“É vitalício: comer a Vida deitando-a entontecida sobre o linho do idioma. Nesse leito transverso dispo-a com um só verso. Até chegar ao fim da voz. Até ser um corpo sem foz”
(Mia Couto, biólogo e escritor moçambicano)

Para demonstrar que a gastronomia da lusofonia é tão boa quanto as demais festejadas mundialmente, o chef Luís Simões lançou em 2016 o livro “Sabores da Lusofonia”. Nele, desfilam torrentes de sabores e propostas culinárias de todos os membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

O tema é apetitoso em conteúdo e evidencia a dialética da mesa lusitana, do sudeste Asiático à África. É notória a presença do alho e das ervas, dos peixes e frutos do mar, e a grande diversidade de condimentos. Cada uma das nações carrega, ainda, ingredientes e acentos culturais particulares, o que daria caldo para mais alguns volumes encorpados. Mas é possível traçar um panorama geral, aperitivo modesto, em poucas linhas.

TIMOR-LESTE
Um país jovem e pobre mas não na cozinha, de identidade própria e compilada com as gastronomias africana, portuguesa, indiana e chinesa. Arroz, coco, amendoim, milho, mandioca e banana são essenciais, e geralmente acompanhados por cabrito, a carne preferida. Ela entra no típico “tukir”, feito com tripas, fígado, coração, pernil, e temperos combinados de açafrão, molho de tamarindo, pimenta e gengibre.

Outro representante é o “katupa”, bolinho de arroz com leite de coco embrulhado em folhas de palmeira, vendido nas ruas com peixe ou lulas grelhadas. Entre os doces, o “mano tem” é a fritura queridinha das visitas e tem banana, farinha, açúcar, leite e ovos. Parente do “pisang goreng” (massinha com banana, açúcar e canela). Sabe o nome da tapioca timorense? “Kadaka”. O frango assado popular? “Manu salar”. As duas línguas oficiais são o tétum e o português, mas outras duas dúzias de dialetos também circulam na ilha e nas travessas.

GUINÉ EQUATORIAL
Curtem molhos com amendoim e veneram o inhame, comem mariscos e frutas tropicais à vontade. A sopa picante de peixe (“pepesup”) é consumida aos quilolitros, a exemplo do vinho de palma. Arroz e banana complementam uma extensa lista de pratos guinéu-equatorianos.

Embora o país apresente o maior PIB per capita do continente, não podemos nos esquecer que ali é África. Portanto, nada mais natural do que incorporar às suas receitas crocodilos, cobras, macacos, gazelas, porco-espinhos e outras especialidades da selva. A ocupação inicial foi portuguesa, mas a colonização foi espanhola. Então, espanhol é o primeiro idioma, e as paellas são correntes nos restaurantes de Bata e Malabo, suas principais cidades.

sociedade-da-mesa

CABO VERDE
Esta república de ilhas a leste de Dacar herdou da comida portuguesa e das grandes navegações seus principais pratos – época em que os marinheiros cozinhavam muitos ingredientes numa só panela. Tal hábito deu origem à iguaria nacional “cachupa”: base de feijão, canjica, favas, batata-doce, banana-da-terra, abóbora e couve, acrescidos de carnes de frango, vaca e porco. Um PF de respeito e, dizem aqueles que o encaram, surpreendente no sabor.

O peixe e os frutos do mar constituem a essência da dieta cabo-verdiana (“peixe seco do sal assado”, “lulas guisadas”), além de receitas autóctones, como o famoso “pastel com diabo dentro” (massa de batata assada e farinha de milho bem quente, recheado com atum fresco, cebola e tomate). A temperatura também sobe com a aguardente de cana local, coerentemente nomeada “grogue”. O “queijo de Santo Antão” parece o nosso mineiro, só que é feito com leite de cabra. Que você aprecia fatiando um “gufongo”, pão caseiro de farinha de milho.

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE
Estado insular africano de apenas 1.000 km e 200 mil habitantes. O tamanho e a geografia isolada estão relacionados com a pouca variedade de alimentos e pratos. A verdura “micocó” é utilizada em quase todas as receitas. Banana, fruta-pão e “matabala” (um tubérculo) também batem cartão nas refeições.

As comidas mais características do país são a “santola” – caranguejo-aranha de sabor monstruoso – e o “calulu”, sempre presente nas refeições familiares diárias, festas e cerimônias em geral. Com uma aparência de sopa grossa, o “calulu” é preparado com peixe seco e fresco, carne-seca ou frango, misturado com tomate, alho, quiabo, espinafre, batata-doce, abobrinha e óleo de palma. Há somente uma cervejaria nacional e um supermercado de porte maior em São Tomé, com produtos importados principalmente de Portugal e do Brasil. Nosso caruru não está na lista.

MACAU
Região administrativa da China desde 1999, Macau esteve sob o domínio de Portugal por 450 anos. Pouco se fala e ouve nossa língua por lá, mas os cardápios não negam a intensa marca: arroz “chau-chau” de bacalhau, cabidela de pato, chouriço em vinho de alho… A diferença é que a tradicional cozinha portuguesa foi adaptada aos ingredientes locais e enriquecida com as especiarias orientais, do açafrão à pimenta, do caril à canela.

O típico molho “balichão” agrega camarão, malagueta, louro e aguardente, entre outros itens. Em Macau, as cozinhas chinesa e portuguesa fundiram-se e renasceram como culinária macaense – presenteando-nos com misturas aromáticas e paladares exóticos, degustados em preparos como o “minchi”. Junta carne picada, batata frita em cubinhos e ovo estrelado, condimentados com cebola, alho, açúcar, pimenta-do-reino, shoyo, azeite e sal. O prato possui tantas variações que dizem não haver uma receita igual. E assim é Macau, única à mesa.

Texto: Fábio Angelini

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