Sua vida daria um filme, e deu. Daria um livro, e deu vários. E deu o Macintosh, a interface “friendly”, o Mac e o iMac, o iPod, o iTunes, o iPhone, o iPad, Toy Story, Procurando Nemo, Ratatouille. Além de revolucionar as indústrias de computador pessoal, animação, música, telefones, tablets e publicações digitais. Responsável ou corresponsável por 317 patentes da Apple, Steve Jobs foi adotado por Clara e Paul Jobs ainda bebê. Descobriria mais tarde que seu pai biológico era sírio e muçulmano.

Antes de se transformar no lendário empreendedor e CEO, um Jobs sem-teto chegou a recolher garrafas de Coca-Cola na rua para pagar a faculdade, que não concluiu por falta de dinheiro. Mas era um curioso, cheio de energia, ousadia e visão. Em seus dias jovens e errantes, provou múltiplos estímulos da subcultura universitária, em busca de iluminação: budismo, rock, meditação, LSD. Frequentou templos Hare Krishnas, trabalhou em uma fazenda podando macieiras.

Ele, que desde a adolescência já adotava dietas restritivas e jejuns, também se encontrou com o vegetarianismo, ao qual foi praticamente fiel até o fim. Só que Jobs não era um vegetariano comum. Tudo bem curtir brócolis, aspargos, nozes, mel e legumes sem amido. Insólito é submeter-se a longas temporadas de “mononutrição”, ora comendo apenas maçãs, ora apenas salada de cenoura com limão.

Ou ficar com as feições alaranjadas de tanto se entupir de cenouras. Ou passar o ano de 1977 inteiro à base de frutas. Tal posição extrema foi motivo de conflito constante com a esposa e os médicos: diagnosticado com câncer de pâncreas em 2004, Jobs fincou pé nos tratamentos alternativos, continuou evitando proteína animal, e prosseguiu com as refeições que muitos julgariam camicases.

Ao entrar na pele de Steve Jobs no cinema, o ator Ashton Kutcher foi parar no hospital com essas dietas. Seriam fruto exclusivo de experiências hippies e espirituais da juventude, de algum distúrbio de origem clínica, ou das ideias presentes em “Diet for a Small Planet”, de Frances Moore Lappé? Foi após ler o livro que Jobs renunciou à carne, e seus hábitos alimentares ganharam uma aura religiosa, quase sagrada.

UM GÊNIO DA SIMPLICIDADE
Difícil desvendar o que se passava nas entrelinhas neurais de Steve Jobs. Uma vez, ele disse que o processo de digestão roubava a energia que deveria ser canalizada para atividades mais elevadas. Talvez, no fundo, buscasse inspiração nas abstinências estomacais.

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Não que isso o impedisse de fazer o que fez, com paixão. Trabalhar na Atari. Fundar a Apple, junto com Gary Wozniak. E criar a Pixar, de onde veio a maior parte de sua fortuna. Ele apostou na computação digital aplicada nas telonas, mesmo sendo taxado de louco em 1986, quando investiu U$ 10 milhões no “The Graphics Group”, de George Lucas, que depois viraria a Pixar; em 1995, faturou U$ 360 milhões com a animação “Toy Story”; em 2006, a Disney adquiriu a Pixar por U$ 7,4 bilhões, e Steve Jobs tornou-se o maior acionista individual da The Walt Disney Company, com 7% de participação.

No entanto, o homem que se vestia sempre igual – camisa preta de mangas compridas e gola rolê, jeans e tênis – tinha um dia a dia sem frescuras, familiar e avesso à ostentação. Ia descalço ao Palo Alto Whole Foods Market, pegar pão de trigo integral e legumes. Se os seus restaurantes preferidos no Silicon Valley estavam lotados, aguardava na fila como todo mundo. Parece que a simplicidade da sua vida particular estendeu-se à filosofia profissional.

