Para começo de conversa, a comida enlatada foi inventada muito antes que alguém fosse capaz de abri-la.

O sistema de conservação de alimentos (fervura seguida de fechamento hermético) surgiu pelas mãos do francês Nicolas Appert, por volta de 1795, com recipientes e garrafas que preservavam frutas, hortaliças, sopas, laticínios e compotas. Uma vez aperfeiçoados, foram providenciais para os soldados de Napoleão nos campos de batalha e nas longas viagens transatlânticas. Havia um porém: eram de vidro.

Em 1810, o britânico Peter Durand apresentou sua própria patente de vasilhames em conserva, substituindo os potes de vidro por latas de ferro recobertas de estanho, para evitar a ferrugem. Mas ninguém pensou num detalhe: a abertura das latas.

“Corte em volta do topo, perto da borda externa, usando um cinzel e um martelo”. Lia-se algo assim em latas de salmão, pêssego e carne de boi na salmoura. Grandes e espessas latas, mais pesadas do que continham. O produto só alcançaria o consumidor comum em 1830, com o acréscimo de tomates, ervilhas e sardinhas. Foi por aí que começaram a surgir rudimentares e complicados abridores de lata. Era até costume que os comerciantes abrissem as latas antes de entregá-las aos clientes, abreviando a validade do conteúdo. Tal questão contribuiu para os esforços de se desenvolver um pote mais leve, com rebordo na parte superior e perfuração menos traumática.

Uma coisa puxa a outra. O primeiro utensílio mais ou menos funcional deu as caras em 1855, uma volumosa geringonça metade foice, metade baioneta, trazida pelo americano Ezra J. Warner. Mesmo com um corte mais rápido e preciso, exigia o emprego de força bruta e oferecia riscos, tanto para quem atacava a lata quanto para quem assistia. Nenhuma dona de casa de juízo atreveu-se a usar. Porém, ele foi amplamente utilizado durante a Guerra de Secessão, embora alguns soldados preferissem atirar nas latas de ração ou fincá-las com as pontas dos fuzis.

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À mesma época, o fabricante de instrumentos cirúrgicos e talheres, Robert Yates, desenhou um modelo melhor, conhecido como “cabeça de boi”: lâmina de aço em corpo de ferro fundido, semelhante a uma garra. Em 1868, lançaram uma chave abridora que enrolava a tira de metal da lata e a removia – precursora das tampas destacáveis futuras –, mão na roda para embalagens de sardinha. Só que não era tão boa para as latas cilíndricas. E a humanidade passou, basicamente, quase um século inteiro frustrada, socando, martelando e disparando contra invólucros inimigos.

A FÍSICA ELEMENTAR E JOHN WAYNE SOCORREM A INDÚSTRIA ALIMENTAR
Menção honrosa ao brilhante William W. Lyman, que em 1870 patenteou um instrumento que girava em torno do recipiente, bem semelhante àqueles que conhecemos. Mas veio 1907, e o catálogo da British Army and a Navy Co-operative Society apresentou seu abridor parecido com faca, denominado “cabeça de touro”, concebido no princípio da trava e alavanca. É considerado por muitos o primeiro abridor de latas moderno. Já em 1925, uma empresa da Califórnia repaginou o aparelho de Lyman, adicionando uma roda dentada mais avançada.

Novamente guerra, agora a Segunda Grande Guerra. Nos Estados Unidos, produziram o amado P-38, e depois seu upgrade, o maior P-51. Não bombardeiros, e sim excelentes abridores militares, os “US Army pocket can openers”. Não quebravam nem enferrujavam, limpavam botas e unhas, serviam como chave de fenda, faca e outras coisas. John Wayne os divulgou nas telas e nossos pracinhas da FEB os usaram. Permaneceram na ativa até os anos 1980.

A tecnologia, que é a arte do possível movida pelo desejo de evoluir, nos presenteou com peças elétricas e com o prático “abridor de latas borboleta”, uma fantástica engenhoca com lâmina serrilhada e giratória, que retira a tampa sem deixar rebarbas cortantes nas bordas da lata; com o abridor “hands free”, onde basta apertar o botão que ele gira, fazendo toda a tarefa sozinho; com outros portáteis em forma de canivete ou eletrônicos, movidos a manivela, ou a motor; e até um exemplar batizado de “Draft Top”, que retira completamente o topo das latas de cerveja, sem deixar vestígios afiados: desta maneira, permite que o bebedor troque o habitual gosto residual de alumínio pelos sabores e aromas liberados pela bebida, pouco apreciados pela econômica abertura do lacre.

Apesar da extensa diversidade atual de abridores desbravadores, é certo que a têndência das tampas removíveis vem dominando a indústria mundial, do leite condensado ao molho de tomate, do azeite ao atum. Tão certo quanto a queda das conservas e a ascensão dos itens naturais. Mas parece um pouco cedo demais para aposentar o velho abridor de latas. Pelo menos por enquanto. Pelo menos no Brasil.

Texto: Fábio Angelini

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