Qual é seu “ismo”?

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Por que a gente come? Sim, a pergunta é óbvia. Comemos por necessidade, certo? “Claro”, todos dirão. Se a gente pudesse voltar lá atrás e ver, in loco, o que conhecemos dos livros, veríamos que, antes mesmo de se colocar ereto, o homem já aprendera a identificar o que era aquele “ronco” da barriga vazia. Ele comia o que a natureza ofertava. E não era pouco: animais, frutas, folhas, plantas, raízes e até gramíneas faziam parte do menu. E mesmo com tanta abundância, podia mais o mais forte e mais hábil, que acabava ficando com o “filé”, por assim dizer. Os outros contentavam-se com o que sobrava.

Milênios passaram, o homem ficou civilizado, constituiu família, aprendeu a viver em sociedade. A comida, porém, continuou sendo “só necessidade”. Os restaurantes de então tinham o conceito que a própria palavra dava a entender: um local para “restaurar” as energias. E apesar de toda a evolução do homem, continuou valendo a máxima do “chora menos quem pode mais”. Um novo elemento, não mais a força bruta, mas com o mesmo significado de poder, foi introduzido na trama: o dinheiro.

Séculos depois, a necessidade acomodou junto de si a gastronomia. Comer virou também prazer. A convivência, a confraternização e até os negócios sentaram-se à mesa. Chefs viraram verdadeiras grifes, surgiram programas de gastronomia na TV. Hoje, alguns restaurantes são mais do que lugares para matar a fome. Tornaram-se locais onde muita gente vai pra ver e ser vista.

Paralelamente, surgiram as mais diversas correntes alimentares. Algumas, milenares, foram redescobertas em prol da vida saudável. Hoje, muitas bradam que são as melhores por isso ou aquilo. Mas a relação abundância-poder-dinheiro-comida não mudou. Que o diga quem não tem o que comer, ou já atravessou um período de guerra, ou de escassez de alimento. Para essas pessoas, saúde e alimento têm o mesmo significado: ter algo para colocar na boca e aplacar a fome, seja lá o que for.

Nesta coluna já abordamos comidas exóticas. E vale uma reflexão: quantas “iguarias” hoje em dia cultuadas até por turistas mais curiosos (e corajosos) não têm origem na escassez e na necessidade? Há pouco tempo, um programa de TV abordou as diferenças entre as duas Coreias, incluindo a gastronomia.

Comentou-se o polêmico assunto dos cachorros, ainda servidos em alguns restaurantes locais: o consumo dos peludos iniciou-se pela necessidade em tempos de miséria. Com a melhoria da economia, virou iguaria, e hoje, com a consciência ambiental e as correntes de proteção aos animais, vem diminuindo a olhos vistos.

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Portanto, ao falar em correntes alimentares, falamos, sim, em sobrevivência e saúde, mas para quem pode se dar ao luxo de seguir as ideias, regimes e tendências que surgem a cada dia. E também não há como negar a influência daquela pessoa que vemos no espelho todos os dias. E que, também de forma inegável, muitas vezes está mais preocupada com a estética exigida pela ditadura-da-barriga-de-tanquinho, do que com a saúde em si. Como vemos, são muitos lados para uma mesma questão, não é mesmo?

A ALIMENTAÇÃO E OS “ISMOS”
Para o Ministério da Saúde brasileiro, alimentação saudável é aquela que inclui todas as necessidades biológicas e sociais da população: sabor, variedade, cor e segurança microbiológica. A partir daí, entram as questões de cultura alimentar, regionalidades e até mesmo questões afetivas relacionadas às práticas alimentares.

Embora alguns hábitos regionais sejam diferentes (indígenas, por exemplo), isso não significa que sua alimentação não seja segura ou saudável. Veremos aqui algumas das mais conhecidas, incluindo as que, por mais estranhas que pareçam, de esquisito não têm nada para quem as pratica.

– Vegetarianismo: com adeptos no mundo todo, além da preocupação com a saúde, engloba outros motivos para suas preferências: aspectos culturais, religiosos, filosóficos e éticos relativos à exploração animal e à produção de carne.

De modo geral, consomem frutas, legumes, cereais, produtos lácteos, folhas, hortaliças e ovos, excluindo a carne. Porém, há subdivisões.

Ovolactovegetarianos: carne não entra. Nenhuma. Ponto. Inclui ovos, leite e derivados.

– Lactovegetarianos ou vegetalianos: além da carne, saem for a os ovos. Dizem sim ao leite e seus derivados.

– Ovovegetarianos: volta o ovo. Não exclui leite e derivados.

– Veganos: fogem de todo e qual quer alimento de origem animal, incluindo leite e derivados, ovos, mel etc.

– Naturalismo: alimentos integrais e sem agentes químicos. Industrializado é igual menina no Clube do Bolinha: não entra.

