Mais do que água

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A “Citrus aurantim”, nativa da Ásia Antiga, foi levada pela primeira vez à Europa pelos portugueses, saindo da China. Mas foram os árabes
da Idade Média os principais cicerones da laranja, que entrou pelo
Mediterrâneo e logo marcou presença nas cozinhas francesa e
espanhola. Só aportou nas Américas por volta de 1500, e na segunda
travessia de Colombo foram descobertas as propriedades
antiescorbúticas dos cítricos.

A laranja é uma fruta híbrida, originária do cruzamento entre a cimboa (pomelo) e a tangerina. Além do fruto propriamente dito, o ingrediente que incrementa a história de diversas receitas multinacionais, é a água de flor de laranjeira. Quase sempre que se pede por uma fragrância especial no preparo, pensamos na baunilha. Mas é uma ótima ideia ter por perto essa essência cheirosa, obtida da destilação das flores brancas da laranjeira, após secas. Essas flores, de tão delicadas, são colhidas manualmente e maceradas no mesmo dia, para manterem o frescor. Assim, torna-se um aditivo transformador, exótico e perfumado, utilizado em doces, salgados e bebidas.

O componente – um dos mais requisitados nas caldas e sobremesas libanesas – extrapolou as fronteiras das baklavas, das ataifs de natas e limonadas, para aromatizar macarons e madeleines na França, além do almíbar e “Roscón de Reyes” (pão de rosca, costumeiramente comido em 6 de
janeiro, Dia de Reis) da Espanha. A água de flor de laranjeira também entra em vários licores, como o Cointreau e o Grand Marnier. Nos últimos anos, cozinheiros famosos vêm encontrando novos usos para o ingrediente. O chef Alex Atala tem um ceviche de flores com vinagrete à flor de laranjeira.

DELICADO PODER
É possível lançar mão do condimento para temperar saladas e carnes: meia colher de chá de água de flor de laranjeira com um pouco de sal e pimenta, mais uma colher de sopa de suco de limão ou vinagre, e duas de azeite de oliva, rendem um excelente toque. É saboreado no típico “Pan de Muerto”, massa sazonal do Dia de Finados mexicano. Inegável é, porém, a simbiose do ingrediente com o mundo da confeitaria. Em sobremesas de damasco, pannacotas balsâmicas, bolos diversos, licores, sucos e frituras doces, como o sonho. Ou acompanhando as flores comestíveis que invadiram os pratos e drinks, há pouco tempo.

sociedade-da-mesa

Serve para avivar a água natural, diferenciar o café, aprontar um chá e personalizar quase todas as sobremesas árabes de leite e arroz. E também enriqueceu o arroz-doce senhorial, importado das festas do norte de Portugal para integrar as mesas mais favorecidas da colônia.
A colônia virou Brasil e na umbanda nacional, o banho com água de flor de laranjeira promove a limpeza, eleva as energias do amor e ajuda a encontrar a companhia ideal.

Na cultura árabe, o “azahar” (“flor branca”) e seu destilado são empregados há séculos, tanto na culinária quanto na perfumaria e medicina popular. Na prática, use sempre com economia, não excedendo a meia colher de chá: seus extratos são potentes para aromatizar. E segundo a fitoterapia, para tonificar peles oleosas e condicionar cabelos, acalmar nervos e dores de garganta, tratar distúrbios digestivos e reequilibrar os níveis de colesterol. Tem insônia?Experimente pingar gotículas da água no travesseiro.

As qualidades nutricionais do fruto são bem conhecidas, e até inspiraram uma ação de marketing
heroica em 2014: a Marvel recebeu um milhão de dólares para adicionar aos Vingadores o Capitão Citrus, cuja força vinha do suco de laranja. No entanto, os poderes da “Citrus aurantim” não tornaram invulnerável o inglês Bobby Leach, primeiro homem a descer as Cataratas do Niágara dentro de um barril e sobreviver, em 1911. Ele quebrou os dois joelhos e a mandíbula, mas recuperou-se e se tornou celebridade. Quinze anos depois, Leach escorregou em uma casca de laranja, fraturou a perna e teve complicações. Então, não resistiu.

Texto: Fábio Angelini

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