O prato no tempo do mês é para quem tem bom gosto e estômago forte. Quem gosta de ler e não se abala com tipos sinistros, enredos lúgubres, TVs empoeiradas e velhas películas P&B, na penumbra da sala, do cinema ou da meia-noite. Nem receia ser perseguido por vozes sobrenaturais, sussurradas de discos de vinil ou MP3. Sua mente é livre o suficiente para aceitar que horror e gastronomia podem habitar o mesmo plano? Ainda que não, avance sem temores. Tudo vem temperado com humor negro, mais humor do que negro.

COMO SE ALIMENTAVA O DR. PHIBES?
Comecemos mais lá na frente, em 1973, com “As Sete Máscaras da Morte” (Theatre of Blood). E pelo crítico teatral shakespeariano LGBT que, sem saber, serve-se de uma tenra torta de poodles, recheada com seus próprios amados poodles. Quem prepara a infame e vingativa refeição é o personagem Edward Kendall Sheridan, disfarçado de chef. E o chef, na história um ator injustiçado e ensandecido, é encarnado por Vincent Price.

Dois anos antes, o mestre do terror clássico já havia interpretado “O Abominável Dr. Phibes”, releitura gótica de “O Fantasma da Ópera”. A motivação do Dr. é novamente a revanche macabra e implacável, agora contra a equipe que operara sua falecida esposa Victoria. Após um acidente de carro, o antológico Anton Phibes retorna ao mundo dos vivos desfigurado, uma criatura hedionda que só consegue falar graças ao gramofone plugado na garganta, e que se alimenta através de um orifício na lateral do pescoço. Memorável o jantar no qual Phibes come peixe, engasga leve, e retira uma espinha abaixo da sua orelha, sorrindo.

A formação culta, o berço abastado, o porte aristocrático e as características físicas ajudaram a forjar a verve artística de Price, referência incomparável em pitadas melancólicas e sádicas bem dosadas. Formado em Artes e Inglês em Yale, ele ingressou no ofício dramático influenciado pelo seu apego literário, estreando no teatro inglês em 1934. No cinema, debutou como coadjuvante em 1938 na comédia americana “Service de Luxe”. Os trabalhos prosseguiram esparsos, pois havia um entrave: Hollywood não permitia atores secundários mais altos do que os principais. Vincent tinha 1,93m.

Em compensação, essa estatura ameaçadora rendeu-lhe papéis de vilão em vários gêneros: como o bandido Carwood em “Veneno dos Trópicos”; o Cardeal Richelieu em “Os Três Mosqueteiros”; o maléfico herdeiro de jornal Walter Kyne, em “Cidade das Trevas”; o desprezível mestre de obras Baka em “Os Dez Mandamentos”; e até o diabo em “A História da Humanidade”. Porém, seu primeiro papel notório só viria com “Laura” (1944), de Otto Preminger.

Assumiu o protagonismo finalmente em 1946, na pele do maquiavélico psiquiatra Richard Cross em “A Morte Veste-se de Branco” (Shock!). Embora já tivesse feito várias aparições em filmes de terror nos anos 1940, a partir de 1953 com o sucesso de “House of Wax” (Museu de Cera), é que Vincent Price passou a ser percebido e requisitado pela sua presença física, inclinação inata para a morbidez, voz tétrica e hipnotizante. Voz que impactava todos que a ouviam, no show business ou no telefone. Voz que ficaria gravada em narrações inesquecíveis no cenário musical Pop e Rock. Está em “Black Widow”, de Alice Cooper, e em “Thriller”, de Michael Jackson.

Ao fundir com perfeição medo e humor, insanidade e sofrimento, expressão vocal e facial, Price elevou a categoria do terror e do fantástico na Sétima Arte, mesmo no chamado Terror B. Estrelou filmes de Roger Corman baseados na obra de Edgar Allan Poe, e teve como rivais e irmãos de sangue, Bela Lugosi, Boris Karloff, Peter Lorre, Christopher Lee e Peter Cushing. Depois, ganhou homenagens de um de seus maiores fãs – Tim Burton –, no incomum curta de animação “Vincent” (1982), e com um papel em “Edward Mãos de Tesoura” (1990).

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MESTRE DO HORROR E MESTRE-CUCA
Vincent tinha por superstição deixar ferradura e crucifixo pendurados na porta. Alguns insinuam que a carreira “funesta” mexeu com a sua psique. Na prática, isso só revela a face de homem simples, ainda que rico, viajado e estudado. Que apreciava cerveja, em particular a mexicana Negra Modelo, enquanto fugia dos coquetéis modernosos. Que amava câmeras e palcos, mas dizia que seu trabalho favorito foi dublar o Professor Ratigan, na animação da Disney “The Great Mouse Detective”, de 1986.

