Lamarck está na cozinha

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A maioria de nós deve se lembrar de Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829). Lá na escola aprendemos que ele foi o primeiro cientista da história a propor uma “teoria da evolução”.

A chamada Lei de Lamarck postulava que, tanto em seres humanos quanto nos reinos animal e vegetal, os membros ou partes do corpo não utilizados teriam a tendência a se atrofiar e, por vezes, até cair. Também chamada de Lei do Uso e Desuso, esta se complementava com a Lei das Características Adquiridas, segundo a qual as mudanças ocorridas pelo uso e desuso seriam transmitidas às gerações seguintes.

Um dos exemplos da teoria seria o das girafas, que originalmente teriam pescoço curto, e este teria crescido devido ao esforço feito para alcançarem as copas das árvores para se alimentar. Felizmente para a humanidade, Lamarck estava errado. Imaginem, por exemplo, a quantidade de bebês que já nasceriam musculosos, apenas por serem filhos de fisiculturistas. Além disso, o livre arbítrio e o direito de escolha estariam definitivamente extintos.

Por outro lado, Lamarck talvez tivesse se dado melhor focando seus objetos de estudo nos hábitos e utensílios utilizados pelo ser humano. Ah, o homem… Esta criatura inquieta, que nunca dá por concluída a sua busca pelo novo, está, há milênios, aperfeiçoando-se em absolutamente tudo. Nos dias atuais, com rapidez incrível, diga-se. Vejamos o exemplo dos smartphones. Aquele top de linha com a maçãzinha que você comprou no mês passado (e pagou uma nota preta) já tem um sucessor (que custa uma nota mais preta ainda).

O mesmo se dá na cozinha, onde muita coisa tornou-se obsoleta e, quando muito, faz parte de um carinhoso imaginário popular. Tanto que às vezes a gente nem tem coragem de tirar de lá. Não usa, é verdade, mas parece que só o pensamento de tirar de lá, já soa como sacrilégio. Vamos a alguns deles?

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LIVRO DE RECEITAS
O livrinho de receitas da vovó, com anotações em caneta Bic vermelha, verde e azul, com recortes de imagens dos pratos que ela tirava das revistas, está, se não aposentado, aposentando-se. Se a Internet mudou tudo na vida, como poderia a cozinha escapar dela? As receitas estão no tablet, no smartphone, com tudo à mão. Além de aplicativos especializados em receitas, hoje já existe até geladeira com receitas pré-programadas na memória. É isso mesmo: geladeira com me-mó-ri-a. Sem esquecer da vovó.

CAFETEIRA E COADOR DE CAFÉ
Só não foram definitivamente relegados à memorabilia porque ainda existe muita gente que ama café passado no coador. A gourmetização do café, com as máquinas caseiras de espresso e suas charmosas cápsulas coloridas poderiam ter colocado tudo a perder

APARELHO DE CHÁ
Aquele chazinho cheio de pompa e circunstância de antigamente meio que está se perdendo com a modernidade. Com a falta de tempo dos dias de hoje, quase ninguém mais toma “aquele” chá da tarde. E quando o faz, encurta o ritual: água aquecida no micro-ondas direto na caneca + saquinho de chá. O chazinho coletivo entre senhoras já não é mais tão frequente, como na Inglaterra. Por aqui, ao menos, ou elas estão trabalhando ou estão desbravando a Internet, para ficar moderninhas como as senhoras daquela propaganda de banco. O conjunto de chá? Virou decoração na cristaleira. Junto com outros copos e coleções que jamais vão à mesa.

BALANÇA MECÂNICA
Décadas atrás, além de serem usadas para pesar os alimentos e temperos, também funcionavam como objetos de decoração, pois não cabiam nos armários. Com as balanças mais compactas e digitais, as mecânicas ficaram apenas com a segunda função, pois continuam não cabendo nos armários. Nem com reza brava.

ESCORREDOR DE ARROZ
Lavar ou não lavar o arroz é quase uma questão shakespeariana, uma vez que há correntes pró e contra, por conta da perda de amido. De qualquer forma, com o tempo e as controvérsias, o escorredor ou lavador de arroz acabou perdendo espaço na cozinha.

SANDUICHEIRA DE FOGÃO
O conhecidíssimo Tostex foi publicado em nossas páginas como objeto de desejo, principalmente para quem curte uma cozinha mais retrô. Quase não se usa mais, por conta das sanduicheiras e grills modernos com seus nomes modernos. Mas ainda tem sua legião de fãs. Todos alegam que o sabor torradinho do misto-quente feito no Tostex é inimitável.

LEITEIRA DE PLÁSTICO
Extremamente útil quando o leite vinha em sacos plásticos, acabou encostada – quando não exilada – nas cozinhas pelo leite vendido em caixinhas.

GARRAFAS DE ÁGUA DE VIDRO
Não falamos aqui das garrafas d’água de marca que eram vendidas no supermercado, mas sim daquelas garrafas em vidro trabalhado, do tempo em que se costumava armazenar água da torneira (naquela época ninguém tinha medo disso) e colocar na geladeira.

ACENDEDOR DE FOGÃO ELÉTRICO
Lembra do Magiclick? Este é mais um clássico. Foi eliminado das cozinhas quando o próprio acendimento das bocas do fogão tornou-se elétrico. Difícil hoje é entender por que raios o modelo mais vendido era aquele em formato de revólver.

GALINHA DE FERRO PARA GUARDAR OVOS
Além de funcionar como enfeite, acondicionava direitinho os ovos. Provavelmente foi desaparecendo por conta das formas específicas que acompanham as geladeiras e pela briga entre refrigeração e temperatura ambiente, que até hoje gera controvérsias. Um alento é que, com a onda retrô, já é possível encontrar a galinha de ferro em algumas lojas.

APETRECHOS DE MADEIRA, COMO COLHER DE PAU, ROLO DE MACARRÃO E TÁBUA DE CARNE

Vêm sendo trocados nas cozinhas modernas por versões em plástico, por conta de problemas “higiênicos” – as fibras da madeira retêm resíduos. Muita gente ainda protesta contra a exclusão destes símbolos da cozinha. Até porque a madeira é higienizável. É possível fervê-la e até aquecer ao sol. Sem falar que o plástico também cria sulcos, pode reter resíduos da mesma forma e pode soltar lascas.

Além destes, existem muitos outros, e provavelmente alguns que não lembramos ou sequer conhecemos. Em comum, todos são vítimas de um tempo que hoje passa rápido demais e relega boas coisas ao passado muitas vezes antes mesmo de fazerem parte do presente. Mas o tempo em que as cozinhas eram sinônimo de aconchego e família reunida ainda vivem. Se não na memória, ao menos nos almoços de domingo. Quanto aos objetos que revivem estas memórias, podem estar até abandonados ou encostados num canto qualquer. Esquecidos? Assim como Lamarck, jamais serão.

Texto: Paulo Samá

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