Não são apenas televisores de tubo e máquinas de escrever que caíram em desuso. Ou as taças “bico de jaca”, as panelas floridas e os acendedores de fogão.

Certos alimentos e algumas receitas também sentiram e sentem o peso dos anos, das mudanças de comportamento e da competição industrial.

Outros são tão antigos e permanecem vivos e apetitosos nas mesas dos homens, como as sopas – consideradas por muitos o prato mais pré-histórico de todos. Pão, peixe, leite materno e ovo são igualmente velhos, ou até mais.

Há ainda os itens que não podem ser considerados extintos, mas que vão se apagando da memória gustativa dos tempos: fios de ovos, ponche, banha, cone de maionese. E há restaurantes que sobrevivem após quase três séculos (e praticamente com o mesmo menu), como o Sobrino de Botín de Madrid, aberto em 1725. Vamos falar um pouco de tudo isso na coluna, do continuum da gastronomia no espaço-tempo, das curiosidades arqueológicas reveladas, dos sabores e hábitos abandonados (ou rebaixados) na cozinha da nossa era. Para ressuscitar um ou outro, quem sabe?

SOPA DE PEDRA
A maioria dos líquidos não sobrevive ao tempo. No entanto, em 2016, arqueólogos chineses encontraram a 630 km de Pequim, em Chengyang, um recipiente de bronze muito bem selado. Continha ossos de vitela no que teria sido uma sopa, de mais de dois milênios atrás.

A sopa é considerada por vários estudiosos o prato mais antigo do mundo. Nascida antes mesmo da descoberta do fogo. Que foi a primeira refeição completa da história da humanidade, ao lado do pão, parece não haver dúvida. E também foi a primeira comida criativa, já que ela resulta da mistura de ingredientes infindáveis.

sociedade-da-mesa

Assim que os nossos ancestrais se deram conta disso, o caldo entrou para o cardápio da civilização e nunca mais saiu. Hábito ininterrupto, nutritivo e versátil de todos os povos, que chegaram a criar suas especialidades locais. Das sopas de lentilhas de Atenas às sopas de arroz e favas da China; do minestrone italiano ao caldinho de feijão da sua casa. Basta haver água, e ela se encarrega de cozinhar e amolecer, seja o que for.

A sopa foi e é o alimento complementar da mesa do camponês e do pobre, de todas as épocas. Mas também pode ser transformada em item de luxo. O restaurante londrino Kai Mayfair cobra 500 reais pela “Buddha Jumps Over The Wall”. Preparada com cogumelo japonês; pepino do mar; carne de tubarão; frango e porco; presunto e ginseng. Destoa ainda mais daquelas receitas que conhecemos, no quesito agilidade: é preciso pedir a iguaria com cinco dias de antecedência, no mínimo.

Texto: Fábio Angelini

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