A palavra na ponta da língua: Não troque alhos por bugalhos

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a palavra na ponta da lingua

Se existe um tema capaz de deixar qualquer redator de barriga cheia, é a expressão idiomática. O dito popular empregado informalmente, o mote espirituoso, metafórico ou metonímico, nascido das regionalidades e assimilado pelo repertório linguístico de uma cultura nacional. Não é preciso tirar leite de pedra, não é o caso de descascar um abacaxi, os exemplos e usos não são café pequeno, não senhor.

Existem às pencas e são arroz de festa nas conversas do dia a dia, nos programas televisivos e diálogos de WhatsApp, nos impressos e nas vozes dos rádios e cantores, atores e autores, de teatro, novela e literatura. E, já que o assunto está dando sopa, vamos a ele, sem viajar na maionese.

Os fraseologismos, gastronômicos ou não, surgem espontaneamente. Em geral, brotam da população não habituada às normas cultas do idioma. Por isso, uma de suas características é não ter papas na língua, é carregar pitadas irônicas, vulgares ou jocosas, que logo temperam o vocabulário de uma localidade, estado ou nação, e logo alimentam todas as camadas sociais. Na prática, tais manifestações são utilizadas quando se deseja acrescentar à mensagem algo que a linguagem convencional não supre inteiramente. Enriquecem um diálogo, dão força ou sutileza a uma ideia, enfatizam um sentimento ou atenuam o impacto de uma declaração pesada.

O brasileiro, em particular, longe de ser um povo sem sal, pira na batatinha com sua criatividade, aliada ao abrangente mundo da culinária, que também proporciona um bom caldo. Óbvio que o mesmo se sucede em outros países, mas a riqueza do idioma português dá uma colher de chá e ajuda a encher o caneco das invencionices. Difícil imaginar como é na Noruega. A diferença deve ser da água para o vinho.

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Porém, há certos códigos universais, como o “farinha do mesmo saco”. A frase, normalmente usada para acentuar comportamentos ou pessoas reprováveis, vem do latim “homines sunt ejusdem farinae”, que significa “homens da mesma farinha”. A explicação está no processo de se colocar farinha boa e farinha ruim em sacos distintos. Ou seja, os bons andam com os bons, e os maus, com aqueles da sua laia. A sentença virou carne de vaca, talvez até os esquimós e tuaregues a conheçam.

Curiosa também é a máxima “dar uma banana”, uma das únicas que é acompanhada gestualmente (e ofensivamente). Espanha, Itália e Portugal servem-se só da mímica, enquanto que a alusão à banana é exclusividade nossa. Aliás, vale mencionar que a quantidade de expressões com alimentos é muito maior do que com bebidas. Osso duro de roer. Chorar as pitangas. Resolver um pepino. Comer o pão que o diabo amassou. Pisar no tomate. Falar abobrinha. De fato, legumes, carnes, frutas e vegetais sempre puxam a brasa pra sua sardinha.

Bem, caro leitor, no frigir dos ovos, o assunto que parecia uma batata quente foi mamão com açúcar. E para que esta coluna jamais acabe em pizza, posso adiantar que já comecei a botar a mão na massa para o próximo texto. Até lá.

Texto: Fábio Angelini

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