A moda é comer certo, comer bem ou não comer?

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“Almoço ideal é aquele em que eu saio com fome”

Talvez você já tenha ouvido esta frase. Ela gera algumas interpretações: será que é bom mesmo comer e continuar com fome? Empanturrar-se não é a melhor atitude à mesa, óbvio. Mas não seria certo comer o suficiente para se sentir satisfeito? Se comer sempre um pouco menos do que se deseja é o mesmo que continuar com fome, não seria uma forma de autopunição? Fato é que a preocupação com a saúde pode levar a caminhos que talvez não sejam ideais para uma alimentação saudável. São grandes as chances de errar se formos mal orientados – ou mesmo desorientados -, escolhendo formas de alimentação sem auxílio de médicos ou nutricionistas, apenas porque não nos
contentamos com o que vemos no espelho.

DIETA DA MODA OU DIETA DO DIA?
A pergunta é irônica, mas pertinente. E, aqui entre nós, nada surpreendente. Com a rapidez das mudanças, admirável seria o prato nosso de cada dia continuar incólume. Não é o caso. No planeta das informações propagadas à velocidade da luz, tudo se transforma todo dia. Se hoje é bom, amanhã não é. Se agora não é saudável, daqui a 15 minutos alguém do outro lado do mundo pode descobrir que é. Se ontem fez mal, em poucos dias pode fazer bem. E se neste momento é verdade, cuidado! Dentro de instantes já não será.

Nada é absoluto. E no âmbito das dietas, menos ainda. Por um lado, o número de pessoas que trabalha (mesmo com as taxas altas de desemprego) cresceu exponencialmente dos anos 1980 para cá, aumentando o número de gente que come fora. Some-se a alta de oferta de produtos nos supermercados e chegamos a um avanço cada vez mais acelerado dos produtos industrializados.

Por outro lado, as tendências em dietas e alimentação regrada também se multiplicam. Vemos cada vez mais pessoas acudindo a dietas milagrosas e incontáveis modismos alimentares da TV e da internet. Dieta da lua, da sopa, da USP, das frutas, dos pontos, do alfabeto, dos shakes, do atum, disso, daquilo, até da Bíblia(!) Todas mostradas por gente bonita, sarada e feliz, com promessas e mais promessas, mas… via de regra nenhum embasamento científico. Nem sempre se conhece os reais benefícios (ou os possíveis estragos) que se pode causar à saúde.

RESTRINGIR OU NÃO RESTRINGIR?
O problema da obesidade, todos sabemos, não é de hoje. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) feita pelo IBGE junto ao Ministério da Saúde, e divulgada em 2008/2009, já apontava que 12,4% dos homens e 16,9% das mulheres apresentam-na em algum estágio. E este é mais um motivo importante para se ter em mente que dieta é coisa séria.

A nutricionista Miriam Frederici alerta sobre os eventuais perigos de se entrar de cabeça e sem orientação em qualquer dieta. A tal obsessão pela dieta perfeita, por exemplo, é chamada de ortorexia. Apesar de ter surgido em 1997, ainda não foi completamente analisada pela ciência e não é considerada oficialmente um transtorno alimentar. Mesmo assim, conta com um número crescente de simpatizantes. Trata-se de uma dieta altamente rígida na busca dos alimentos ideais, considerados puros, a ponto de se excluir grupos alimentares inteiros.

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Não há relação direta com peso e calorias, o que pode ocasionar restrições alimentares cada vez maiores. Seus adeptos chegam a levar os próprios alimentos para qualquer lugar ou, caso não seja possível, até deixam de se alimentar. Em níveis mais extremos, evitam ocasiões onde possa haver alimentos “impuros”, como festas e reuniões familiares. E as consequências não englobam só o lado físico (falta de nutrientes). Podem atingir o nível do isolamento social e, com isso, gerar ansiedade e até depressão.

