Leia mais sobre nomes culinários extraordinários

Hollandse Biefstuk? Vol-Au-Vent? Edamame? Hã?

palavrasA cena é até comum: o cliente percorre o cardápio, escolhe o prato, só que tem receio de pronunciar o seu nome. A língua trava, a voz some, e ele acaba soltando um “penne à romanesca, por favor”, ou outro item pronunciável qualquer. Mais fácil seria apontar ao garçom o objeto do desejo. Na hora de saciar o apetite, não se deve abrir mão da vontade por um capricho meramente linguístico.
E deixar passar a oportunidade de apreciar um nasi goreng. A propósito, um arroz frito tailandês e condimentado, com páprica, carne de porco e camarões. Ou provar um spárga csöben sült tejszínes (aspargos verdes gratinados com creme de leite). É uma receita austríaca.

Imagine-se tentando decifrar o que é aquele prato sem pingo no “i” e com cedilha no “s”. Na Turquia há vários assim. Imagine-se limpando a garganta antes de arriscar um “szekelygulyas” (em outras palavras, goulash à Transilvânia).

Ninguém nasce sabendo tcheco, a questão nem é essa. No dicionário da gastronomia clássica, coq au vin, apfelstrudel e paella, por exemplo, pertencem ao repertório de denominações consagradas, cujas grafias e sons já não intimidam ninguém. Pelo contrário, seduzem, pois são a história viva de culturas seculares, são a materialização de sabores hoje universais, têm personalidade.

É diferente do raio gourmetizador que varre os hábitos da sociedade contemporânea, os restaurantes da moda e os aspirantes a chef. Muitas vezes, essa tão falada gourmetização também molda o título do prato.

Estudos já revelaram que os consumidores – principalmente da alta gastronomia – tendem a comprar e pagar mais caro por comidas e vinhos decorados com nomes complexos. Eles exalam exclusividade. O mais incrível: a própria percepção de gosto é influenciada por essa designação vistosa, que, na realidade, nem sempre corresponde à mesa.

sociedade-da-mesa

O compromisso é a chave do sucesso. Atrair o cliente, não trair. Satisfazer e conquistar. As criações modernas são parte do processo evolutivo da cozinha em qualquer lugar, e são livres, sim, para usar de epítetos criativos, longos e rebuscados. Foi assim com a bruschetta, a bouillabaisse marseillaise e o baião de dois. Eles justificaram a sua qualidade e diferenciação. Senão, causariam o efeito contrário e logo cairiam no esquecimento.

No Brasil, assim como na Tailândia, nomes culinários extraordinários são uma ocorrência notavelmente comum. Mas lembre-se, comida e pronúncia podem ser coisas totalmente distintas. Da próxima vez em que um vocábulo marciano e promissor estiver diante de seus olhos, tenha coragem e peça. A fome e a curiosidade devem vencer o constrangimento. Você não vai querer ignorar uma tafelspitz mit schnittlauchsauce, vai? A picanha à moda da Bavária.

Hollandse Biefstuk: carne bovina grelhada na panela de ferro com champignons.
Vol-Au-Vent: empada francesa de massa folhada recheada com misturas cremosas.
Edamame: grãos de soja japoneses dentro da vagem.

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!

 

Deixe uma resposta