A Tríad3 gastronômica

1. Entrada

No balcão apinhado da padaria ou lanchonete, gente de todo tipo se acotovela no aperto. Engravatados, executivas, motoboys, secretárias, vendedores uniformizados… Todos mais do que acostumados a comer um sanduíche, um salgado ou um pedaço de pizza em pé mesmo, enquanto engolem rapidinho um refrigerante, ou em casos um pouco mais saudáveis, um suco natural ou de máquina. Em comum, a pressa.

A cena está gravada na retina – e na rotina – de milhões de pessoas que se vangloriam por viver em permanente correria. Não dá pra negar que eles acham que existe um certo glamour nisso. Modismo? Uma falsa sensação de que “é bacana ser workaholic e não ter qualidade de vida”.

Este ritual gastromasoquista (termo que tivemos a honra de criar agorinha), onde se “come pelas orelhas”, também se caracteriza pela atenção dividida entre próximo compromisso, as ligações e mensagens insistentes no celular, os likes das redes sociais e a leitura dos e-mails e dos acontecimentos do dia no smartphone.

Desacelerando a mastigação, indo do mais rápido para o mais lento, encontramos tendências como o fast-food, o self-service por quilo, o slow-food e os restaurantes tradicionais, onde se come com mais calma, podendo-se desfrutar de pratos à la-carte e do famoso menu executivo (entrada, prato principal e sobremesa).

Por fim, na extremidade oposta ao balcão dos apressadinhos, temos os estabelecimentos onde o hábito de se alimentar vai ainda mais longe, em lautos almoços ou jantares que trazem um significado muito mais amplo à tríade do menu executivo: as entradas, a oferta de variados pratos principais e as incontáveis opções de sobremesas, tudo às últimas consequências, em nome de experiências gastronômicas mais acolhedoras e salutares.

sociedade-da-mesa

SERÁ?
Aqui, abre-se uma série de perguntas: será que, mesmo exaltando bons hábitos, nas refeições feitas com vagar e tranquilidade, onde se saboreia cada prato, cada nuance de tempero, não acabamos comendo errado do mesmo jeito? Será que a probabilidade de “enfiarmos o pé na jaca” neste outro extremo não é maior? Será que é mesmo necessário seguir o mantra entrada-prato-principal- sobremesa, como regra de etiqueta?

2. Prato principal

Sabemos, há tempos, que tem gente que fica até constrangida ante a perspectiva de ter que comer uma entrada que não deseja, ou uma sobremesa deliciosa e engordativa, que simplesmente “naquele momento não pode”, perguntamos: quem instituiu essa história de entrada, prato principal e sobremesa?

Bem, se esperávamos uma data cravada, infelizmente não há. O que é possível encontrar nos registros históricos são descrições de banquetes principescos na Antiguidade. Já o que chamamos de “restaurante”, segundo o jornalista especializado em Gastronomia Josimar Melo, é muito mais recente.

Embora os banquetes do período do Renascimento já contassem com entrada, prato principal e sobremesa, comer em restaurante é um hábito até novinho – mais ou menos 250 anos -, que vem do final do Século XVIII, quando apareceram os primeiros deles na França, a qual foi dona exclusiva da novidade por alguns anos. Com o tempo, e por conta do desenvolvimento das cidades, os restaurantes foram espalhando-se pela Europa, em função da praticidade que ofereciam.

O conceito dos restaurantes gourmet, se é que podemos chamá-los assim pra diferenciar daqueles onde se come apenas por questões de localização ou passagem, só veio mesmo à luz no final do Século XVIII. Tratava-se de locais onde não se ia por questões práticas, mas sim para viver verdadeiras experiências gastronômicas. Para saborear por saborear, bem longe do conceito de suprir uma necessidade de nutrientes. Eram estabelecimentos onde se ia para conhecer o trabalho de um artista – o chef.

Afinal, até então apenas os muitos abastados podiam contar com os serviços desta badalada figura que, na Antiguidade e no Império Romano, por exemplo, não atendia aos reles mortais. Os grandes chefs trabalhavam apenas em palácios. Portanto, estes restaurantes eram a chance de conferir, in loco, a sensação de estar contato com ingredientes incomuns no dia a dia, que se transformavam em obras de arte para o paladar.

3. Sobremesa

COMIDA, CULTURA E COMPORTAMENTO
Também é importante citar a influência do comportamento humano ao se alimentar. E aí a questão é um pouco mais embaixo. Alimentar se vai muito além de comer. Tem ligações com elementos e disciplinas que vão da dietética à religião, passando pelas relações sociais, cultura local e muito mais. Como exemplo, podemos citar as diferenças entre França e Estados Unidos.

Os franceses, pais do conceito de restaurante e, por que não, do que se chama hoje de alta gastronomia, têm mais respeito pela comida, por assim dizer: pra eles, o ritual de entrada, prato principal, um queijo ou uma sobremesa, acompanhado de bebidas, é imprescindível e desfrutado geralmente em família e sempre na mesma hora.

Passou disso, não é mais refeição, é “beliscar”. Já os americanos são bastante parecidos com aquele tipo de brasileiro do início deste artigo, que não se importa muito com quando e onde. O pessoal da terra do Tio Sam entende que se pode comer em qualquer lugar e a qualquer hora.

Por fim, pensando nos “serás” do início deste artigo, e lançando um olhar Sociedade da Mesa – onde a maior regra é desfrutar do bem viver – sobre o assunto, propomos mais um “será”: será que tudo isso realmente importa? Se você é um adepto inveterado das três etapas; delicie-se com cada uma delas. Agora, se você se incomoda e considera entrada, prato principal e sobremesa algum tipo de inconveniência ou ditadura, não se apoquente. Rebele-se. Pule uma delas. Ou duas. Mas seja feliz. Felicidade não faz mal. E fazendo as coisas com juízo, vale tudo.

Texto: Paulo Samá

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!

 

Deixe uma resposta