Também existem os casos onde a restrição é levada a sério sem necessidade. Aqui, podemos enquadrar as dietas que cortam ou restringem o glúten ou a lactose. Em ambos os casos, devem ser feitas apenas por quem tem patologias, conforme explica Frederici. Quem tem a doença celíaca, por exemplo, reage de forma exagerada à proteína do glúten, podendo sofrer diversos distúrbios. E a intolerância ou alergia à lactose (açúcar encontrado no leite e em produtos lácteos) ocorre pela incapacidade do organismo em digeri-la. Nas duas situações, as dietas podem ser feitas. Porém, com a devida indicação e supervisão médica regular. Cortar o glúten e o leite para emagrecer é considerado mito.

DIETAS LOW CARB, LOW FAT E CETOGÊNICA

Também restritivas, estas três modalidades contam com algumas particularidades, que são:

• Low carb: tem variações entre as composições nutricionais de cada macronutriente. Algumas podem acabar em déficit de energia. Outras não trazem restrições energéticas, mas pedem altas quantidades de proteínas e gorduras. Não há um padrão nutricional sacramentado, o que dificulta um pouco a aferição dos resultados, pois não se sabe se eles são obtidos graças à diminuição de ingestão energética, à redução de carboidratos, à redução ou ao aumento das proteínas.

• Low Fat: inversa à Low Carb, professa a redução de gorduras e aumento de carboidratos: 45 a 65% de energia deve vir deles; 10 a 35% das proteínas e 20 a 35% das gorduras.

• Cetogênica: rica em gorduras, moderada em proteínas e baixa em carboidratos. Muitos defendem seus benefícios à saúde. Alguns estudos dizem que ela ajuda a perder peso fazendo com que a pessoa entre em cetose – estado metabólico onde a gordura fornece a maior parte da energia ao corpo. O curioso é que, quando isso acontece, o corpo fica mais eficiente para queimar as próprias gorduras, transformando-as em cetonas para o fígado. Também pode fornecer mais energia para o cérebro e reduzir o nível de açúcar no sangue e a insulina. No período de adaptação, podem surgir efeitos colaterais: falta de energia, dificuldade de concentração, náuseas etc.

JEJUM INTERMITENTE (INTERMITTENT FASTING)
Uma dieta onde não se come literalmente nada em espaços de tempo que podem ficar entre 16 e 24 horas. Não é indicada para os menos controlados (ou mais dados às tentações), pois intercala os períodos de jejum com outros protocolos alimentares, como diminuição radical de calorias 2 ou 3 dias por semana e dieta normal pelo resto da semana; ou uma semana de redução drástica de calorias contra uma semana de dieta normal. Trata-se de uma dieta para os fortes, pois a oscilação tende a um risco de recaída e um refestelamento alimentar desmedido, também conhecido como orgia gastronômica.

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Seus defensores juram que o organismo é capaz de se adaptar, citando como provas a privação alimentar de até 48 horas em tempos de guerra, e até mesmo o jejum por razões religiosas, que busca reforçar a fé do indivíduo pela ausência do alimento por um determinado período, que pode chegar a vários dias sem colocar nadinha na boca. E aí, alguém se habilita?

De qualquer forma, antes de tomar qualquer atitude ou aderir a uma dieta qualquer, é fundamental consultar um médico ou se orientar com um nutricionista de confiança, aconselha Miriam Frederici. Estes profissionais com certeza não irão induzir você a riscos desnecessários.

COMO FUNCIONA O EFEITO SANFONA?
Rezam os nutricionistas que se deve comer, de forma equilibrada, por volta de 5 vezes ao dia. Quando restringimos muito estes números, o corpo sente a privação e, espertinho que é, começa a armazenar uma parte maior do que a gente consome. Mesmo comendo menos, você para de perder peso. Bate aquele desespero, você acha que não está funcionando, joga tudo para o alto, e ganha de volta o pouco que perdeu.

Texto: Paulo Samá

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