Do bosque à bodega. A magia do carvalho francês

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O lindo bosque de Darney, no nordeste da França, alberga os carvalhos mais antigos e imponentes da Europa. De lá procedem os valiosos barris onde repousam, vindima após vindima, os melhores vinhos do planeta.

OS CARVALHOS SÃO TALHADOS QUANDO ALCANÇAM SUA MATURIDADE, A PARTIR DOS 180 ANOS DE IDADE

Uma vez cortado o carvalho, o responsável pela exploração da região
encarrega-se de medir, avaliar e estabelecer o preço do tronco.
É imprescindível marcar os nós, porque essa parte da madeira
não é aproveitada e seu valor deve ser descontado do total que
a tonelaria vai pagar. O metro cúbico de carvalho pode oscilar
entre 2.800 a 4.000 euros, dependendo de sua qualidade.
E com ele, é possível fabricar 9 a 10 barris.

A Arte do corte
A madeira de carvalho francês é muito especial. Devido à sua composição, recomenda-se cortá-la seguindo a trajetória dos rádios medulares para garantir a permeabilidade das aduelas (ripas). Isso obriga a descartar muita madeira e é uma das razões do custo final dos barris de carvalho francês ser muito maior do que outros tipos de carvalho, como o americano ou o da Europa do Leste, que está em voga há alguns anos.

Se o mundo da Enologia é um tanto enigmático para o público em geral, a seleção do tipo de madeira para a “crianza” dos vinhos é, segundo muitos enófilos, um dos mistérios mais insondáveis que existem. Hoje em dia sabemos que, mesmo que haja alternativas menos interessantes ou pitorescas (castanho, cerejeira, acácia ou pinheiro), não há nenhuma madeira melhor que o carvalho para que o vinho se equilibre, aumente sua longevidade e desabroche um leque muito maior de aromas e sabores.

Evidentemente há diferentes tipos de carvalho e nem todos servem para a “crianza” dos vinhos. Por suas características, os dois mais empregados em todo o mundo são o carvalho francês e o americano. Mas qual é a razão principal para se utilizar um ou outro?

A eterna pergunta feita pelos aficionados desde tempos imemoriais tem, a princípio, uma resposta rápida e contundente: o preço. É sabido que o carvalho francês é muito mais caro que o americano, e se forçarmos a memória, a maioria dos grandes vinhos do mundo repousam única ou parcialmente em carvalho galo, e isso inclui muitos dos melhores rótulos de norte a sul da América. Portanto, existem mais razões que justificam o prestígio do carvalho francês, e nada melhor que procurá-las onde germina a semente deste gigante de madeira: no coração do bosque.

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Na França há cerca de 20 milhões de hectares de bosque de carvalho, dos quais 80% são privados e os outros 20% são administrados pela Office National de Forêts (ONF) que é responsável por proteger os recursos e manter a população florestal de modo sustentável. Os melhores bosques de carvalho de Quercus petraea ou Quercus robur, as duas principais espécies que crescem naquele solo, encontram-se no centro do país (Nevers, Allier, Troncais, Limousin) e ao nordeste, na região de Lorena, talvez a menos conhecida por enólogos e produtores, mesmo que, nos últimos tempos, empresas de toda a Europa (como a riojana Luis Alegre) tenham olhado para esse canto da França e trabalhado com as tonelarias locais.

Ali, aos pés dos Vosgos e muito perto de Borgonha, encontra-se o bosque de Darney, assentado sobre terrenos pobres e com condições climáticas que favorecem a qualidade do carvalho: invernos muito frios e verões secos com primaveras temperadas. Tudo isso, em conjunto, dota a madeira de uma riqueza aromática maior.

A medida exata
A administração florestal do lugar é como a do resto da
França e está anos luz de outros países europeus.
A exploração dos carvalhos é feita em regiões muito delimitadas
e de maneira metódica, com precisão milimétrica.
Somente 5% dos carvalhos, os de maior qualidade, são destinados
à elaboração de barris, enquanto o restante é convertido em papel.
Os melhores exemplares são cortados em plena maturidade a partir
dos 180 anos, quando ainda têm meio século de vida pela frente. Depois da talha e da correspondente transação econômica do exemplar em pleno bosque, o tronco é trasladado ao marceneiro para o corte e conversão em aduelas.

Ali também ele é secado ao ar livre, um processo importantíssimo, que dura entre 24 e 36 meses e serve para degradar o tanino e afinar a madeira. Se isso não acontece, o vinho sofre as consequências com uma excessiva potência tânica e um desagradável sabor de madeira sem cura. O trabalho que começa no bosque finaliza na tonelaria. Ali os mestres toneleiros finalizam os barris e prosseguem com os diferentes graus de tostado, ao gosto do cliente. Acaba assim um processo que dura perto de dois séculos, desde que surgem os primeiros brotos do carvalho, até que sua madeira passe a abrigar os melhores vinhos do mundo. Quem disse que isso não é uma vida plena?

Texto: Alex Calvo
Tradução: Paula Taibo
Fotos: Álvaro Fernandez Prieto

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