Ayrton Senna, sem cronômetro na mesa

0

Quando pequeno, Senna morou na esquina da Rua Aviador Gil Guilherme com a Avenida Santos Dumont. Era uma profecia, um prenúncio da paixão de voar sobre chicanes e aterrissar sobre o asfalto, cozinhar pneus “biscoito” e devorar retas.

Criança, aventurou-se em carrinhos de rolimã e bikes. Ao 5 anos, ganhou do pai um kart equipado com motor de cortador de grama. A velocidade virou uma obsessão precoce, mas não o acompanhava à mesa: ali, ao contrário das pistas, ele dirigia o garfo devagar, sem se preocupar com milésimos de segundo. Comer o quê? Ayrton Senna da Silva não negava suas raízes: curtia a boa e tradicional comida caseira, e a pedia sempre que voltava ao país: arroz, feijão, bife e batata frita. Salada de alface e Guaraná. E massa sem restrições.

Difícil foi engolir o período em que permaneceu na Inglaterra, cuja gastronomia abominava tanto quanto quiabo, jiló, carne de porco e heavy metal. Qualquer brecha na agenda, acelerava para a mansão no Algarve, nem que fosse só para apreciar algo confortante e vagaroso como a canja de galinha da Dona Juracy – sua governanta, primeiro na cidade inglesa de Esher, e depois em Portugal. Ou então no restaurante A Toca do Julio, próximo à Sintra, que Senna costumava frequentar durante os GPs de Estoril. Estoril, aliás, onde o piloto inaugurou o ponto mais alto do pódio, a 21 de abril de 1985, a bordo de um Lotus-Renault 97T, preto e dourado.

Dos hobbys, só a pesca e os profiteroles não envolviam a velocidade. Todos os outros denunciavam a compulsão pelo movimento e desafio: aeromodelismo, jet ski, corrida, esqui aquático e tênis. Sem falar no kart. A área de lazer da fazenda de Tatuí incluía um circuito perfeito de 1 km, só para brincar. Na região, Ayrton também se divertia com a macarronada da Trattoria Della Nonna.

sociedade-da-mesa

CAMPEÃO DA SIMPLICIDADE
Discreto, Senna preferia o ambiente doméstico aos restaurantes, mas quando os procurava em qualquer lugar do mundo, optava pelos italianos. Aí sim se tornava algo exigente e voraz, pedindo muita massa al dente e molho de tomate artesanal. Um hábito assinado e carimbado embaixo pelo seu preparador-coach-conselheiro. Para recuperar as energias e os 4 quilos perdidos em cada prova.

Acumular reservas com o “spaghetti al torchio” da Trattoria Romagnola também era coisa que Senna não dispensava. Diz-se que foi o seu último jantar, antes do fatídico acidente. O típico estabelecimento de culinária italiana fica nos arredores de Ímola, entre Bolonha e San Marino, espremido em uma rua da pequena Castel San Pietro Terme. Prato simples, saboroso e leve, a massa cozida com tomates frescos, manjericão, azeitonas pretas e lascas de queijo grana padano.

Talvez o piloto sempre fascinado por máquinas tenha se encantado pelo “torchio”, antiga prensa manual onde era extrudado o spaguetti. Nascida no século XVI, a engenhoca foi uma das responsáveis pela popularização da pasta na Itália, até então cara demais para a maioria do povo e trabalhada unicamente com a força das mãos. “Il torchio” viabilizou a produção de massa contínua e demonstrou que ela poderia ser estocada seca. Pelo século XVII, já era elaborada e vendida temperada com queijo ralado em Nápoles.

O “torchio” ancestral tornou-se item de colecionador ou grande achado pelos vilarejos. Uma ou outra versão modernizada e turbinada pode ser vista no e-commerce. Mais fácil, porém, é encontrar ruas, avenidas, rodovias, túneis, praças, institutos e estação de metrô com o nome de Ayrton Senna.

MACARRÃO COM TOMATE, AZEITONA, GRANA PADANO E MANJERICÃO

INGREDIENTES:
• 400g de massa curta da sua preferência
• 60g de azeitonas pretas sem caroço e grosseiramente picadas
• 500g de tomates maduros cortados em 8 partes cada um
• sal
• pimenta-do-reino moída na hora
• folhinhas de alecrim
• 120ml de azeite de oliva extravirgem + azeite extra para regar
• 4 dentes de alho
• 200g de queijo grana padano em lascas
• 1 punhado de folhas de manjericão

PREPARO:
Preaqueça o forno a 200ºC. Unte levemente uma assadeira com azeite ou óleo e arrume os tomates nela. Salpique-os com sal e pimenta, e reserve. Corte os dentes de alho de forma a deixar um pedaço para cada fatia de tomate. Coloque o alho sobre o tomate, adicione umas folhinhas de alecrim por cima, regue com azeite e leve ao forno por cerca de 10 minutos, ou até que fiquem bem macios e a pele comece a escurecer.

Retire do forno, espere esfriar, rasgue em pedaços e reserve. Enquanto isso, cozinhe o macarrão em bastante água fervente e sal. Coloque o manjericão numa tigelinha, adicione o azeite e bata usando um mixer, pilão ou processador pequeno. Escorra o macarrão, adicione as azeitonas, o tomate reservado, o queijo e o azeite com manjericão, e dê uma boa misturada. Sirva em seguida.

Rendimento: 4 porções

Texto: Fábio Angelini

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!

 

Deixe um comentário