Quando Andy Warhol expôs suas famosas embalagens de latas Campbell, ou o seu porta-retrato comendo banana, não quis dizer que era um apaixonado por sopa de tomate ou pela fruta. Longe disso. Ele apenas reafirmava uma forma peculiar de arte, fruto do questionamento entre a superficialidade do mundo como o via, e o posicionamento da própria arte.

Talvez a sua profunda relação com a comida, manifesta em pinturas, filmes experimentais e serigrafias, tenha origem nas privações da infância. Warhol era filho de imigrantes eslovacos pobres, migrados para os Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial. E foi ao final da Segunda Guerra que o jovem Andrew Warhola entrou para o Instituto de Tecnologia de Carnegie, em Pittsburgh, onde se graduaria em design.

Já trabalhando em Nova York, foi ilustrador das revistas Vogue, Harper’s Bazaar e The New Yorker. Fez anúncios publicitários e displays para vitrines, e sua primeira mostra individual em 1952, ocasião em que passou a assinar “Warhol”, sem o “a” no final. É o início da carreira, do sucesso, dos prêmios, da riqueza e da reinvenção da pop art.

Explorou abertamente temas do cotidiano e ideias publicitárias em suas criações, carregadas de tons fortes e tinta acrílica, colagens e matérias-primas descartáveis. Como base, utilizou não só alimentos e elementos do consumo, transformando-os em obras lendárias, mas também retratou ícones da indústria cultural e figuras conhecidas – entre elas Elvis Presley, Che Guevara, Mao TséTung, Einstein e Freud. Lançou o minimalismo, o conceitualismo e o neoexpressionismo. Repaginou o visual da Coca-Cola e de caixas da Kellogg’s. Em uma pintura de 1969, inspirou-se na história de duas mulheres que morreram, ao comer uma lata de atum contaminada.

Depois, radicalizou o status de artista multimídia, incursionando em outras áreas. Na música, ajudou a difundir a cena do glitter rock mundial, ao lado de David Bowie, Iggy Pop, Kiss e Secos & Molhados, evidenciando a decadência dos padrões de comportamento enraizados. A capa do primeiro álbum do Velvet Underground, feita por Warhol, exibia uma banana amarela brilhante, que poderia realmente ser descascada nos originais de 1967.

No cinema, o artista gráfico causou estranheza e reflexão com filmes onde “nada acontece”. Em um deles, ele próprio, fascinado que era por hambúrguer enquanto símbolo da cultura expansionista americana, aparece comendo um sandubão do início ao fim, e só. Em “Eat”, filmado em PB, Warhol vai além: 45 minutos de câmera estática, focada em seu colega da pop art, Robert Indiana, que consome um cogumelo errante sob silêncio tumular. O momento mais emocionante é quando aparece um gato sobre o ombro do ator. Por estas e outras peças, o críticos ainda questionam a face cineasta de Andy. Mas que ele foi o primeiro a divulgar publicamente um video art, isso foi.

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“TUDO O QUE EU REALMENTE QUERO É AÇÚCAR”
Também lançou a revista Interview, um night club e criou dois programas de TV a cabo: o “Andy Warhol’s TV”, em 1982, e o “Andy Warhol’s Fifteen Minutes”, da MTV, em 1986. Além disso, o artista projetava abrir o automatizado “Andy-Mats”, um estabelecimento pensado para pessoas solitárias. Nele, não haveria garçons; os clientes fariam seus pedidos através de um sistema telefônico instalado nas mesas e conectado à cozinha; e a comida não seria preparada ali, já estaria zipada e seria servida como em um avião, após esquentada em fornos micro-ondas. O negócio não decolou.

Por aí, percebe-se que Andy Warhol era prático e não muito afeito a requintes gastronômicos. Ele mesmo dizia só consumir doces, queijo e bacon, preferir comida tradicional, apreciar pratos simples em frente a uma TV. Que o progresso era muito importante e excitante em tudo, exceto na comida. Sua receita de bolo? Uma barra de chocolate entre duas fatias de pão. Comia sanduíche de geleia no jantar e visitava confeitarias com frequência, de onde saía com um bolo de aniversário embaixo do braço, às vezes. E o devorava sozinho.

Um de seus lugares prediletos era o restaurante das celebridades, o nova-iorquino Serendipity 3, situado entre a Segunda e a Terceira avenidas. Especialmente por causa da sobremesa denominada “Frrrozen Hot Chocolate”, que seduziu igualmente Marilyn Monroe e Jacqueline Kennedy. A ex-primeira dama até tentou comprar a receita do chocolate quente gelado, para servir em um evento particular, mas não conseguiu.

A concepção original, oficialmente intitulada “The Frrrozen Haute Chocolate”, contém 14 tipos raros de cacau provenientes da África e América do Sul, leite, cubos de gelo de chantilly e aparas da trufa mais cara do mundo, a “La Madeline au Truffle”. É servida em uma peça de cristal Baccarat acrescida de ouro comestível 23 quilates, e vem com um bracelete de diamante branco abraçando o topo da taça. Tudo isso por apenas 25 mil dólares.

Felizmente, existe uma versão acessível aos mortais, livre de ouro e pedras preciosas. Pode ser encontrada no livro de receitas “Sweet Serendipity”, vendido na loja do restaurante. “Serendipity”, termo que significa “feliz descoberta ao acaso”.

FROZEN HOT CHOCOLATE

INGREDIENTES
1/3 de xícara (chá) de açúcar
1/3 de xícara (chá) de leite em pó
desnatado
3 colheres (sopa) de cacau em pó
1 pitada de sal
1 xícara (chá) de leite
3 xícaras (chá) de cubos de gelo
Chantilly a gosto para decorar
Aparas de chocolate meio-amargo

MODO DE PREPARO
Em um recipiente, coloque o açúcar, o leite em pó desnatado, o cacau, o chocolate em pó e a pitada de sal. Misture tudo muito bem. Coloque o leite no liquidificador, despeje a mistura de ingredientes secos e os cubos de gelo. Bata bem em velocidade alta, até que o gelo se desfaça completamente, e obtenha uma mistura bem homogênea. Despeje em taças ou copos altos, decore com o creme chantilly e as aparas de chocolate. Sirva com canudos.

Texto: Fábio Angelini

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