Nesta nova coluna, dicas, curiosidades e experiências gastronômicas compiladas nas viagens que o chef Eugenio Lorainev vem fazendo pelo Brasil e pelo mundo. Bom passeio!

Nosso primeiro destino é a histórica cidade de Belém do Pará, que reserva muitas surpresas interessantes àqueles que têm apetite por novidades. E já vale começar com uma menção à Estação das Docas, ponto turístico badalado da cidade, que não pode deixar de ser visitado.

Antigo porto, o local foi reformado e revitalizado no início deste século e hoje comporta restaurantes típicos, uma cervejaria artesanal, docerias e sorveterias. É preciso mais de uma visita para conhecer – e degustar – tudo com calma.

E se tiver oportunidade de fazer um desses passeios à noite, não deixe de investir alguns minutos na visão noturna estonteante dos reflexos da lua salpicando as águas do Rio Guajará. Aliás, aproveite bem as noites, que são um pouco mais curtas em Belém. O sol desponta bem cedo e, para quem está de passagem, é bom aproveitar isso, pois ganha-se horas a mais para passear, curtir e provar os sabores da cidade.

VAMOS VER-O-PESO?
Para começar o dia – e ocupá-lo por um bom tempo – uma boa dica é o Mercado Ver-o-Peso, famoso cartão postal de Belém. O curioso nome vem do posto fiscal da Coroa Portuguesa que ali ficava. Para se obter os valores dos impostos das mercadorias, era obrigatório “ver o peso” do que entrava e saía do lugar.

Abrigado por uma estrutura de ferro trazida da Inglaterra e montada no cais no século XIX, o mercado é considerado a maior feira livre da América Latina. Um caldeirão de cores, aromas e sabores: tacacá, cupuaçu, bacaba, pupunha, tucumã, piquiá, peixes retirados na hora do Rio Amazonas, legumes típicos da região… Tudo com aquele jeitão e sabor locais que a gente sempre espera quando viaja.

sociedade-da-mesa

Um dos maiores orgulhos dos nativos, inclusive, vem do fato da culinária paraense não ter sofrido influência africana nem portuguesa. Segundo eles, a cozinha local mantém suas origens nas técnicas indígenas de consumir os produtos fornecidos pela fauna e flora da Região Amazônica.

No Ver-o-Peso encontra-se de tudo: profusão de ofertas, de hospitalidade e carinho. A cada passo, alguém oferece uma iguaria, um quitute, uma bebida. A simpática Dona Gorete, proprietária do quiosque de mesmo nome, vende cachaças da região.

Pilequinho de manhã? E por que não, se você estiver a passeio? A de jambu pode ser uma boa pedida para iniciar os trabalhos, causando a curiosa e gostosa dormência na boca que você ainda irá encontrar outras vezes antes de voltar. Na sequência, vá de cupuaçu – ela tem tudo para se tornar uma das preferidas.

Mas atenção: as bebidas são tão gostosas, que você pode esquecer que são alcóolicas. Vá devagar nas degustações dos labirintos do Ver-o-Peso.

É também neste peculiar mercado que você vai se deparar com o que, para a maioria dos viajantes, é uma grande surpresa: o açaí-branco. Trata-se do fruto do açaizeiro, sim, mas numa variedade típica do norte do Brasil. Mais raro, mais caro e encontrado em poucos períodos do ano, em contraste com a variedade roxa, que nasce o ano todo, o açaí- branco ainda é desconhecido por muitos e desperta a curiosidade.

Além disso, os hábitos de consumir açaí que conhecemos são bem diferentes do padrão amazonense. Por lá, o açaí é principalmente consumido como refeição, bebido puro ou misturado com farinha de mandioca e/ ou tapioca, com ou sem açúcar, em diversos restaurantes, bares e até barraquinhas.

