Bloody Hemingway

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B l o o d y M a r y • E r n e s t H e m i n g w a y

Para inaugurar esta coluna, convidamos você a erguer bem no alto o bloody mary perfeito, cintilando à luz inebriante de Paris. Com Ernest Hemingway sentado na mesa ao lado, no café Les Deux Magots. Ele escreve, beberica, pensa, beberica, olha, beberica, imperturbável. O copo rubro, o eleito da noitada, viva¬mente feliz.

Não que o bloody mary fosse o preferido do escritor; quase tudo alcoólico encantava esse nosso legítimo boêmio. Mojito, cerveja, absinto, tequila, dry martini, uís¬que e daiquiri. O bloody mary era seu companheiro assíduo por não exalar odor, não dar motivos para esposas implicantes. E foram qua¬tro delas, de 1921 a 1961. Uma das lendas sobre a origem do drink, até diz que a bebida foi criada especialmente para Hemingway e para esse fim: não deixar pistas. Bertin Azimont, barman do Hôtel Ritz Paris, teria sido o alquimista responsável pela fórmula mágica: vodca, suco de tomate, suco de limão, sal, molho inglês, tabasco, pimenta, salsão e gelo.

Cientificamente falando, este clássico coqueteleiro, de per¬sonalidade salgada e picante, é mesmo um fenômeno químico, cujo segredo está no equilíbrio perfeito entre doce, salgado e azedo. O suco de tomate e o gelo neutralizam o tempero. Não é fá¬cil de acertar. Mas bem misturado e balanceado, o composto excita o paladar e estimula o apetite. Por isso, é ótimo para começar uma refeição. Os bons bebedores ain¬da o apreciam para curar ressa¬cas: o suco de tomate, o salsão e o limão ajudam a metabolizar mais rapidamente o álcool, justificam.

Como Hemingway dizia que beber tornava as pessoas mais interessantes, deve ter recorrido ao “santo remédio” várias vezes. Não bastava ser Prêmio Nobel em 1954 com o romance “O Velho e 23 o Mar”; motorista da Cruz Verme¬lha na Primeira Guerra; corres¬pondente de guerra na Segunda; gênio literário; sobrevivente de duas quedas de avião em 24 horas; faltava algo, e os psicólogos da Universidade de Missouri bati¬zaram de “Ernest Hemingway” a categoria de “ébrios impassíveis”.

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Guerra à Lei Seca

O jovem francês Fernand Petiot, que chegou a servir o escritor no Harry’s New York Bar, de Paris, foi o verdadeiro mentor do coquetel em 1921, de acordo com a história oficial. De que maneira? Não a pedido de Hemingway, e sim de outros americanos que frequenta¬vam o local. Eles buscavam uma bebida de aparência e fragrância etílica mascaradas, para driblar a Lei Seca em vigor nos E.U.A.. E encontraram.

O nome dramático e “sangrento” do coquetel é objeto de disputas da mesma forma. Teria nascido de Mary Pickford, destacada atriz do cinema mudo; de uma garçonete que trabalhava no bar Bucket of Blood, de Chicago; da rainha Mary Tudor, intitulada “Bloody Mary” pela sua implacável perseguição aos protestantes; ou do próprio conceito de sangue real britânico. Esta última explicação é a mais aceita, sem ser unanimidade.
O bloody mary também não é unânime como drink, embora 54% dos americanos preparem-no nas ocasiões especiais. Atua no filme “Cocktail” com Tom Cruise, era o preferido de Marylin Monroe, é música de Lady Gaga. Mas há quem odeie e diga que é sopa, não bebida. Bem, nutritivo ele real¬mente é, com sua base de suco de tomate consistente, que não deve ficar grosso ou espumoso. Deve apresentar proporções corretas, o toque especial do sal de salsão, o limão passado na borda do copo, não do prato. Mesmo que seja o prato do Ernest.

Ingredientes

• 1kg de tomates maduros
• 500ml de água
• 2 copos, tipo americano, de vodca
• Cubos de gelo
• Gotas de vinho xerez seco, a gosto
• Suco de 1/2 limão Siciliano
• Gotas de molho de pimenta a gosto
• Gotas de molho inglês a gosto
• 1 pitada de sal
• 1 pitada de pimenta-do-reino
• 1 ramo de salsão para decorar
• 1 rodela de limão para decorar

Modo de preparo:
Prepare o suco de tomates liquidificando as polpas, sem as sementes, e a água.
Coloque o gelo numa coqueteleira ou copo grande. Despeje a vodca e o suco de tomate.
Adicione o xerez e o suco de limão por cima. Pingue algumas gotas de molho de pimenta e de molho inglês e, por fim, polvilhe com o sal e a pimenta. Tampe e chacoalhe bem. Coe o coquetel, usando um coador de cozinha, e despeje num copo alto. Decore com o aipo e a rodela de limão antes de servir.
Dica: servir em taças com azeitona no fundo, igual a um Martini.

Texto: Fabio Angelini

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