Enquanto Pancho Villa, ao Norte, lutava pelo prazer de lutar, Emiliano Zapata, do lado oposto, defendeu os camponeses oprimidos pelos latifundiários. Enquanto Villa gostava de carne assada, tortilhas, morango, e comia o que lhe chegava à mão, Zapata apreciava tacos de linguiça frita, conhaque e se permitia certos luxos. O primeiro, mais para bandoleiro e sem objetivos definidos; o segundo, idealista, adotou o lema “Terra e Liberdade”.

Ambos, figuras proeminentes da conturbada Revolução Mexicana, transformados em generais e assassinados em emboscadas. Ambos, personagens – perdoem o estereótipo, está nas fotos – de bigodes pretos e grossos, sombreros largos, peles queimadas, e com mais filhos do que é possível contar nos dedos das mãos.

Só que há mais músicas cantando a vida e os feitos de Zapata, o “Caudilho de Sul”. Umas 147, pelo menos. De família rural, o jovem mestiço de classe média viu seu próprio pai ter os campos tomados pelos coronéis de lá. Amadureceu sério, inteligente, focado, e com 30 anos em 1909, foi eleito dirigente agrícola de Morelos, estado próximo à capital federal. Por aí começaram as suas reivindicações, a sua inscrição nas páginas da memória.

Antes de recorrer à força, Zapata tentou negociar pacificamente a devolução das propriedades aos agricultores surrupiados. Muitas vezes. Também acreditava no direito à greve, no reconhecimento dos povos indígenas e na emancipação da mulher. Os ideais de Emiliano ecoaram pelo país, em desafio aos interesses dos poderosos. Entretanto, eram tempos inquietos, de golpes de Estado, de um país pressionado pelos EUA, de um país em guerra consigo mesmo. Então, cansado, ele pegou nas armas. “Se não há justiça para o povo, que não haja paz para o governo.”

Agora, era o estrategista, o general do Exército Libertador do Sul. Conseguiu agrupar um efetivo de 20 mil soldados, zapatistas dispostos a morrer sob seu comando. Ajudou lavradores a recuperarem seus alqueires, organizou levantes em outros sítios. Graças ao seu gênio militar, sobreviveu por quase 10 anos à guerra de extermínio adversária, às traições políticas, torturas de prisioneiros, armas químicas e inferioridade numérica e bélica. Obteve vitórias surpreendentes, recebeu propostas de suborno e promessas de altos cargos. Recusou. E combateu.

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VIVA ZAPATA! E VIVA O ATOLE!
Uma história e tanto, que Elia Kazan levou para o cinema: em 1952, “Viva Zapata!” tomou as telas. Marlon Brando no papel do herói, mas foi o mexicano Anthony Quinn quem levou o Oscar, interpretando Eufemio, irmão de Zapata. E que mundo pequeno esse: o pai do ator, Francisco Quinn, lutara ao lado de Pancho Villa.

A imagem do guerrilheiro contrasta com os hábitos domésticos do homem. Difícil imaginá-lo curtindo Mozart e cozinha francesa em roupas bem talhadas. Mais palpável enxergá-lo nas caçadas solitárias montado no burro da fazenda, retornando com lenha e vagens colhidas, coelhos e pombos abatidos. Ou em casa, bebendo café preto e comendo feijão de panela, entre uma mulher e outra. Contam que ele teve pelo menos nove companheiras, apesar de morrer com apenas 40 anos.

Zapata gostava bastante de mezcal, o mais antigo destilado nacional, produzido do sumo fermentado de uma planta chamada agave (do agave azul obtém-se a tequila). Foi com mezcal que ele e Pancho Villa consagraram o pacto de Xochimilco, em prol da questão agrária. No entanto, o lendário camponês seria capaz de mobilizar agrupamentos inteiros por um outro licor: o atole.

O milenar e mesoamericano atole de camote já era consumido por maias e astecas. Bebida quente sagrada, de fermentação e preparação complexas, originalmente feita à base de milho e cacau branco, acabou virando tradição no México e ganhou inúmeras variações. Pode ser grosso como um mingau, levar nozes, frutas, feijão, pimentas e até casca de árvore. Em geral, é espumante e doce, composto por leite e maisena (ou farinha de arroz), canela, baunilha, açúcar ou mel.

O atole é apreciado nas manhãs frias, companheiro bem-vindo dos tamales e das datas festivas. Há uma versão popular de chocolate (“champurrado”), mais servida no inverno, além dos atoles de laranja, arroz, amaranto e morango. E tem o atole predileto de Zapata, servido no pote de cobre reluzente e polido da família, uma receita simples e cremosa com milho, leite, canela, açúcar branco ou castanho. Elaborado exclusivamente com os ingredientes da terra que lhe pertencia.

ATOLE DE MORANGO

Rendimento: 2 porções

INGREDIENTES:
• 2 xícaras de morangos
• 2 colheres de sopa de amido de milho (maisena)
• ½ xícara de açúcar
• 1 pitada de bicarbonato de sódio
• 500ml de leite
• 1 xícara de água

PREPARO (30 MINUTOS):
1. Lave os morangos frescos, retire a parte verde e corte em pedaços. Se preferir, combine diferentes frutas para a bebida. Amoras, framboesas e mirtilo, por exemplo, ficam muito bem juntos.
2. Coloque os morangos em uma panela junto com o açúcar e leve ao fogo médio. Deixe cozinhar até que os morangos amoleçam e se forme uma calda espessa. Então, desligue o fogo e deixe amornar.
3. Enquanto os morangos esfriam, misture em outra panela o leite e o bicarbonato, e leve ao fogo até ferver. O leite pode ser de vaca ou vegetariano (de soja, amêndoas, arroz).
4. Bata os morangos no liquidificador junto com metade da água, até obter um purê sem pedaços, e adicione ao leite a ferver. Mexa para misturar e deixe ferver novamente.
5. À parte, dissolva o amido na água restante e junte à preparação anterior. Fique mexendo até engrossar. É importante dissolver bem o amido, para que não forme grumos.
Sirva quente ao café da manhã, lanche ou ceia, sobretudo em dias ou noites frias.

Texto: Fábio Angelini

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