A idade de ouro da vitivinicultura de Mendoza

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Sabe-se que a vitivinicultura na região de Mendoza teve suas origens como continuação dos primeiros assentamentos espanhóis em meados do Século XVI. A razão de haver chegado na Argentina e na América é mais do que clara; pois tem a ver com as ordens religiosas que necessitavam do vinho para celebrar as missas.

Naquela época, a importação era inviável. E, por esta razão, as igrejas e capelas faziam um pequeno cultivo, para garantir sua alimentação e a elaboração de vinho suficiente para as missas. Além de consumir as uvas frescas ou passas. Não podemos esquecer que o vinho e as uvas-passas eram o alimento calórico básico na dieta mediterrânea da época, especialmente para os soldados. Portanto; a elaboração do vinho esteve originalmente mais vinculada à liturgia do catolicismo do que a uma atividade comercial.

Como costumava ser habitual naquela época, os melhores vinhos eram reconhecidos e narrados pelas ordens em seus manuscritos. Isso aconteceu, por exemplo; com os padres jesuítas, que descreviam a qualidade dos vinhos da região (Mendoza e San Juan). Por serem “muito generosos e fortes, capazes de suportar grandes viagens sem estragar”.

Séculos depois, o governador de Mendoza, Don Pedro Pascual Segura, foi encarregado de encontrar alternativas agronômicas na região. Ele contratou o agrônomo francês Michel Aimé Pouget, que começou em 1853 a avaliar potenciais localizações e cultivos. Começando com a plantação de variedades de uvas originárias do seu país, como a Cabernet Sauvignon; a Merlot; a Semillon; a Malbec e a Chardonnay.

O sucesso destes trabalhos fez com que alguns agricultores locais decidissem complementar seus cultivos com o vinhedo. Mas o despertar da indústria chegaria apenas alguns anos mais tarde, em abril de 1885. Com a chegada do trem a Mendoza, desencadeou-se uma febre industrial nunca antes vista na região e a vitivinicultura local encontrou condições ótimas para sua expansão. Havia chegado a época dourada da vitivinicultura de Mendoza.

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O desenvolvimento foi tão intenso, que se dotou de infraestruturas específicas, como trens para mercadorias especiais e para o transporte de tonéis de vinho para outras cidades, e até construção de estações particulares em algumas bodegas da região. A economia argentina expandia-se e Mendoza soube aproveitar a oportunidade, convertendo-se na região buscada pelos imigrantes que fugiam das condições que tinham do outro lado do Atlântico e procuravam a sobrevivência.

A forte imigração europeia contribuiu ainda mais para a mudança radical da indústria vitivinícola de Mendoza. Foram geradas condições propícias e o desenvolvimento da vitivinicultura foi alavancado para a escala industrial, graças, em boa parte, ao aporte de mão de obra europeia com conhecimento de viticultura e enologia. Isso melhorou a transformação técnica e também contribuiu para o desenvolvimento de um mercado local, graças ao próprio autoconsumo.

O setor abordou novos projetos com critério industrial, dotando as novas bodegas de maquinário importado de última geração e continuou com o desenvolvimento das explorações vitícolas, chegando a ter 80% da indústria nas mãos de imigrantes italianos e espanhóis, dando origem a algumas das sagas familiares históricas de Mendoza.

Mas a situação se complicou com a depressão de 1929 e a posterior Segunda Guerra Mundial, que levou a indústria vitivinícola a uma crise sem igual, fechando as bodegas e eliminando os vinhedos. O governo, no entanto, apostou no setor, regulando e intervindo na política de preços, o que propiciou um novo desenvolvimento e crescimento da indústria, consolidando- se até que, na década de 1970, a situação do país quebrou o novo modelo produtivo.

No início dos anos 1990, novamente ressurgiu a indústria vitivinícola, pelas mãos de empresários argentinos e estrangeiros, que apostaram na viticultura e enologia de vanguarda dessa terra de condições únicas para o cultivo. Argentina e, mais especificamente, Mendoza, estão vivendo a segunda idade de ouro, e ano após ano surpreendem com seus vinhos.

Texto: Alberto Pedrajo
Tradução: Paula Taibo

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