“O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga e come. Quando chega ao final da leitura, está almoçado ou jantado. Dizem que o livro é o pão do espírito. Por que não ser também pão do corpo? As vantagens seriam imensas. Poderiam ser vendidos nas padarias e confeitarias, ou entregues de manhã pelas carrocinhas, juntamente com o pão e o leite. Desse modo, o livro pode ter entrada em todas as casas, seja dos sábios, seja dos analfabetos”.
(A Reforma da Natureza – Monteiro Lobato – 1941)

(A REFORMA DA NATUREZA – MONTEIRO LOBATO – 1941)
Criar livros comestíveis, impressos em papel de trigo bem temperado, foi uma proposta da Emília. Aquela boneca de pano falante e petulante da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Esta é uma simples passagem da vasta criação literária infantil de Monteiro Lobato, apenas a ponta do iceberg da profunda ligação do escritor com o ato de comer. Sempre um apreciador dos ingredientes brasileiros e regionais, cujo viés nacionalista refletiu-se tanto em suas predileções gastronômicas quanto nas mesas de seus personagens.

Entre os famosos quitutes da Tia Nastácia, figuram muitas referências aos pratos típicos do Vale do Paraíba – a região de Lobato – e à rica cozinha caipira. Picadinho, mocotó, virado de feijão com torresmo, cocada, leitão à pururuca, banana, marmelo, costela com angu de fubá, broa de milho, bolinho de polvilho, o café coado na hora. São os talentos da velha cozinheira que a livram de ser devorada pelo Minotauro, que amansam a fera com deliciosos bolinhos de chuva. A mesma receita encanta São Jorge lá na Lua, em “Viagem ao Céu”.

Como autêntica embaixatriz do forno e fogão, Tia Nastácia é tempero essencial na obra do escritor, um elemento de sustentação e sustança nas histórias. É ela quem transmite a sabedoria popular, em contraponto à Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, a matriarca versada do sítio. Quase todas as aventuras terminam no aconchego de uma mesa abarrotada de guloseimas, revigorando calorosamente Narizinho, Pedrinho e companhia. Visionário que era, Monteiro Lobato agiu de certa forma como um escudeiro e divulgador da comfort food, e da brazilian food, “uma das mais saborosas do planeta”.

Curiosamente, a bíblia da culinária nacional, lançada por ele em 1940, não levou o nome da folclórica Nastácia. O guia com mais de mil receitas (hoje em sua 77ª edição) foi intitulado “Dona Benta – Comer Bem”. Estaria Lobato preso às amarras da tradição escravagista ou teria sido uma mera decisão de marketing? O que se diz é que, além de ser um dos mais influentes literatos brasileiros do século XX, e o responsável por construir as bases da indústria editorial do país, ele defendia o conceito de raça pura e flertava com a bancada comunista.

Controvérsias de lado, Monteiro Lobato possuía um olhar socioeconômico aguçado e premonitório. Em 1926, enquanto trabalhava como adido comercial nos E.U.A., publicou “O Presidente Negro e o Choque de Raças”, onde um dos candidatos às eleições era negro e o outro era mulher. Sempre defendeu a nacionalização dos recursos minerais e a existência de petróleo em nosso subsolo, pelo que foi ridicularizado. Mas só até descobrirem a primeira jazida em 1939, num bairro de Salvador denominado… Lobato.

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A LÍNGUA FORMIGANDO
No mais, este filho de Taubaté e da simplicidade, marido de Dona Purezinha, advogado, desenhista e fotógrafo amador, almoçava geralmente feijão com farinha, carne moída com quiabo, chuchu e abobrinha cozidos com toucinho. Também era adepto do leitão à pururuca e da feijoada, do sequilho e da paçoca, da banana frita e goiabada cascão. Sem falar da rapadura que escondia nos bolsos, e ia mordiscando durante o dia.

Apesar de criticar veementemente a elite, que dava nomes afrancesados para receitas produzidas com elementos daqui, Monteiro Lobato era um homem do mundo, tirava casquinhas da culinária internacional e dos bons vinhos. Frequentou cantinas da capital paulistana e o Ponto Chic do Largo do Paissandu. No breve período de 1946 em que viveu na Argentina, apaixonou-se pelos belos e gordos bifes. Carne suína e bovina gostava, peixe não.

E para provar que o civismo do Andersen brasileiro não é da boca pra fora, vamos ao seu petisco preferido: farofa de içá. Feita com o abdômen da fêmea da saúva, Monteiro Lobato chamou a receita de “caviar do Vale do Paraíba”. Pegou. Claro, há quem pule o livro nesta passagem, mas a extravagante iguaria é bastante popular em Taubaté e vizinhança. Uma garrafa com 2,5 litros de tanajuras pode chegar a 200 reais.

Para alguns, lembra amendoim torrado, no aspecto e no sabor; para outros, tem algo de crustáceo ou de pipoca; para a maioria que experimenta, gostoso e crocante. Olivier Anquier e Alex Atala já lamberam os beiços, como diria a Marquesa de Rabicó. O costume veio dos índios, que comiam com farofa “aqueles frutos que caíam do céu”, sem saber do alto teor de fósforo, ferro e proteína que a espécie carrega. E conquistou os alforjes de sertanejos, tropeiros e bandeirantes.

A melhor época de “colheita” vai de setembro a novembro, ocasião em que as saúvas fecundadas levantam voo em bando, à procura de uma nova colônia. Tempo em que elas concentram mais proteínas e estão maiores. Uma vez retirado tudo, menos o abdômen (a parte mais posterior da formiga), é muito fácil de preparar. Recomenda-se misturar com farinha de mandioca. Como sugestão de acompanhamento, costelinha de tambaqui e arroz de maracujá.

Antes de fazer, só tenha certeza de que o Saci não está nas redondezas. O endiabrado, quando não apaga o fogo, queima as panelas.

FAROFA DE IÇÁ

INGREDIENTES:
– Formigas do tipo içá, limpas (reservar só o “bumbum”)
– Uma colher (sopa) de azeite
– Uma pelota de manteiga com sal
– Sal a gosto
– Alho espremido
– Farinha de mandioca flocada

MODO DE PREPARO:
Retire as asas, as patas, a cabeça com o ferrão e o tórax das içás. Deixe somente a parte que corresponderia ao “bumbum” da formiga. Coloque numa panela, em fogo baixo por cerca de 20 minutos, até que comece a torrar. As bolinhas vão inchar um pouco. Assim que começarem a torrar e pipocar, junte o azeite, a manteiga e o alho. Deixe fritar até as cascas ficarem duras e crocantes. Então, acrescente a farinha de mandioca aos poucos e deixe pegar um pouco de gosto. Mexa bem até virar uma farofa. Corrija o sal, coloque salsinha e pimenta (opcional) e sirva.

Texto: Fábio Angelini

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