Você está no carro, indo ao cinema com a família. Apesar de saber para onde vai, liga o GPS do celular. Ou melhor, tenta. A bateria acabou. E você esqueceu o fio do carregador em casa. Desespero. Talvez pelo celular, embora seja de pouca valia no escurinho do cinema. Talvez por você ter desaprendido como é dirigir sem o apoio da mocinha de voz metálica e impessoal.

Dias depois, reunião em casa de amigos. Eles oferecem um gostoso ceviche. Gostoso e up-to-date, convenhamos. Recepcionar amigos para um ceviche é chique. Moderno. Ainda assim, soa estranho para você o casal de anfitriões ter feito questão de preparar o prato. Na sua opinião, gente que cozinha em casa soa um tanto vintage.

Após todos se refestelarem com a iguaria de origem peruana, o dono da casa prepara um cafezinho. À moda dele, diga-se: passado no coador de café em cima do bule, com a água cuidadosamente aquecida na chaleira (sim, aquela chaleira com cara de 1968) em temperatura morna para quente, tomando todo cuidado pra que não ferva. Você pensa nas maravilhosas máquinas de café espresso caseiras disponíveis no mercado, e as não tão novas cafeteiras elétricas, que esquentam a água e passam o café automaticamente. E se pergunta: “Como alguém ainda faz café desse jeito antigo?”

Os exemplos que vimos aqui estão carregados nas tintas, é claro. Mas quão longe estão de nossa realidade? Talvez não muito, se pensarmos que o limite entre o conforto e a preguiça é muito tênue. Nada contra as traquitanas com as quais a tecnologia vem nos agraciando década após década, e que nos ajudam muito nas tarefas diárias, mas às vezes temos de nos lembrar de explicar a nós mesmos, como fazemos às vezes com as crianças, que o leite não vem da caixinha, mas sim da vaca. Que a cenoura não nasce no restaurante, mas na horta.

COZINHAR CAIU EM DESUSO NA COZINHA?
Será? Afinal, cada vez mais frequentemente, nos vemos diante do paradoxo da comida caseira fora de casa. Do bolinho de chuva que era especialidade (com patente adquirida) de mães, e que agora a gente encontra no quilinho da esquina. Tem graça? E a pobre bisavó da avó, que se esmerou pra aprender a fazer geleia em casa? A receitinha passou de geração em geração, mas, em alguma curva do tempo, se perdeu no fundo da gaveta. E aquele bolo gostoso? Agora tem de todo tipo em dezenas de lojas especializadas em bolo. Caseiro, claro.

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Estará aquele luxuoso cooktop de infusão fadado a virar suporte de toalhinha rendada? Estamos mesmo derrotando os conhecimentos adquiridos ao longo de gerações, por conta de recebermos cada vez mais informação para processar? Afinal, o cérebro não é tão rápido para acompanhar tudo e a nossa memória de curto prazo é cada vez mais curta.

VINTAGE OU COOL? FAZ DIFERENÇA?
Bem, aí é que vem a boa notícia: se você prestar atenção no seu próprio dia a dia, verá que é tudo cíclico. Assim é a natureza humana. Sob alguns aspectos, somos positivamente instáveis e modistas. Ainda bem. Só assim podemos, ao longo do tempo, declarar que o vintage voltou a ser cool, e o que era cool já não é mais. Até que outro alguém invente (ou reinvente) um novo hábito, um novo modismo, uma nova mania na cozinha. Reviramos e distorcemos tendências, relegamos conhecimentos adquiridos ao gavetão da vovó e depois resgatamos. Buscamos o novo sempre, mesmo sabendo que ele nem sempre é novo. E isso é bom! Nosso instinto de contrariar e transgredir o status-quo nos mantém vivos. Na vida. No carro com o guia de 800 páginas ou com o GPS. E na cozinha também. Hoje amamos ir ao restaurante, amanhã enjoaremos um pouco e voltaremos à comida de casa, com o tempero que a gente mesmo faz, nem que seja só azeite-sal-e-vinagre. Os bons filhos à cozinha tornam, diríamos nós mesmos.

É fato que respondemos sempre às mesmas variáveis. Mudamos de opinião como as crianças na passagem para a adolescência, e como os adolescentes virando adultos. Todos eles encaram os mesmos impasses alimentares que a maioria dos adultos, via de regra, já enfrentaram quando crianças. Quem gosta de vagem desde criança pode até atirar o primeiro pé de alface. Mas precisa admitir que é exceção à regra.

Mudamos com a experiência. E pela insistência, em primeira instância, dos adultos que nos cercam. Experimentamos. Gostamos ou não gostamos. Hoje, que fique claro. Amanhã pode ser diferente. A cebola que faz chorar pode trazer lágrimas de felicidade em uma salada benfeita. Em casa, no restaurante, seja aonde for. Você manda.

Quanto à tecnologia, ela sempre estará aí. E cada geração, a seu tempo, achará que ela é a bola da vez. Sempre foi assim. Basta pensar que, bem lá atrás, quando alguém descobriu que o fogo feito esfregando pauzinhos não servia só pra aquecer, mas também pra deixar mais saborosa a carne dos animais, aquilo já era tecnologia. E já éramos cool na cozinha.

Texto: Paulo Samá

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