Jobs queria que as pessoas tivessem acesso aos computadores pessoais, e que eles fossem agradáveis e fáceis de usar como um eletrodoméstico de cozinha. Acreditava que um produto deveria ser constituído estritamente das partes essenciais, ter um aspecto que refletisse a sua natureza pura. Então, criou um sistema operacional descomplicado e intuitivo, antagônico ao Windows, e desenvolveu peças tecnológicas com design elegante e desejado, sempre mirando a clareza que leva à perfeição.

DA MAÇÃ À ENGUIA
Jobs, porém, não era irretocável, assim como nenhum de nós é. Tinha as suas idiossincrasias, os seus bugs, as suas fraquezas. Uma delas era a comida japonesa, a única exceção que fazia em matéria de carne, às vezes. E gostava tanto que enviou o chef do Café Mac (restaurante da Apple) para a Academia Tsukiji Soba de Tokyo, para aprender a arte de fazer soba, o macarrão japonês de farinha de trigo sarraceno. E não é que os dois, depois, criaram e incluíram o “Sashimi Soba” no menu do campus, combinando fatias de atum e salmão?

Admirador da cultura oriental, da Sony e do zen-budismo, o mentor da Apple apreciava igualmente sushi, tempurá, truta oceânica, cavala e, sobretudo, enguia. Ou melhor, o Sushi Unagi. Unagi é uma enguia de água doce, energética e revigorante, iguaria típica de verão porque ajuda a combater a fadiga provocada pelo calor (chamada de “natsu bate”, a moleza decorrente da estação quente). Rica em proteínas, vitamina C, cálcio e Ômega 3, a enguia não força o corpo já cansado pelos efeitos das altas temperaturas, é de fácil digestão.

A receita é citada na mais antiga antologia japonesa de poemas, o “Man’yōshū”, compilada em 759. Só que o sofisticado prato vem de milhares de anos, e Steve Jobs o procurava tanto na Califórnia (no Kaygetsu e no Jin Sho) quanto no afamado Sushi Iwa, de Kyoto. Outra apresentação bastante requisitada é o Unagi Donburi (Unadon): a enguia grelhada, preparada com molho espesso de soja, mirin e açúcar sobre o arroz.

No Japão, existe sorvete e até um refrigerante de enguia, o Unagi Nobori. Mas Steve era fascinado mesmo pelos sucos Odwalla, verdadeiras bombas de vitaminas e nutrientes. Sem água, sem conservantes, sem excessos, suco 100% suco, a essência pura e simples da fruta. Se fosse maçã, melhor ainda. Ele absorveria tudo lendo “Moby Dick” ou escutando “Strawberry Fields Forever”.

SUSHI DE ENGUIA COM SALMÃO E CAJU CONFIT

4 PORÇÕES
INGREDIENTES

• 300g de arroz para sushi já pronto
• 200g de filé de salmão fresco (ou atum)
• 100 g de unagui
• 1 caju
• 2 folhas de nori
• 200ml de água
• 50ml de mirin (saquê doce de uso culinário)
• 3 colheres (sopa) de mel
• Shoyu e gengibre em conserva a gosto Sirva com shoyu e gengibre.

MODO DE PREPARO

CAJU CONFIT
Com um palitinho de churrasco, fure todo o caju. Esprema o suco e coloque tudo em uma panela com água, o saquê e o mel. Cozinhe em fogo baixo por 1 hora e meia, ou até ficar macio. Reserve.

SUSHI
Com as mãos úmidas, coloque meia folha de nori em uma esteira de bambu. Espalhe o arroz de sushi (90 g) sobre a alga, deixando 1 cm livre na parte superior da alga. Esquente a enguia e coloque uma tira no meio do arroz. Enrole o sushi com a esteira, formando um cilindro. Corte em 8 pedaços e reserve. Faça mais dois rolinhos. Fatie finamente o salmão, cerca de 6 cm x 2,5 cm, e recubra os pedaços de sushi. Fatie o caju confit e coloque sobre o salmão.

Texto: Fábio Angelini

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