Isaac Newton, gravidade x gastronomia

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Uns poucos têm a habilidade de puxar com tudo a toalha da mesa, e manter os copos e pratos sobre ela, intactos, no mesmo lugar. Proeza possível graças aos tecidos mais lisos e menos atritantes. A Primeira Lei de Newton elucida: “Todo corpo permanece em seu estado de repouso ou de movimento retilíneo e uniforme, a menos que seja obrigado a mudar seu estado por forças a ele impressas”.

Isaac Newton, que chegou a trabalhar como garçom para custear seus estudos em Cambridge, e que decerto provou, como dedicado homem da ciência, mais mercúrio e chumbo do que qualquer outra iguaria em seus 85 anos, também descreveu as propriedades do líquido ideal, determinadas pela sua viscosidade. A água, por exemplo, fluiria naturalmente, mesmo sofrendo interferência de outras forças. O ketchup, por outro lado, é considerado um fluido não newtoniano, constituído de partículas bem mais aglutinadas. Mesmo de cabeça pra baixo, o molho recusa-se a sair da embalagem. É irritante. Ele é o oposto do modelo de Newton, não flui.

O próprio Newton, pai da física moderna, nunca seguiu o mesmo fluxo de seus colegas, jamais se contentando só com uma boa ideia; para ele, as hipóteses deveriam ser verificadas na prática e na matemática. Método conhecido como newtoniano, aquele que os pesquisadores e pensadores do mundo todo hoje usam no dia a dia. E tudo o que Isaac fazia era pensar. E tudo o que Isaac amava tinha a ver com exatas e filosofia. O solitário, reservado e meditativo gênio. Órfão de pai e indesejado pela mãe, moldado por uma infância infeliz, mergulhou de corpo e alma na ciência.

Nascido em 1642 – mesmo ano em que Galileu morreu –, Newton criou um telescópio de reflexão que deixou embasbacada a Royal Society britânica (que ele presidiria depois). Quase ficou cego promovendo experiências ópticas em si mesmo, mas valeu, pois ele descobriu que a cor branca era a soma das outras, e que o prisma poderia separá-las. Desenvolveu os cálculos diferencial e integral, o binômio de Newton, foi diretor da Casa da Moeda, e deu munição de sobra para impulsionar as primeiras máquinas da Revolução Industrial e o racionalismo iluminista.

O grande marco veio em 1687, ao apresentar o livro mais influente e essencial das ciências naturais, a base da mecânica clássica: “Principia”, ou “Princípios Matemáticos da Filosofia Natural”. Contendo não só as Três Leis do Movimento (inércia, dinâmica, ação e reação), como também a revolucionária Lei da Gravitação Universal. Vieram a fama e o dinheiro. Muito.

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O PÃO E O VINHO NEWTONIANOS
A queda da maçã da árvore e a descoberta da força da gravidade, lembra-se da história? Diz a lenda, disseram Voltaire e o biógrafo William Stukeley, que o fato ocorreu em 1665. Newton estava na casa de interior de sua mãe, fugido da peste que assombrava Londres. A fruta teria caído não em sua cabeça, mas entre ele e a Lua; o que o levaria a questionar se a força que puxava a maçã para baixo era a mesma que fazia a Lua girar em torno da Terra. Verdade ou não, a constatação só seria publicada duas décadas depois: todos os corpos do Universo, uma Lua ou uma maçã, obedecem à mesma força de atração.

E antes que alguém pense, torta de maçã não chegava a atrair Sir Isaac Newton. Tão absorto em suas pesquisas, às vezes se esquecia de dormir e comer. E nunca teve esposa para lembrá-lo. Quando se recordava, preferia as coisas fáceis de obter e consumir. Torta de frango, suco de laranja. Há uma discussão polêmica sobre seu suposto vegetarianismo. O que se sabe é que distúrbios digestivos levaram Newton a evitar carne só nos últimos anos de vida, cedendo mais espaço para legumes, sopas e consomês.

O que parece ter predominado durante longos períodos de sua existência laboratorial, foi uma alimentação quase que exclusiva de pão, vinho e água. Dá pra entender. Ele não queria perder tempo ou foco na produção intelectual, no que foi bem-sucedido: mostrou-se brilhante, avançada e sem paralelos para a época. Pão e vinho, corpo e espírito? Ora, na Inglaterra do século XVII, religião, ciência e matemática se confundiam. Coincidência ou não, Newton foi bastante religioso e obcecado por experiências místicas.

Uma delas, revelada há não muito tempo, descreve os passos do preparo de uma eventual substância mágica, capaz de converter metais em ouro. Uma receita de pedra filosofal, de fonte da juventude, by Newton. Que faleceu em 1727 e foi sepultado na Abadia de Westminster, talvez sem testar a fórmula da imortalidade. De um modo diferente, Isaac Newton conseguiu ser eterno.

PÃO DE VINHO
Rendimento:
duas baguetes pequenas, de 200g cada.

Ingredientes
170ml de vinho tinto seco
280g de farinha de trigo
1 envelope de fermento biológico
seco (10g)
1 colher (de café) de sal (5g)

Preparo
Em uma vasilha, misture os ingredientes secos, e depois vá colocando o vinho aos poucos, até obter um ponto onde a massa desgrude dos dedos. Sove a massa até ficar lisa e homogênea. Deixe a massa descansar em local fechado (por exemplo, dentro do micro-ondas) por 30 minutos. Divida a massa em duas partes, formando duas baguetes. Faça pequenos riscos no topo de cada baguete com uma faca afiada. Leve ao forno preaquecido a 180ºC, e deixe por cerca de 40 minutos.

Harmonização
O pão de vinho é uma excelente escolha para deixar uma mesa de frios e queijos ainda mais colorida e apetitosa. Mas por se tratar de um pão saboroso, pode ser aproveitado à mesa em qualquer refeição, para beliscar enquanto a comida não chega. O vinho pode ser um Tempranillo
da região de Rioja, jovem. Pensando em sua cor rubi e no seu caráter frutado. Mas a receita se adapta muito bem a vários outros tintos secos.

Dica: a parte externa deve ficar com textura dura, como de casca de pão italiano.

Texto: Fábio Angelini

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