À exceção de participações selecionadas e narrar contos de horror, Price deixou os sets ao longo dos anos 1970 para se dedicar ao seu outro talento natural: cozinhar. E isso era meio que inevitável na família: o avô havia inventado e patenteado o “Dr. Price’s Cream Baking Powder” (fermento em pó), com o qual fez fortuna, e o pai presidiu a National Candy Company, que chegou a ser a maior empresa de doces da América.

Então, o escritor, poeta, mecenas e intérprete de mais de 100 filmes, lançou-se à TV para apresentar o programa “Cooking Price Wise”. Gourmet inveterado e mestre-cuca de mão cheia, Vincent possuía uma cozinha do tamanho de um apartamento (jamais levou ao forno um animal doméstico, até onde se sabe). Não que Price ficasse ali confinado. Seguidor do lema “a boa cozinha é onde você a encontra”, rodou muito e comeu tanto em estabelecimentos lendários quanto mais populares, de Madrid à Transilvânia.

A soma dessas experiências turísticas e gastronômicas foi transmutada para o livro “A Treasury of Great Recipes”, de 1964. Talvez a primeira publicação culinária de uma celebridade, escrita em parceria com sua segunda esposa, Mary Grant Price. Traz das iguarias da alta gastronomia europeia aos cachorros-quentes feitos no Dodger Stadium, de Los Angeles. Os Price tinham o costume de recriar em casa os pratos que colecionavam pelo mundo, e convidar os amigos para testar. São receitas despretensiosas em formatos simplificados, acompanhadas de comentários espirituosos, fotos e histórias das viagens do casal, descrição de restaurantes.

A audiência rasga elogios ao “chocolate pot de crème”– uma espécie de mousse de chocolate turbinado. E para acabar de vez com o suspense e assassinar a curiosidade, a comida que deixava Vincent Price em transe era o “risotto alla milanese”.

Na Idade Média, o arroz chegou à Itália pelas mãos dos árabes. No entanto, em Milão ele encontrou os ingredientes que o transformaram em sensação, valorizando seu sabor com os condimentos da região (principalmente o açafrão). Assim nasceu o risoto à moda milanesa. A receita é normalmente elaborada com os ingredientes básicos de séculos atrás: além do arroz, caldo de frango, cebola, manteiga, vinho, parmesão e açafrão. Com o tempo, foram incorporados elementos como lagosta, trufas, cogumelos e aspargos.

Victoria Price, filha de Vincent, disse que o pai não faria mal a uma mosca (ou morcego), mas “enlouqueceria e mataria” por um bom e bem feito “risotto alla milanese”. Claro, nunca o fez, não desejava atrair ainda mais fama. Bastava o que já tinha conquistado como carismático ator-chef, bastavam as duas estrelas na calçada da fama. No Hollywood Boulevard, elas reluzem de forma estranha. Especialmente após o sol se pôr.

RISOTTO ALLA MILANESE
(ARROZ COM AÇAFRÃO E QUEIJO PARMESÃO)

Ingredientes
4 colheres de sopa de manteiga
1 cebola branca doce em cubos pequenos
2 dentes de alho picados
1 xícara e meia de arroz arbóreo
3 xícaras de caldo de legumes, de galinha ou de açafrão
1/4 xícara de vinho branco
1/2 xícara de creme de leite
1/2 parmesão ralado
1 colher de chá de raminhos de açafrão
1 pitada de sal e pimenta-branca

Modo de preparo
Na panela, derreta a manteiga, adicione a cebola e o alho até ficarem claros, e depois o arroz arbóreo. Refogue o arroz até que fique claro, junte o vinho e uma xícara e meia do caldo. Cozinhe em fogo baixo até que o líquido evapore. Adicione a xícara e meia que restou do caldo e cozinhe até que todo o líquido tenha desaparecido.
O arroz deve ficar pegajoso, mas ainda um pouco al dente. Adicione o creme de leite, sal, pimenta e raminhos de açafrão. O arroz vai adquirir o aspecto amarelo.
Cozinhe em fogo alto até que o creme de leite se esvaia, e adicione o queijo parmesão ralado. Sirva quente, adicionando mais queijo por cima do prato, se desejar.

Texto: Fábio Angelini

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