Oxítonas selváticas

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Na conta dos estudiosos idiomáticos, cerca de 80% das palavras que nomeiam plantas e bichos brasileiros vêm do tupinambá, um dos grandes troncos linguísticos nativos. Ele engloba mais famílias de línguas indígenas: arikém, jurúna, mondé, mundukurú, tuparí, ramaráma, arikém, awetí, mawé e tupi-guarani, a mais representativa.

As palavras aqui nascidas misturaram-se à estrutura gramatical portuguesa, originando a Língua Geral do Brasil (subdividida em duas, a Amazônica e a Paulista). Foi a mais falada até o Século XVIII, quando o Marquês de Pombal decretou como idioma oficial o português, e proibiu o uso das línguas gerais. No entanto, pencas de expressões já estavam absorvidas pelo vocabulário corrente. Em sua maioria, paroxítonas. Mas quando a questão é fruta, as oxítonas disputam árvore a árvore.

Muitas delas são mais ou menos conhecidas. Cupuaçu, cajá, abricó, guaraná. A inflexão tônica na última sílaba as define como palavras agudas. São graficamente acentuadas todas que terminam em a, as, e, es, o, os, em, ens. Por que cargas d´água açaí leva acento? Porque há uma “regra de acentuação alternativa”, que manda acentuar as oxítonas terminadas em i ou em u, se a última letra da palavra estiver precedida de vogal adicional, formando com ela um hiato.

Hiato, aliás, que separou as “frutoxítonas” que ganharam o mundo – abacaxi, caju, maracujá – de outras igualmente oxítonas, genuínas e indígenas, porém, ocultas nos meandros das florestas, dicionários e regionalismos. Caso da caraguatá, do ingá, jerivá, araçá. Preteridos e relegados ao esquecimento por causa da abundância de espécies carnudas, fáceis e colhidas no pé, gostosas à primeira mordida e que não requerem nenhum preparo. E não engrolam a língua.

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Falem bem ou falem mal, mas falem de mim
O acridoce gravatá, tesouro na época do descobrimento, foi rebaixado a cerca-viva ou remédio contra tosse. Tudo bem que pinica um pouco na boca, mesmo maduro, e deve ser descartado como um tolete de cana, após umas mastigadas. Mas ninguém se deu ao trabalho de melhorar seu cultivo, tornando-o mais palatável. Desceu então para as notas de rodapé, embora resista como tempero de carnes, ou faça geleias, sorvetes, caldas e refrescos. Sem falar dos seus aparentados, sobreviventes na obscuridade dos inexplorados: croatá, caruatá, caravatá, carauá, coroatá.

Temos duzentas frutas silvestres nacionais identificadas pelo IBGE, e deve haver outro tanto à nossa espera. Todo dia, ouvimos algo diferente. Bacuri, cambucá, tucumã. Guimarães Rosa, gênio em decodificar a linguagem popular, decifrou o refrescante sabor da cabacinha-do-campo (pera do campo) e o seu valor afrodisíaco. Essa não era oxítona. Há um coquinho de comer que é: o butiá, do tupi “m’butiá”, encontrado nos pampas, nos cerrados e na Mata Atlântica. Rende geleia, licor, cachaça e vinagre. E batizou municípios gaúchos.

A sina das frutas anônimas ou duras, farinhentas, fiapentas, cáusticas, grudentas – complicadas de comer – persegue o jaracatiá, apelidado de mamão bravo por causa do leite ácido que encerra (papaína). Uns dizem que nem as aves se atrevem a bicar; alguns, que basta riscar sua casca para purgar a seiva e deixar um pouco na água. Deve ser verdade: o doce de jaracatiá foi reconhecido como patrimônio culinário de São Paulo, em 2013.

O inajá, palmeira própria do Pará, fornece um fruto de polpa suculenta e palmito comestível. Intitulado ainda najá, anajá, aritá, maripá e anaiá. Infortunadamente, seu caule é por vezes refúgio de hospedeiros do Trypanosoma cruzi, transmissor da Doença de Chagas. A fruta é mais empregada nas indústrias farmacêutica e cosmética. A Amazônia também é lar do pequiá, óleo apreciado na culinária. Não confundir com o pequi, símbolo da cultura goiana e assíduo nas casas mineiras.

Babaçu, indaiá, sapoti, buriti, puçá, umbu, pajurá, cambuci, jatobá, cacauí, cajuí… A variedade de oxítonas cai das árvores feito fruta madura, parece tão inesgotável quanto as armadilhas que a língua portuguesa prepara com requintes. Tem gente que estranha o sinal no “cáqui”, a cor marrom mais clara, geralmente estampada em tecidos e roupas. É paroxítona terminada em “i”; portanto, leva acento. Ponto. Por outro lado, a fruta “caqui” o dispensa: seu “i” é tônico por natureza.

Texto: Fábio Angelini

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