“Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros”.
(Mia Couto, biólogo e escritor moçambicano)

Em Portugal, o usual é brócolos, esparguete e leite gordo, leite magro ou meio-gordo. Hoje em dia, as distinções de grafia são, como dizem lá na terrinha, mais pequenas do que eram. E a nossa cozinha, que foi tão saborosamente influenciada pela escola lusitana, felizmente não foi a única: temos mais oito países com traços e acentos marcantes que vêm da época da colonização.

sociedade-da-mesa

A esse conjunto de identidades culturais de membros da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), denominou-se lusofonia. Que combina muitíssimo bem com gastronomia. A maioria dos produtos, ingredientes e temperos são comuns a todas essas nações, mas cada uma guarda suas próprias peculiaridades, misturas e criações – na escrita e na cozinha.

Cardápio lusofônico da próxima edição:
Timor-Leste, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné Equatorial e Macau.

ANGOLA
Culinária simples e excêntrica, essencialmente constituída por pratos à base de carnes. Tem como carro-chefe o “funge”, que mescla farinha de mandioca ou de milho com água. Parece uma polenta, e pode ser acompanhado pela “quisaca” (folhas de mandioca maceradas, cozidas e temperadas), pela galinha cabidela ao molho pardo e pela “muamba” (galinha, peixe ou carne vermelha com amendoim, quiabo e óleo de palma).

Outra iguaria típica é preparada com peixe assado, banana-pão e mandioca: o “mufete”. O amendoim é bem popular por lá, só que é chamado de “ginguba” e compõe a “quitapa”, um tipo de paçoca salgada muito apreciada. Não vá confundir com “gindungo”, que significa pimenta.

MOÇAMBIQUE
A pimenta-malagueta moçambicana possui um nome quase onomatopaico: “piri-piri”. A comida do país é substancial e fortinha sim, recheada de influências indianas, chinesas e árabes, presentes no “caril” (curry), no “badjas” (feijão fradinho com pão) e no “ushwa” (massa de milho servida com quase todos os pratos).

Ali, milho é palavra que aparece em muitas receitas, entre elas o “xima” – uma farinha de milho fininha diluída na água, que acompanha os alimentos “molhados”. Gastronomia ainda banhada por especiarias e pelo Oceano Índico, cujos camarões gigantes e demais frutos do mar são tratados com arte, alho, limão e ervas. “Matapa” é o prato popular: mandioca, alho e farinha de tubérculos, cozidos com carne de caranguejo ou camarão. Mais castanhas-de-caju, às vezes. É diferente do “mucapata”, um purê elaborado com feijão vermelho regado a alho e leite de coco.

GUINÉ-BISSAU
O limão e a malagueta são condimentos indispensáveis. As ostras estão entre as maiores do mundo. E a canja leva tomate e hortelã. Daí já dá pra sentir que a culinária guineense flerta com paladares intensos. Predominam as cozinhas portuguesa e africana, mas o item principal é o arroz.

Quando cozido, é chamado de “bianda”, ao qual geralmente acrescenta-se o “mafé” – designação para os molhos e caldos preparados com peixe, mariscos, galinha ou carne. É popular o “caldo de mancarra”, feito com amendoim moído, carne bovina e frango. O “thieboudienne”, prato clássico do Senegal, também faz sucesso: guisado de peixe com arroz e legumes cozidos. Feijão, banana, mandioca e “candja” (quiabo) ocupam igualmente bocas e mesas. E tem até um molho típico do Maranhão, o cuxá, inspirado no vegetal guineense “kutcha”.

Texto: Fábio Angelini

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