RESTAURANTE, CASTANHA E CERVEJA
Entre os restaurantes mais clássicos da cidade, vale bastante conhecer o Avenida. Um dos mais antigos da região, o local é puro aconchego e simpatia, principalmente por parte da proprietária e filha do fundador. Lá é possível provar – e se você pedir com jeitinho, até acompanhar o preparo – de um prato tão emblemático quanto o próprio restaurante: o famoso pato no tucupi. E diga-se, com toda a justiça, que a fama a ele delegada é mais do que merecida.

O pato é feito com chicória-do-pará, jambu, vinho branco e especiarias da região. E nele você sente, novamente, o prazer sensorial da dormência na boca durante a refeição. Para finalizar, uma boa sugestão é tomar um cafezinho. Mas não um qualquer: o Avenida conta com uma clássica Cafeteira Globinho, para deleite dos apaixonados por café e também para quem gosta de um pretinho bem feito.

Como você estará empolgado com as experiências gustativas, aproveite para experimentar a castanha-do-pará. A única e verdadeira, segundo os paraenses. Isso mesmo. Eles dizem que, se você foi a Belém e não experimentou castanha-do-pará, você não foi a Belém.

Ela pode ser consumida in natura e também em farinhas que complementam e até originam diversos pratos doces e salgados. Você vai descobrir por que a castanha-do-pará tem toda essa fama, chegando ao ponto de ser chamada também de castanha-do-brasil.

“Mas e as bebidas?”, você pode estar pensando. Bem, além das já citadas cachaças regionais, uma refrescante pedida para quem visita a capital do Pará é dar uma passada na Amazon Beer, a comentada cervejaria artesanal da Estação das Docas, pioneira em juntar elementos amazônicos à bebida. São oito rótulos de cervejas fabricadas ali mesmo, no bar, na frente do cliente, inspiradas em frutas e elementos da própria região.

A Stout Açaí, por exemplo, tem notas de sabores peculiares como café, toffee, malte torrado e chocolate, sem falar no açaí, claro, que ainda renova as energias. O bar também oferece excelentes opções para harmonizar com as cervejas, com petiscos como tábuas de queijos e frios diversos e pratos regionais à la carte.

E OS NOVOS SABORES NÃO PARAM POR AÍ
Ainda tem bacuri, sorvete, tacacá e muito mais. Estar em Belém é estar numa cidade que surpreende com sabores diferentes desde cedo. No café da manhã de alguns hotéis, é possível experimentar o suco de outra fruta regional, o bacuri, que tem sabor bastante intenso e leva a fama de ser benéfico à saúde: diz-se que a fruta, incluindo sua casca, tem propriedades anti-inflamatórias e ajuda no controle do colesterol. Se você gosta de sabores fortes, delicie-se.

Ainda na seara das experiências intensas, não pode faltar o tacacá. O que leva a fama de ser o melhor da cidade (e quiçá do estado do Pará) é o da Barraca da Dona Maria, na Avenida Nazaré (quem disse que o que é bom precisa ser chique ou ter nome pomposo?). A reputação precede a D. Maria: primeiro ela prepara o tucupi, um caldo bem temperado com sal, cebola, coentro e cebolinha.

Depois, coloca o caldo sobre a goma de tapioca, que é servida com camarão seco e folhas de jambu. A experiência é incrível e traz mais uma vez, a sensação única da boca adormecida até o final da refeição. De lamber os beiços, caso você seja capaz de sentir a própria língua.

Como sobremesa, recomenda-se “acordar” a boca com um bom sorvete. De preferência artesanal e com frutos e elementos regionais, como os da Sorveteria Cairu, que também fica nas Docas. Há quem diga que o ponto alto é o de cupuaçu com castanha-do-pará, mas os mais aficionados são categóricos em afirmar que se deve mesmo experimentar todos os sabores oferecidos na sorveteria.

