Villa-Lobos, um erudito à moda Brasileira

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No pequeno coreto de uma confeitaria fundada em 1894, Villa-Lobos emitiu os primeiros acordes de sua ressonante carreira, até se consagrar o maior compositor das Américas. Sua obra autêntica e ousada, que mescla do erudito ao popular, expressou de forma brilhante a alma brasileira, engrandeceu o país e o revelou ao mundo. Pelos seis anos de idade, o menino de apelido Tuhu criava sua primeira melodia, baseada nas cantigas de roda, com o título de “Panqueca”, para homenagear a mãe Noêmia. Era o prato predileto dela.

Não sabia ele de quanto carinho e quanta energia extra a mãe precisaria, passados cinco anos: em 1899, morreu o marido Raul Villa-Lobos, e a senhora teve que dar conta de mais sete filhos. Distanciou-se da rotina social e dos saraus de música de câmara, realizados em casa, para trabalhar em outra casa, onde lavava e engomava toalhas e guardanapos: a então “Casa Colombo”, no centro do Rio. Foi o ensejo para que Villa-Lobos – autodidata em violoncelo, violão, clarinete, piano e saxofone – fizesse hibernar a música solene da sua formação (influência do pai e do meio), para ir atrás do que considerava diferente.

E ele foi. Dos grupos de choro às notas urbanas cariocas, da capoeira que aprendeu à caça de preás com o amigo Zé do Cavaquinho. Obcecado pelos ritmos de raiz, acumulou milhares de quilômetros em viagens nacionais, em diferentes períodos da vida, visitando fazendas e engenhos, no Sul, no Nordeste, no interior de São Paulo. Conheceu as canções dos vaqueiros e as músicas do sertão, empanturrou-se do nosso folclore rural. Queria assimilar todo o cardápio musical verde-amarelo. Que mais tarde iria nos servir de bandeja com “Trenzinho Caipira”, “Os Cantos Sertanejos”, “Uirapuru”, “Amazonas” e outras peças.

Na juventude, a experiência veio das pequenas orquestras em que tocou, das exibições como concertista. A partir de 1915, Heitor inicia um ciclo de apresentações no Rio com obras autorais. As inovações que ecoam – a combinação inusitada de instrumentos regionais e as imitações de cantos de pássaros, por exemplo – são duramente criticadas. Por essa época, começa a tocar piano e violoncelo na Colombo. E a pegar gosto pelos quitutes locais, com os toques sutilmente refinados da cozinha francesa.

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ANTROPOFAGIA MUSICAL
Comia frango assado à brasileira, costeletas de cordeiro grelhadas, filé à Chateaubriand. Doce de leite e compotas de frutas, torta de chocolate com chantilly. Apreciava a boa comida e bebida, mas não tinha frescura: chegou a frequentar o Bob’s em Copacabana, na década de 1950, ao lado de Tim Maia. Porém, empunhando o garfo como batuta, tinha mais prazer ao executar o escalopinho de filé à la Bouquetière, preparado com nobre corte da carne bovina, molho de champignon, bouquet de legumes e arroz com aspargos. Onde mais, senão na famosa Confeitaria Colombo?

Devidamente alimentado, Villa-Lobos encarou a Semana de 22 como único compositor. A proposta coincidia com suas ideias. E fez bem, pois o evento projetou-o no exterior como criador original pela fusão dos ritmos populares com a música erudita. Graças ao apoio do pianista polonês Arthur Rubinstein e do mecenas Carlos Guinle, Tuhu partiu para a Europa, deixando em banho-maria sua vivência de música nativa. Assimilou a linguagem impressionista francesa, Puccini e Wagner, somando-os à sua admiração pelo barroco sonoro de Johann Sebastian Bach.

Suas viagens ficaram célebres, e mexeram até com o imaginário francês. A mais famosa, no entanto, não existiu. Apareceu em um jornal francês, narrando as peripécias dele na Amazônia, entre canoas e canibais. A pérola foi notícia equivocada de Lucie Delarue-Mardrus, que confundiu Villa-Lobos com o aventureiro alemão Hans Staden. O compositor levou com bom humor. Indagado se ele e o Brasil ainda cultivavam a antropofagia, respondeu que sim, preferindo especialmente as criancinhas francesas mais tenras.

No auge da criatividade e maturidade, Villa-Lobos compôs as nove “Bachianas Brasileiras”, entre 1930 e 1945, seu legado definitivo. Uma versão brasileira genial dos Concertos de Brandemburgo de Bach, com procedimentos melódicos e harmônicos da nossa música popular instrumental. Como maestro, regeu pelo mundo; professor, foi Secretário de Educação e promoveu apresentações de canto em estádios de futebol lotados; autor de mil obras, hoje ouvidas em prestigiados teatros europeus e americanos; e, ao contrário de tantos colegas de profissão, Tuhu alcançou reconhecimento internacional ainda vivo, felizmente.

Tuhu, ou “labareda”, no tupi-guarani. Tio-avô de Dado Villa-Lobos, da banda Legião Urbana.

Filé-mignon com bouquetière de legumes e purê de ervilhas
Receita do chef Juan Rojas, do Hotel Intercontinental

INGREDIENTES
• 400g de filé-mignon
• 400g de ervilha
• 150g de manteiga
• 70g de blueberry
• 50g de açúcar
• 200ml de vinho tinto Carménère
• 100ml de vinho branco
• 2 miniberinjelas
• 2 minicenouras
• 2 mininabos
• Uma chalota
• Sal, azeite, ervas, farofa de biscoito de chocolate triturado e pimenta a gosto

PREPARO
Porcione o filé-mignon em pedaços de 100g cada um, tempere com sal e pimenta e sele em uma panela, com um fio de azeite, até que fique dourado. Leve ao forno a 150ºC, por 5 minutos.
Lave os minilegumes e a chalota, e não descasque. Cozinhe-os em uma caçarola com água fervente.
Em outra panela, cozinhe a ervilha em água fervente.
Salteie os legumes cozidos em uma panela com a manteiga derretida e coloque um pouco de sal e ervas.
À parte, faça um purê com as ervilhas cozidas.
Em outra panela, coloque o vinho Carménère, o vinho branco, o açúcar e o blueberry. Deixe reduzir no fogo baixo até que fique consistente.

MONTAGEM
Disponha o filé-mignon em um prato, e sobre ele um pouco do purê de ervilhas. Finalize com os legumes salteados, o molho e a farofa.

Texto: Fábio Angelini

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