– Naturismo: consome-se hortaliças e frutas na forma mais natural possível, sem cozimento nem sal.

– Carnivorismo: um “ismo” mais primitivo, baseado no abate do animal e no consumo da carne ainda quente.

– Carniceirismo: aves como urubus são grandes adeptas. Consiste no consumo da carne já em estado de putrefação.

– Canibalismo: conta-se que apenas uma tribo no mundo ainda seja antropófaga, os Korowais, de Papua-Nova Guiné, que apresentam outra curiosidade: constroem suas casas a 35 metros de altura, na copa das árvores. Já o ritual antropofágico só ocorre quando algum doente à beira do fim acusa alguém da tribo por ter lhe transmitido a doença ou por estar possuído pelo “coisa ruim”.

– Alimentação na Medicina Tradicional Chinesa (MTC): o equilíbrio entre yin e yang divide os alimentos entre frios, frescos, neutros, mornos ou quentes. Consome-se de todos os grupos – carboidratos, proteínas, vitaminas e gorduras, com todos os sabores (amargo, azedo, doce, picante), mas em quantidades aceitáveis, sem exageros. Evitam-se doces e leite em excesso, frituras e gorduras, bebidas alcóolicas e refrigerantes.

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– Alimentação Macrobiótica: criada no Japão no fim do Século XIX, também se baseia no yin e yang. É cerealista e evita alimentos crus, frutas, açúcar, excesso de líquidos, leite e carnes. Consome-se algas, cereais integrais (principalmente arroz), folhas, raízes, legumes cozidos e chás. Eventualmente abre exceção e encara um frango, ou um peixe sem escamas. Restringe água e líquidos.

– Frugivorismo: alimentação inteiramente baseada em frutas.

– Alimentação Ayurvédica: foi criada há mais de 5 mil anos na Índia e já conquistou famosas como Cate Blanchett e Gwyneth Palthrow. Come-se 50% das calorias no almoço (para os indianos a refeição mais importante do dia). No jantar, o mínimo possível de calorias, se possível antes das 19h. Sucos naturais, frutas, legumes e verduras orgânicos, chás de ervas, cereais e bastante água são bem-vindos. Alimentos industrializados e enlatados, carnes vermelhas, bebidas alcóolicas e queijos fortes, nem pensar. Para melhores resultados, recomenda-se conciliar os seis sabores alimentares: amargo, ácido, doce, salgado, adstringente e picante.

– Alimentação Viva ou Cozinha Crudívora: ligada à vitalidade do que se come. Seus adeptos excluem o que não tem vida (ou teve um dia e não tem mais): tudo que é de origem animal, alimentos cozidos e industrializados. Comem exclusivamente frutas e vegetais crus, sementes germinadas e brotos.

– Alimentação Antroposófica: baseada na filosofia espiritualista criada por Rudolf Steiner (Alemanha), no começo do século passado. Entende o homem com quatro divisões: corpo físico, vitalidade, alma e espírito. A dieta prega alimentos de origem integral, vegetais, e a prática lactovegetariana que vimos há pouco. Curiosamente, se quiser comer carne, pode.

– Fast Food: tem um número tão grande de adeptos quanto de críticos, por conta da priorização da rapidez e quantidade, em detrimento da qualidade de alimentação.

– Slow Food: seu símbolo é um caracol, prega a boa escolha dos alimentos e qualidade das preparações. Privilegia a satisfação, o gosto e o cultivo ecologicamente correto dos alimentos. Seus adeptos preferem produtos orgânicos e alimentos integrais. A filosofia inclui ainda a preservação do prazer à mesa e de um ritmo mais tranquilo para a vida do homem.

– Comfort Food: com mais característica de movimento que de corrente alimentar, busca trazer emoções e memórias à tona através do paladar. Preconiza que pratos simples, como arroz com feijão ou macarronada, por exemplo, podem trazer recordações de almoços em família e outras (boas) lembranças. Resumindo: a essência e a sensação da comida da vovó.

– Onivorismo: se você é adepto do vale tudo na mesa, bem-vindo a esta corrente. Carnes, vegetais, massas, adoçantes, corantes artificiais… o onivorismo não exclui nada.

O LADO BOM, O NÃO TÃO BOM E O RUIM
Se estas correntes têm benefícios? Provavelmente todas (ou quase) os têm. Desvantagens? Talvez tenham. Pra quem pode escolher, é um prato cheio. Mas vale dizer que quem não tem escolha também vive, e em muitos casos também tem saúde pra dar e vender.

No próximo Almanaque, abordaremos alguns tipos de dieta, como a Low Carb, a Low Fat e também as tão faladas dietas da moda que proliferam por aí, às quais, segundo a nutricionista Miriam Frederici, que nos prestou consultoria para a elaboração deste artigo, é bom ficarmos atentos, principalmente àquelas que prometem milagres. Até lá, brinde à vida.

Texto: Paulo Samá

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