Carlos Gardel, nascido para o mundo

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Que o maior intérprete de tango da história não nasceu argentino, é consenso. Porém, uruguaios e portenhos ainda disputam a nacionalidade de Carlos Gardel como se fosse uma final de copa do mundo, ou o último espeto de churrasco sobre a Terra. Talvez não seja exagero. Aclamado por multidões, sua morte causou comoção geral, muitas lágrimas e até suicídios, pelos relatos da época.

Os uruguaios afirmam que Gardel é natural de Tucuarembó, filho de um líder político. Os argentinos têm certeza de que ele era francês de Toulouse, assim como a sua mãe Berthe Gardés. Carlitos evitava o assunto, e quando indagado, respondia: “Nasci em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade.”. Mas que o tango mais famoso e tocado pertence a um uruguaio, pertence: “La Cumparsita”, de Gerardo Matos Rodríguez.

O menino chegou assim pequeno à capital argentina, e fez do país adotivo sua pátria, cujo amor declarou em uma miríade de tangos – entre eles, “Mi Buenos Aires Querido”. Composição que, por sinal, é de Alfredo Le Pera, paulistano do Bixiga e talvez o artista mais importante na trajetória musical de Gardel. Concebeu também “Adiós Muchachos” e “El Día Que Me Quieras”, entre outros. Temas apresentados por uma voz bela e sensual, de impostação natural e timbre sentimental, que popularizou internacionalmente o tango com 30 canções antológicas, 3 mil gravações e 20 filmes.

Gardel cresceu no bairro do Abasto, onde brincou, foi ajudante de quitanda e começou a soltar o gogó em esquinas, festas e bares locais, rendendo-lhe o título de “El Morocho del Abasto” (O Moreno do Abasto). No pedaço, encontram-se o Museu Casa Carlos Gardel, a estação de metrô Carlos Gardel e a esquina Carlos Gardel, onde funcionava o restaurante El Chanta Cuatro. Ali, ele e os amigos viravam noites bebendo, cantando e jogando bocha.

COMIA COMO UM REI DO TANGO
O cantor passou a atuar profissionalmente por volta de 1911. Fumava, comia e bebia sem papas na língua, preferencialmente champagne, apesar da sua constante briga com a balança: chegou a pesar 118 quilos. Boêmio e mulherengo, viajou à América Latina, Europa e os EUA, sempre retornando à sua querida Buenos Aires, às corridas no Hipódromo de Palermo, aos prazeres da vida e da mesa. E não foram poucos.

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Apreciava mariscos ao vinagrete, lagosta grelhada, pato prensado ao molho de laranja, vol-au-vent de champignons e a fartura italiana, em especial ravioli recheado com carne de vitelo ou de ricota, risoto de funghi e açafrão, e o spaghetti com salsa di pomodoro preparado por Dona Asunta, a mãe do então imberbe Astor Piazzolla. No El Conte, casa mais luxuosa da cidade, pedia faisão ao Calvados. No cotidiano, recorria às boas receitas argentinas, e não pensava duas vezes para pedir o clássico puchero criollo, seu velho de guerra.

Tradicional prato rioplatense, este cozido dos pampas foi a primeira comida típica do Uruguai. Adaptado do original espanhol, o puchero argentino leva mais carne
e menos grão-de-bico. Essencialmente, é um guisado que mistura vitela, ossobuco, tutano, rabada, frango, linguiça, bacon e morcilla com vegetais em abundância.

Próprio para os dias frios, tem algo de feijoada e cassoulet. Pura substância. A particularidade é que as carnes e os legumes vão ao fogo separadamente, respeitando seus devidos tempos de cozimento. Depois, tudo é servido com macarrão ou arroz, mais a salsa criolla.

Com tantos ingredientes, só mesmo um panelão, e é isso que significa “puchero”: caldeirão. Que fazia um dueto afinadíssimo com o garfo eclético de Carlos Gardel.

RECEITA DE PUCHERO CRIOLLO

INGREDIENTES
Sal a gosto
50g de ossobuco
500g de músculo
300g de bacon
500g de rabo de boi
300g de frango
6 linguiças
5 morcillas
3 cenouras
3 espigas de milho-verde
3 batatas-doces
½ abóbora
3 batatas
100g de aipo
100g de grão-de-bico
100g de feijão branco
½ repolho branco
1 alho-poró
½ nabo
150g de macarrão cabelo de anjo

PREPARO
Encha com dois terços de água uma grande panela, adicione sal e leve ao fogo, até que a água ferva. Adicione as carnes e cozinhe por 40 minutos. Retire as carnes e reserve o líquido da cocção.

Em outra panela com água fervendo, cozinhe o bacon, a linguiça e a morcilla, por apenas alguns minutos. Então escorra e reserve.

Limpe e cozinhe as verduras e os legumes: cenouras, batatas-doces, milho-verde, abóbora, batatas, repolho e alho-poró, até que fiquem no ponto (cerca de 15 minutos). Por último, adicione aipo e nabo previamente cozidos por 20 minutos. Atenção para não deixar que os vegetais fiquem moles a ponto de se desfazerem.

Uma vez cozidas as verduras, volte a adicionar à panela as carnes, o bacon, a linguiça e a morcilla, aqueça e sirva.

Dica: você pode aproveitar o caldo e servir com o macarrão cabelo de anjo, antes do puchero.

Texto: Fábio Angelini

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