Fiódor Dostoiévski, caldeirão de sentimentos

0

“A comida que nos davam era pão e sopa de repolho com uns 100 gramas de carne, mas a carne era picada e eu nunca vi nenhum pedaço. Nos dias de festa, um mingau aguado quase sem gordura. Nos dias de jejum, repolho fervido e mais nada. Eu sofria terríveis ataques de indigestão e estive doente várias vezes.”

Por fazer parte de um grupo socialista revolucionário (e por causa da crítica social em “Gente Pobre”, seu romance de estreia), Fiódor Mikhailovich Dostoiévski foi preso em 1849 e condenado ao paredão. Em cima da hora, teve sua pena comutada para 4 anos de trabalhos na Sibéria e 6 anos de exílio como soldado. Depois, livre e com seus ideais políticos, éticos e religiosos revisados, retornou a São Petersburgo com 38 anos, mas não tão bem alimentado (conforme expressou no comentário acima). Sua vida melhoraria dali em diante?

Não as crises epiléticas: elas, que tiveram início na infância com o assassinato do pai, inclusive se acentuaram. Agora, vamos colocar no liquidificador a juventude traumática, os padecimentos do cárcere e da doença, a Rússia Czarista autoritária, a sociedade atrasada e desigual. E teremos a verve existencialista do seu estilo único e visceral, contemplando temas de profundidade psicológica, conflitos morais, tensões que provocam estados patológicos, tendências ao suicídio e homicídio, autodestruição e humilhação. Uma mistura densa, eruptiva e criativa de personalidade humana.

Da detenção de Dostoiévski, nasceu “Recordações da Casa dos Mortos”; do seu vício na roleta, “O Jogador”; dos pensamentos de culpa e pecado, “Crime e Castigo”; da injustiça e crueldade do mundo, “Os Irmãos Karamazov”. Dostoiévski fez da dor e dos instintos um meio de redenção e expurgo, o que, segundo Freud, também era a causa psíquica, e não orgânica, da epilepsia que desenvolveu.

A VIDA NÃO FOI SOPA. A MESA SIM
Ao longo dos anos, outros ingredientes marcantes esquentaram o caldeirão emocional e filosófico do grande escritor: a perda de dois filhos, os prazos de entregas dos livros, as dívidas constantes, as severas críticas literárias.

sociedade-da-mesa

Em São Petersburgo, Dostoiévski chegou a morar em mais de 20 endereços, fugido de cobradores. Dificuldades indigestas até para aqueles com estômago de aço. Aparentemente, ele tinha. Mais que isso, tinha um menu diferente para cada estado de espírito: melancólico, pedia caldos, escalope de vitela, chá e vinho; de bom humor, atacava queijos, nozes, laranjas, caviar e mostarda francesa. E comia nacos de pão com sal, como manda a tradição russa, independentemente da vibe.

Rituais estranhos mostram seu caráter original. Costumava beber um copo de leite quente após comer frango, batizar o café da manhã com um cálice de vodca, e beber meia dose de conhaque antes das sobremesas. Bebia chá-preto em grandes quantidades, às vezes champagne; apreciava peras, passas, tâmaras e maria-mole; e era apaixonado por docinhos, que guardava nas estantes de livros para consumo próprio. Apesar da trajetória sofrida e das esquisitices à mesa, era marido e pai atencioso, dormia tarde, fazia longas caminhadas e dançava muito bem a mazurca.

Dostoiévski e a mulher Anna Grigorievna moravam em São Petersburgo, onde ele frequentava a confeitaria Ballet e o Grande Café Literaturnaya. Quando em Moscou, sua cidade natal, preferia arenque à moscovita, empadas e pão de forno. Na estimada Dresden, a trabalho, saboreava diariamente uma “blauss aal” (enguia azul). Mas quase sempre, ali na gélida terra pátria dos bolcheviques, dava passagem para a espessa e picante solyanka, sopa à base de carnes (ou peixes), com repolho e creme de leite azedo (smetana), pepinos, cogumelos, azeitonas, alcaparras, tomate e limão, além de outros temperos.

A solyanka nasceu nos vilarejos, impulsionada pelo clima severo e pela disponibilidade de insumos. Prato barato e nutritivo, com uma infinidade de variações, logo caiu nas graças dos estudantes e do povo, que nem conseguem imaginar sua refeição sem uma querida sopa (que pode ser igualmente a borshch, de beterraba, ou a okroshka, de verão). A saborosa e rica solyanka, no entanto, jamais falta, porque é também a melhor receita russa para tratar ressaca.

RECEITA DE SOLYANKA

INGREDIENTES
300g de coxão mole picado
200g de carne-seca picada
2 linguiças defumadas finas (cortadas meio
na diagonal para diferenciar da salsicha)
3 salsichas de salsicharia fatiadas
4 colheres de sopa de alcaparras
200g de creme azedo
6 picles picados
2 cebolas
1 cenoura ralada em pedaços grandes
2 folhas de louro
Cominho
1 fatia de laranja
1 tomate picado
1/2 pacote de extrato de tomate
Obs.: pode-se acrescentar outras carnes, como paio, costelinha etc…

PREPARO
Coloque a carne com o cominho e as folhas de louro na panela de pressão, e cubra com 3 a 4 dedos de água. Deixe cozinhar na pressão por 5 minutos. Ferva a carne-seca algumas vezes para tirar o sal. Ferva 2 vezes a salsicha. Em uma panela, coloque a cebola para dourar, junte a cenoura, o picles, o tomate e o molho de tomate e deixe cozinhar bem. Abra a panela de pressão e adicione todas as carnes e a alcaparra, e deixe por mais 5 minutos na pressão.
Junte o preparado das cebolas, cenoura, picles e tomate em uma panela, mais todas as carnes. Corrija o sal, se necessário. No prato, sirva com a laranja e o sour cream (creme azedo). E para ficar ainda melhor, coloque 4 colheres de sopa de vodka, misturando no prato.

Texto: Fábio Angelini

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!

 

Deixe um comentário