Um grande papel

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Cerca de 3 mil anos após os egípcios começarem a usar o papiro para escrever, surgiu na China o papel feito de fibras vegetais e trapos de tecidos cozidos e esmagados. Assim ele foi manufaturado, pela maior parte de sua história. Depois, fábricas pipocaram no Velho Mundo: em 1094 na Espanha, 1189 na França, 1291 da Alemanha e 1330 na Inglaterra.

O algodão e os farrapos de linho eram as principais matérias-primas. Até que em 1719, o naturalista Reaumur observou que as vespas construíam suas colmeias mastigando pedaços de madeira, que viravam uma pasta. O cientista sugeriu a madeira como alternativa à produção de papel, o que ocorreria décadas à frente, utilizando o pinheiro e o abeto.

A imprensa, a Reforma e o Renascimento deram força à indústria papeleira. Porém, ela só ganhou escala e modernização a partir de 1850, com as máquinas que transformavam madeira moída em pasta mecânica de celulose, aliada à introdução de novos produtos químicos e às demandas do mercado editorial. Hoje, a principal fonte de fibras vem do eucalipto, cujo ciclo de crescimento é mais rápido.

Técnicas foram aperfeiçoadas, avanços incorporados, e surgiu o papel tissue, conhece? Todos nós usamos. Papel higiênico, lencinho de papel, guardanapo, máscara facial… “Tissue” quer dizer tecido, e nomeia os papéis utilizados para higiene pessoal e limpeza doméstica. São folhas e rolos de baixa gramatura (peso), cuja suavidade, espessura, capacidade de absorção e resistência lembram um pano, só que não exatamente um pano de prato. E há um tipo que não deixa a cozinha nem à vassourada, tão requisitado que é: o papel toalha.

Antes, em 1857, Joseph Gayetty inventou o papel higiênico, que era vendido em pacotes com folhas planas, caras e não muito convenientes. Em 1879, o britânico Walter Alcock concebeu o rolo de folhas destacáveis, mas não soube direito o que fazer com sua criação. Bem, os irmãos Edward e Clarence Scott – os fundadores da Scott Paper Company – souberam: em 1880, agregaram a brilhante ideia de Walter ao papel higiênico que já produziam e comercializavam.

ABSORVER, LIMPAR, SECAR E OUTROS
O papel toalha só chegaria em 1907, impulsionado por uma falha de produção e uma boa dose de perspicácia. O caso é que um trem recebeu uma remessa de papel higiênico Scott fora das especificações, mais grosso e poroso. Para a empresa, o jeito era recolher o papel ou achar outro uso para ele. Na época, a América enfrentava preocupantes surtos de gripe. Para reduzir a contaminação na escola, um professor da Filadélfia resolveu substituir as toalhas de mão dos banheiros, compartilhadas, por folhas individuais de papel higiênico picotado.

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O filho de Edward, Arthur Scott, havia lido a respeito e foi ligeiro: batizou o “novo produto” como toalha de papel descartável. O sucesso veio tão rápido quanto um espirro. No início, “Sani-Towels” foram vendidas a hotéis, estações de trem e restaurantes, com o fim específico de conter a propagação da doença. Estudos recentes indicam que o papel toalha é mesmo o método mais higiênico para enxugar as mãos, superior aos jatos e secadores de ar quente.

Enfim, as toalhas de papel entraram nas cozinhas domésticas em 1931. Com seus rolos de papel perfurado e macio, de 13 por 8 polegadas. Em 1959, ganharam maior poder de absorção e em 1966, desenhos decorativos. Desde então, cumprem exemplarmente a sua missão de limpar pias, vidros e fornos, absorver líquidos derramados e gorduras de frituras, apoiar utensílios, cobrir pratos e travessas. Acabou o guardanapo, caiu uma meleca no piso, o papel toalha está lá. Prático, eficiente e mais seguro no trato com os alimentos.

Ponto negativo: não é reciclável. Existe um tal “Unpaper Towel”, confeccionado em algodão orgânico e reutilizável; por ora, um substituto economicamente inviável e funcionalmente duvidoso. Enquanto a tecnologia não traz soluções, vamos ficando com toalha de papel multiúso. Escolha as melhores, elaboradas com 100% celulose virgem. As compostas de papel reciclável ou as mistas custam menos, mas são menos eficientes, têm agentes químicos e às vezes cheiro desagradável.

Forre um potinho com papel toalha, e os biscoitos ali continuam crocantes. Evite a ferrugem nas panelas de ferro, secando-as e guardando-as com toalhas de papel. Costuma congelar pão no saco plástico? Coloque uma toalha de papel junto; no descongelamento, ela chupa toda a umidade. Antes de requentar no micro-ondas o arroz ou a pizza que pernoitaram na geladeira, acondicione-os num recipiente e cubra com papel toalha. Que também serve de coador para reduzir a gordura de uma sopa.

Difícil descartar tantos papéis memoráveis.

Texto: Fábio Angelini

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