A palavra na ponta da língua: Pane nostrum

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Nada mais natural do que um país com rica mistura racial e cultural, com dimensões continentais, dar nomes absolutamente diferentes à mesma coisa. Um dos campeões de denominações (não só de acordo com a região, mas até com cada cidade) é também um dos alimentos mais simbólicos e adorados do nosso país: o pão francês. Pão que, de francês, tem apenas a inspiração.

Ora, por que não pão sírio, pão sueco, pão italiano? Voltemos uns 200 anos no tempo, ao desembarque da corte portuguesa no Brasil. Junto com ela, vieram também os padeiros lusitanos e a farinha de trigo. Até então, só se comia a farinha de mandioca e de biju. Pois bem, foi por essa época que teve início a escalada de padarias dos Manoéis, Joaquins, Vicentes e Pedros. Atualmente, poucos países têm tantas padarias como a gente: são aproximadamente 70 mil.

No início do século XX, a cultura da Belle Époque era febre na sociedade. E foi colocado um desafio aos padeiros de plantão: substituir o pão escuro corrente por aquele que se consumia na França: menor, mais alongado, de miolo branco e crosta dourada (o precursor da baguete).

Mesmo levando um pouco de açúcar e gordura na massa antes de ir ao forno – diferente dos exemplares da festejada boulangerie francesa –, o resultado foi satisfatório. A nova aparência sugeria um pão de qualidade superior e o nome “pão francês” pegou. Mas esta é apenas parte da história.

Na Baixada Santista, chamam-no de média; no Rio Grande do Sul e na Bahia, cacetinho; no Pará, pão careca; em Florianópolis, pão de trigo; em Ribeirão Preto, filão; em São Paulo, pãozinho; no Ceará, carioquinha; em Sergipe, pão Jacó. E assim por diante. Cada praça resolveu nomear seu pão francês de acordo com os usos e costumes locais. E por que não? Há muitos mais. Pão de sal, bengalinha, pão de bico, pão d’água…

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Em São Luís do Maranhão, o pão francês é massa grossa, mas se quiser massa fina, peça um pão sovado. Se você estiver fora do Brasil, a coisa complica um pouco, embora vários países reconheçam o nosso pão francês como “pão brasileiro”. Em Portugal, o similar tem o nome de paposseco ou carcaça. Nos Estados Unidos, jamais peça um “french bread”, não vai dar em nada. Peça o “roll”, que é o correspondente ianque.

Difícil abandonar esse hábito. Um pão quentinho e crocante é praticamente irresistível. Independente do termo ou idioma, é bem brasileiro comer um pão francês com manteiga no café da manhã ou no lanche da tarde, no balcão da padaria da esquina, no lanche da escola, na viagem improvisada. Ou no mês do cinto apertado.

Desde 20 de junho de 2006, o produto passou a ser vendido por peso em todo o território nacional, encarecendo-o gradativa e continuamente. Ainda assim, é um item básico barato, em torno de 45 centavos a unidade. O que ajuda a explicar porque cada brasileiro consome cerca de 20 quilos de pão francês por ano. Dá um por dia. Ou um total de 75 bilhões de pãezinhos em 12 meses.

Hoje, a política de preços não parece ter tanto a ver com o velho panis et circenses. O brasileiro não parece tão bem alimentado assim, e nem tão distraído como em outros tempos.

Texto: Fábio Angelini

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