Coco Chanel

0

“Eu dei às mulheres braços de verdade, pernas, movimentos autênticos e a capacidade de rir e de comer sem se sentir mal por isso.”

Ao revolucionar o mundo do design com sua moda particular e o estilo atrevido, Coco Chanel apegou-se à comodidade e informalidade. Sua proposta de suprimir tudo que incomodava o corpo das mulheres e limitava seus gestos, praticamente as libertou dos sufocantes espartilhos. “O luxo tem que ser confortável, ou não é luxo”. Paradoxalmente, essa liderança feminista também trouxe um efeito colateral que ficou: o ideal da silhueta perfeita, do chique enquanto esbelto, a pressão psicológica em busca da beleza, por alguns denominada “espartilho mental”.

Coco dizia que elegância é recusa, deixar a mesa sem tocar nos doces, evitar qualquer comida entre as refeições a fim de manter a linha. Para ela, certamente era mais fácil do que para outras, com seu modelito físico. Muito magra, sem peito nem cintura, os cabelos à la garçon. E mais importante, dona de hábitos espartanos, fruto da origem humilde, da infância e adolescência áridas.

Após a morte da mãe, Chanel foi para um orfanato aos 12 anos, e aos 18, para um internato de moças pobres. Entre freiras e visitas ocasionais de familiares distantes, aprendeu a costurar, passar e bordar. Começou a produzir suas próprias roupas, e a usar botinas doadas pelas jovens de fino trato.

Aos 20 anos, arranjou emprego em uma elegante loja parisiense, frequentada por aristocratas militares. À época, tentou carreira como cantora de cabarés, e até adquiriu notoriedade local com a música “Qui qu’a vu Coco dans l’trocadero”. Daí nasceu o apelido
de “Coco”, registrada em cartório como Gabrielle Bonheur Chanel. A mesma garota que, em 1907, compareceu a uma corrida de cavalos usando gola branca aberta e franja, marcas patenteadas. A garota que guardava uma graça de menina selvagem, acentuada pelo uso de roupas de amantes e amigos, gravatas, gabardines e sapatos baixos.

E então, a ascensão. Bon vivants, artistas e fãs dos dois sexos. Peças inventadas e improvisadas que arrancavam elogios e encomendas. A designer, um dos maiores ícones fashion do século XX, abriu sua primeira loja em 1913, com a ajuda de um admirador. De início, concentrou-se em desenhar e produzir chapéus simples, em oposição aos rebuscados e decorados. Impulsionada pela popularidade dos acessórios, passou a vender roupas. Logo vieram coleções esportivas e de algodão leve, a segunda loja em Deauville e a terceira em Biarritz.

sociedade-da-mesa

Os vestidos sem gola ofuscaram os pomposos vestidos de festa de então, atraindo a melhor clientela de Paris. Nasceu a jaqueta de tweed com bolsos acolchoados (Coco amava os bolsos, não os bolos). Ao manter o contorno esguio, tornou-se também a melhor garota-propaganda de sua grife.

O que mais impressiona é a maneira abrangente como a estilista reeditou o universo feminino. Em 1921, lançou o eterno Chanel Nº 5, primeira fragrância a ostentar o nome de sua criadora. Em 1926, fez escândalo e sucesso com o universal vestidinho de caimento até os joelhos, o famoso tubinho preto, que valoriza as pernas das mulheres. Usar preto na época era tabu, cor reservada à monarquia, ao luto e às empregadas. Cor predileta dela, ao lado do dourado.

Chanel causou e sofisticou muito mais. Pioneira no uso de calças femininas, a primeira a vislumbrar mulheres vestindo ternos. A nuance andrógina que fascinou ambos os sexos, que lançou-se às ruas. Libertou as mulheres das alças com a primeira bolsa a tiracolo, o modelo 2.55, concebido no mês dois de 1955. Trouxe o icônico sapato “Channel” de 2 tons em 1957, o clássico que faz os pés parecerem menores e as pernas mais longas. Consagrou o corte de cabelos curto e reto, o corte “Chanel”.

“SÓ BEBO CHAMPAGNE EM DUAS OCASIÕES: QUANDO ESTOU AMANDO E QUANDO NÃO ESTOU”.
Muita gente se sente o máximo após uma tostada no sol da praia. O bronze estampado na pele depois das viagens de Coco à Riviera Francesa seria transformado em conceito de beleza e saúde. Saúde que ela pareceu cultivar: viveu até os 88 anos. Não foi boemia como se poderia imaginar. Apaixonada por champagne, sim, mas vista frequentemente tomando chocolate quente no Chá Angelina, da Rue de Rivoli. Pelo seu passado de formação na região de Auvergne, talvez, Coco Chanel apreciava caviar fresco com vinho tinto, um dia sim e o outro também – inclusive quando se hospedava no hotel Savoy de Londres. Acreditava que os dois itens a manteriam jovem e bonita.

sociedade-da-mesa

Em 2013, Chris Moore e Fabrizio Fiorito, do Beaufort Bar do Savoy, bolaram um menu de coquetéis especiais para hóspedes ilustres. O drink de Chanel, ao qual chamaram de “Coco”, apresenta-se em copo de vinho vintage, acompanhado de uma lata de caviar cheia de pérolas de açúcar preto com flor de macieira, borrifada com essência de jasmim e rosa, dois dos principais elementos do Chanel Nº 5.

Embora morasse no hotel Ritz desde 1937, Chanel recebia alguns poucos amigos no apartamento da Rue Cambon. Entre eles, Salvador Dalí, Greta Garbo, Igor Stravinsky, Jean Cocteau, Pablo Picasso, Marlene Dietrich e Romy Schneider. Mesa para 8 pessoas, pois preferia olhar para os convidados e não falar alto. Por vezes, promovia festas andaluzas com bailados flamencos. Uma recepção íntima e sem cerimônia, talheres luxuosos ou pratos requintados. Frutas frescas da estação compunham um estilo de comer sem frufrus ou rococós.

De natureza solitária, o desejo de Gabrielle Bonheur Chanel era que ninguém pensasse em ir embora tão cedo. E assim buscar, e sorver, em sua própria casa, uma porção de “bonheur”. Felicidade, em francês.

COCO
Receita do Beaufort Bar Hotel Savoy de Londres

Ingredientes
40ml de Vodka Grey Goose
20ml de Lillet Blanc (aperitivo licoroso)
10ml de tinto Châteauneuf-du-Pape
Moet et Chandon Vintage 2004

Guarnição
Lata de caviar, pérolas de açúcar preto com de flor de maçã, spritz de jasmim e rosa.

Preparação
Mexa todos os ingredientes líquidos, exceto o champanhe, sobre pedras de gelo. Adicione o champanhe ao copo e despeje a mistura. Copo de vinho vintage da década de 1890.

Texto: Fábio Angelini

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!

 

Deixe um comentário