Van Gogh. Os delírios de um pincel

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“O Terraço do Café à Noite” (1888) e “O Campo de Trigo com Corvos” (1890) estão entre as obras mais famosas de Van Gogh. Anterior a elas, o escuro “Os Comedores de Batata” (1885), do período holandês do pintor, denunciava uma de suas predileções (e de quase todos os neerlandeses) à mesa. As batatas fornecem vitamina K, que ativa o cérebro e combate a depressão.

Incomum, no entanto, esse gênio transtornado, bipolar e possivelmente esquizofrênico, interromper os rompantes de ardor criativo para trocar as tintas pelos alimentos. Dava vigor à natureza-morta com cebolas, peixes e couve, retratava a comida boa da terra e da gente comum. Ele mesmo, pobre e religioso, levava um dia a dia de pão e castanhas, suas batatas com carne de panela, às vezes cebolas caramelizadas. Abstinência do luxo era virtude. Um pedaço de pão e uma xícara de café bastavam. O apetite pela arte era mais forte. Diz-se que à noite, o mestre colocava velas acesas no chapéu para continuar trabalhando.

Por um lado, complicado no relacionamento com a culinária e com as pessoas; por outro, extremamente eloquente em suas pinceladas curvas e brilhantes, que falavam o que ele sentia e pensava. Quadros alegres e serenos nasceram em Auvers, com um artista mais em paz e satisfeito. Já no hospício Saint-Rèmy, deprimido e oprimido, produziu desenhos mais ondulados e formas retorcidas, denotando angústia. Van Gogh, que definiu sua própria forma de pintar. Por isso, seu estilo singular, na visão de vários críticos, situa-se entre o pós-impressionismo e o pré-expressionismo.

Em sua obra, é notória a predominância do amarelo, que começou com pontinhos até destacar-se como sol ou girassol. Criou mais de 800 telas em seu breve período de 10 anos pintando, mas só vendeu uma em vida, e adivinhe o tema? “A Vinha Vermelha”, de 1890. Não que fosse um grande apreciador dos vinhos. Sua bebida número um foi a mesma de Degas, Manet, Baudelaire, Fernando Pessoa e Oscar Wilde: o absinto.

INFELICIDADE VERDE, FELICIDADE AMARELA
O episódio histórico mais contado sobre a trajetória de Vincent Van Gogh, é ele ter cortado um pedaço da orelha direita, após se desentender com Paul Gauguin, seu amigo de habitação em Arles. Andava embriagado e alucinado pelo consumo excessivo de absinto, na versão de muitos. E deveria estar mesmo: o pintor dos girassóis embrulhou o lóbulo decepado em um lenço e o deu de presente para a amiga prostituta Raquel.

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A alta concentração alcoólica e a coloração verde renderam à bebida o apelido de “fada verde”, em função de seu suposto efeito psicodélico, nunca comprovado. Hoje, ela é normalmente consumida
quase no mundo todo. Foi inventada por volta de 1792, e usada de início como remédio pelo Dr. Pierre Ordinaire, médico francês. Um destilado algo amargo feito de losna, e que podia ainda contar com anis, funcho e outras ervas em sua composição. Foi altamente popular na França e entre os artistas parisienses, entre o fim do século XIX e princípio do XX.

Van Gogh reproduziu o drink favorito em “Natureza- Morta com Absinto”, de 1887. Uma grande garrafa, mais uma taça quase transbordando, repousam sobre a mesa do bar. E o extraordinário talento – incompreendido, perturbado e miserável –, que se suicidou em 1890 aos 37 anos, repousa ao norte da Cidade Luz, no vilarejo de Auvers-sur-Oise.

Legou à humanidade riqueza incalculável, inspiração sem fim para as futuras gerações e os profissionais, entre eles o fotógrafo Kelly McCollan, que recria as obras de Vincent com fartura de detalhes, empregando temperos, sal e corantes alimentícios. Corantes comestíveis, bem diversos da tinta amarela e adorada que Van Gogh costumava ingerir em seus últimos anos. Acreditava que assim, poderia absorver felicidade.

RECEITA ORIGINAL DE ABSINTO (SÉCULO XIX)
Se este é o seu primeiro drink com absinto, uma das sugestões é começar com a receita original, para saborear toda a refrescância da bebida, preparada da maneira tradicional. Um drink extremamente belo, que pode servir de base para outras criações.

Coloque em um copo 2 colheres pequenas de açúcar e uma dose padrão de absinto (uma colher de sopa). Em seguida, despeje lentamente água mineral dentro do copo, e sirva.

ABSINTO TROPICAL
Boa opção para degustar em qualquer evento ou ocasião festiva, especialmente nos meses mais quentes do ano.

Para preparar este drink, coloque duas doses de absinto e a mesma quantidade de água em um shaker ou uma misturadora. Depois, acrescente uma colher de açúcar e gelo a gosto. Para inovar, você pode adicionar duas fatias de abacaxi e sumo de meio limão, para um toque ainda mais tropical.

CAIPIRINHA COM ABSINTO
O absinto confere um sabor único, forte e acentuado à obrigatória caipirinha.

Coloque duas rodelas de limão, duas folhas de hortelã bem picadas e duas colheres de açúcar no shaker ou na misturadora. Depois, acrescente duas doses de absinto e gelo a gosto. Misture durante alguns segundos e sirva bem fresco.

Texto: Fábio Angelini

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