos. Continuarei favoravel as rolhas de cortica em vinhos especiais e de guarda.

  10. HIPERIDES FERREIRA DE MELLO em

    Confesso que fiquei super confuso com as informações sobre as rolhas de cortiças. Por que elas há décadas, para não dizer séculos, vinham sendo usadas, os vinhos sempre bons e agora vem essa informação que ela estraga os vinhos? E que as tampas de rosca oxidam o vinho e que as sintéticas não não permitem a oxigenização dos vinhos? Ou entendi tudo errado? Informo que tomo vinho todos os dias no jantar e as vezes no almoço também. Preferências de origem: chilenos, argentinos/de mendoza e franceses de vez em quando.

  11. Paulo A. Pasqualotto em

    Sou apreciador de vinhos preferencialmente dos tintos, tenho quadros feitos com rolhas de cortiça; se for para mudar, prefiro então a rolha sintética que não altera o sabor do vinho e da mais glamour ao abrir uma garrafa.

  12. A maioria dos vinhos que apresentam alterações de sabor ou se estragam nas garrafas é provocado pelo seu mau armazenamento e não pelas rolhas (tampas). Calor, sol, exposição á luz por muito tempo. É o que a gente vê em muitos restaurantes e supermercados.

  13. Tenho tomado muitos vinhos de diferentes nacionalidades, com fechamentos de rolha, plástico e rosca. A minha experiência mais desagradável foi com uma garrafa de um vinho muito bem considerado com fechamento de rolha, servido numa degustação. Estava guardando esta preciosidade (garrafa de mais de 700 reais) para receber um amigo que já não via fazia algum tempo. No entanto, já havia tomado conhecimento do fechamento das garrafas de vinho e seus problemas e resolvi me antecipar à abertura deste vinho, que estava na minha adega há muito tempo, Qual não foi a minha surpresa ao ver e sentir o produto completamente deteriolado. Evidente que, mesmo com muita pena, joguei fora todo o conteúdo. Foi mais um
    aprendizado para o meu conhecimento.

    • Será que não foi mal acondicionado na loja onde você o adquiriu?
      Será que pelo menos permaneceu deitado?
      Bom, este é um risco, quase sempre é impossível observar tanto a redução quanto a oxidação através da garrafa, compramos de boa fé…
      Só gostaria de deixar uma dica que na verdade não remedia a perda de um vinho caro, mas pelo menos é algo construtivo: vinho bom estragado muitas vezes pode ser usado na culinária ou, se misturar um pouquinho de vinagre branco na garrafa, como vinagre de qualidade inigualável.

  14. DE FATO A ROLHA DE CORTIÇA TEM UMA CHARME TODO ESPECIAL POIS NA HORA DE SERVIR-SE O VINHO EXISTE UM CLIMA DE AGUARDO E EXPECATIVA EM SUA ABERTURA, NO ENTANTO COM A ROLHA TECNICA O VINHO TEM SUAS CARACTERISTICAS TODAS PRESERVADAS CONFORME O QUE ACABO DE LER E QUERO CRER QUE TODAS AS ANALISES FORAM FEITAS O LONGO DE PELO MENOS DUAS DECADAS.
    TEMOS TAMBÉM QUE CONCORDAR QUE A PRODUÇÃO DE ROLHAS/COLETAS DE SUAS ARVORES NÃO ESTÃO CONSEGUINDO ACOMPANHAR O AUMENTO DE PRODUÇÃO E DEMANDA DE TÃO APRECIADA BEBIDA.
    ACREDITAMOS QUE ESSA SEJA UMA ALTERNATIVA VIAVEL E POSITIVA NESSE CASO.

  15. Parabéns a Revosta A Sociedade da Mesa pela publicação do texto de Joaquim Hidalgo!

    Um verdadeiro aprendizado e como um bom vinho engarrafado nós também estamos evoluindo com a história e a tecnologia associada a enologia.

  16. Lourenço costa em

    Ainda sou favorável às rolhas de cortiça. Afinal por décadas a fio elas foram utilizadas no fechamento das garrafas de vinho e sendo bebida de guarda preferio o fechamento tradicional.
    Tenho adquirido vinho fechados com rolhas técnica (sintéticas e de rosca) mas confesso o meu preconceito com esse tipo de fechamento. Dá a impressão de vinho de baixa qualidade.

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