AÇAÍ, AÇAÍ, AÇAÍ…
De volta ao açaí, que já permeou nosso artigo como açaí-branco e até como cerveja, é obrigatório reservarmos um espaço para… mais açaí, é claro. O açaí refeição, consumido no padrão único da região Norte. Para experimentá- lo como manda o figurino local, não deixe por menos: vá ao Point do Açaí – Unidade Boulevard.

Uma escolha interessante é o açaí como guarnição, junto com um peixe. Achou a combinação curiosa? Saiba que ela conta, inclusive, com um ritual: os garçons ficam ao lado da mesa, “assoprando” truques para você tirar o máximo da experiência. Um dos “pitacos”, é que se coloque um pouco de farinha d’água sobre o açaí e leve à boca junto com o peixe.

De início, a experiência pode parecer confusa pela quantidade de elementos querendo sobressair, mas não desanime. É surpreendente. A mistura entre terra e mar ao mesmo tempo, lutando pelo protagonismo na boca, acaba trazendo uma sensação de trégua, como se um novo e inesquecível sabor ganhasse lugar a partir da junção dos dois.

Com esta dica inusitada, fechamos o relato desta primeira gastroviagem com chave de ouro, ou melhor, de açaí. Até breve.

RECEITA:
O verdadeiro tacacá

INGREDIENTES
1 litro de tucupi
5 dentes de alho
1 maço de alfavaca
2 maços de chicória-do-pará
1 maço de jambu
500g de camarões secos e salgados com casca
1 xícara (chá) de goma de tapioca
3 dentes de alho
Gelo
Água

PREPARO DO TUCUPI
Em uma panela grande, ferva o tucupi com o alho, a chicória-do-pará e a alfavaca. Reserve. Em outra panela, ferva bastante água e acrescente sal suficiente para escaldar o jambu. Escorra e coloque-o em um recipiente com água e gelo. Reserve.
Dissolva a goma de tapioca em 1 xícara (chá) de água fria, coloque numa tigela e reserve. Limpe os camarões secos e lave-os em água gelada para dessalgar. Reserve.

PREPADO E MONTAGEM DO TACACÁ
Em uma terceira panela, coloque 2 litros de água, o sal, o alho e o outro maço de chicória-do-pará. Quando ferver, retire o alho e as folhas de chicória-do-pará. Acrescente a goma de tapioca dissolvida, batendo sem parar, para não formar grumos. Sirva em cuias como segue a tradição, na proporção de 1 xícara e meia (chá) de tucupi para meia xícara (chá) de goma, com as folhas de jambu e os camarões secos.

sociedade-da-mesa

LOCAIS:
Alguns locais e endereços

Aqui, um resumo de dicas e locais interessantes que você pode conhecer em Belém.

• Mercado Ver-o-Peso: se tiver tempo, reserve dois dias para ele. Prove o máximo de receitas, frutas e especiarias que encontrar. Av. Castilhos França, s/nº.
• Catedral Metropolitana de Belém: palco do Círio de Nazaré, um dos maiores eventos religiosos do país. Praça Dom Pedro II, s/nº, Cidade Velha.
• Forte do Castelo de Belém: também conhecido como Forte do Presépio, construído em 1616 na baía do Rio Guajará.
• Restaurante Avenida: Av. Nazaré, 1086, Nazaré.
• Estação das Docas: Av. Boulevard Castilho, s /nº.
• Theatro da Paz: Rua da Paz, s/nº, Centro.
• Barraca da D. Maria: não ouse perder este tacacá. Av. Nazaré, 906.
• Sorveteria Cairu: deliciosos sorvetes na Estação das Docas.
• Amazon Beer: a cervejaria artesanal das Docas. Parada obrigatória para cervejeiros.
• Point do Açaí – Boulevard: Av. Boulevard Castilhos França, 744, Campina.
• Hotel Princesa Louçã: ótima opção de hospedagem. Av. Presidente Vargas, 882, Campina.

Texto: Eugenio Lorainvev

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!