Na ponta da língua: Que língua é essa?

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Recentemente, línguas de fogo puseram abaixo o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Para o consolo de todos, a nossa língua permanece firme e forte. Ou melhor, as nossas línguas.

Graças a esse potente músculo e órgão sensorial da boca, os vertebrados podem degustar, deglutir e mastigar. Na sua ausência, o paladar humano seria reduzido praticamente a zero, e a sola do sapato teria o mesmo gosto de um vitel tonné. As papilas presentes na língua estão conectadas a terminações nervosas que captam os estímulos de sabor. A informação chega ao cérebro, que a decodifica em cinco sensações gustatórias: doce, azedo, amargo, salgado e umami. Dessas sensações combinadas, nascem infinitos sabores.

A língua também entra na articulação dos sons. Sem ela, não haveria mandarim, tupiguarani, hindi e nenhum dos outros 7000 idiomas conhecidos. Não haveria a fala e nem a comunicação via voz, tal como as conhecemos. Não se falaria sequer a língua do pê. A escrita, existindo, teria outra base. E, muito provavelmente, a língua dos sinais seria mais desenvolvida e comandaria a maioria das conversas. “Língua” vem do latim lingua. E dela vêm outras tantas expressões e palavras – muitas delas habitando o mundo das comidas. Há várias receitas nacionais e internacionais de língua de boi ou de vitela, em geral utilizando algum vinho como ingrediente.

A língua suína, por sua vez, é mais apreciada nos caldeirões fumegantes de feijoada brasileira. Não são unanimidade, mas é bom morder a língua antes de criticar ou provar um desses pratos, bem feitinho. Opostamente, há iguarias que até deixam a língua formigando, quase não têm rejeição. Como a língua de gato, chocolatinho achatado e espichado que aumenta a produção de saliva das crianças e de muitos crescidinhos. Ou a língua de sogra (mesmo aquela exibida em vitrine de padaria), um rolinho de massa coberto com açúcar, coco ralado fresco e gema. Assim batizado pelo mesmo motivo que o brinquedo de papel que se assopra: é comprido como “língua de sogra”.

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Por falar em massa, vamos falar do linguine. O que significa? Pequenas línguas. É um tipo de macarrão oriundo de Gênova, apresentado em tiras finas e amassadas, de extensão semelhante ao espaguete. Bastante tradicional por lá, é a receita de linguine alle vongole.
Dos mares, pescam um ser da família dos pleuronectídeos, popularmente cozido, frito, servido e denominado linguado. Possivelmente, por causa do seu corpo delgado. O apelido bem que poderia ser mais criativo, pois trata-se de um peixe fora da curva: corpo assimétrico, nadadeira dorsal única e ambos os olhos de um lado só da cabeça. Não que isso importe no prato. Carne branca, macia e nobre. À la meunière. Ou com banana e compota de tomate.

O lingueirão fala a mesma língua dos peixes exóticos. Peixe navalha entre nós, razorfish em inglês, navalheira em Portugal. É um molusco bivalve com mais ou menos 10cm, que mora em uma concha castanha, alongada e estreita. Lembra uma navalha fechada. Arroz e sopa de lingueirão são típicos da culinária portuguesa. E linguiça, seu prefixo também viria de língua? Quem tem a língua solta pode dizer de pronto que sim, mas vai queimá-la: mais provável que tenha nascido do latim lucanica (do original longus), cuja tradução é salsichão; ou mesmo de “luganega” em referência ao antigo povo da Lucânia, atual Basilicata italiana. No mapa, o tornozelo da bota.

Texto: Fábio Angelini

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