Tracinho indigesto, esse –

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A aplicação correta do hífen poderia ser ensinada e estudada como matéria individual no âmbito da gramática e do nosso idioma. São muitas regras, meandros e confusões. Só mesmo andando com um guia debaixo do braço ou no smartphone. Em dicionários de língua portuguesa, você vai encontrar “capim-santo”, “erva-doce”, “pau-pêssego”. Sabe quantos termos hifenizados e listados começam com “capim”, “erva” e “pau”? Mais de mil.

O hífen, que desempenha funções relacionadas a uma infinidade de circunstâncias linguísticas, é um sinal diacrítico mais frequentemente empregado para ligar elementos de palavras compostas comuns. Boca-livre, saca-rolha, cachorro-quente, papel-manteiga, banho-maria. Segundo a ortografia corrente, as palavras formadas por três ou mais partes perderam o sinal, como “café com leite”, “pão de mel” e “pé de moleque”.

No entanto, quando tais palavras nomeiam espécies vegetais ou animais, o hífen atua, como em “hortelã-crespa”, que é a hortelã nossa de cada dia; “camarão-de-sete-barbas”, crustáceo próprio do sul do Brasil e dos EUA; “xiquexique-do-cerrado”, herança do Cangaço que faz uma geleia porreta; e “lula-gigante”, iguaria valorizada na culinária escandinava e presente no restaurante paulistano Svanen.

Adjetivos pátrios derivados de topônimos compostos são entremeados de hifens. “Cruzeirense-do-sul”, “florentino-do-piauí”, “nova-iorquino”, “rio-grandense-do-norte”.

Cuidado, porém; o português sempre tem suas pegadinhas. A planta “grão-de-bico” é assim, a pasta feita com ele é “grão de bico”. Um móvel de superfície circular é denominado “mesa redonda”, enquanto que uma reunião, um encontro ou debate sobre assuntos de interesse comum, torna-se “mesa-redonda”. E pode acontecer numa mesa quadrada, em mesa alguma ou qualquer outro lugar. Um indivíduo estúpido será um “cabeça de burro”, e não um “cabeça-de-burro”, espécie de peixe.

sociedade-da-mesa

Outro papel do tracinho é integrar pronomes oblíquos átonos e formas verbais (algumas arcaicas, convenhamos): “cozinhá-lo”, “temperá-lo-ia”, “beba-me”, “servir-vos-eis”. Difícil de engolir, mas é o que a norma culta manda. O hífen junta, mas também separa. A palavra espremida no fim da linha, quando não há mais saída a não ser dividi-la em sílabas. “De-sos-sar”, “u-vai-a”, “ex-ces-so”.

Em sufixos de origem tupi-guarani, ele é igualmente obrigatório: “amoré-guaçu”, “cajá-mirim”.
Complica ainda mais quando chegamos aos prefixos que precedem as palavras. Uma salada completa.

O hífen entra após os prefixos “pré”, “pró” e “pós”. Como em “pós-almoço” ou “pré-reserva”. Então, por que “preaquecido” é assim? Porque se o prefixo terminar em vogal, e o segundo elemento começar com vogal diferente, não se usa o sinal. Outro exemplo? “Antiácido”. Tem mais: se este prefixo acaba em vogal e a próxima palavra se inicia com a mesma vogal, há hífen. Casos de “micro-ondas” e “semi-integral”.

Da mesma forma, entra hífen entre consoantes que se repetem (no fim do prefixo e no início do segundo elemento): “hiper-rural”, “super-requintado”. Diante de palavras encabeçadas pelo “h”, idem: “mega-hambúrguer”, “anti-higiênico”, “mini-horta”.

Mal se sabe o que é regra e o que é exceção. “Mal”, provérbio que também atrai o hífen quando o vocábulo da frente principia por vogal. A maminha pode ser “mal-assada”, porém, jamais “malpreparada”. Então, olho vivo nos textos e fogões.

Texto: Fábio Angelini

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