Muito além do mel

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No dia 3 de outubro é comemorado no Brasil o Dia das Abelhas. “Comemorado” é modo de dizer, pois não há exatamente desfiles com fanfarra ou outras festividades. A data é mais conhecida por quem trabalha no ramo da apicultura ou áreas relacionadas a insetos, como a entomologia.

As abelhas merecem a data. Já mereceriam se só produzissem mel. Mas fazem mais que isso. E mais do que desferirem doloridas ferroadas. Elas são fundamentais para o equilíbrio ecológico e para nossa existência. Produzem geleia real, própolis, cera, prestam um serviço inestimável com a polinização e, acredite você ou não, são responsáveis por um a dois terços do que comemos. A polinização ajuda na reprodução das plantas, incluindo os vegetais daquela salada que você tanto gosta.

As abelhas atuam como órgãos reprodutores de plantas. Espalham o pólen, levando as células masculinas da planta até a parte feminina da flor. Ou seja, se elas não existissem, estas plantas seriam praticamente estéreis e um dia deixariam de existir, desequilibrando o ecossistema e privando a gente de uma grande parte dos alimentos. Sem elas, as culturas agrícolas não seriam as mesmas. Há quem diga que maçã, maracujá e melão sequer existiriam.

Mas… as abelhas estão sumindo
Mas se elas estão há 45 milhões de anos zumbindo por aí, somam 25 mil espécies ao redor do mundo, e suas rainhas podem produzir até 3.000 ovos por dia, como podem estar desaparecendo?

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No Brasil, a queda da população de abelhas tem sido observada pelos apicultores desde 2006. Estudos da Universidade Estadual Paulista (UNESP) dão conta do sumiço de 10 mil colmeias entre 2008 e 2010, somente em São Paulo. E em outros estados, calcula-se que cerca de 20% delas sejam perdidas por ano. Nos E.U.A. este número chega a 31%. Segundo o Departamento de Agricultura americano, o número de colônias de abelhas reduziu-se à metade entre 1950 e 2007. França e outros países da União Europeia relatam problemas parecidos.

“Você deve, entre um e dois terços do que come, à ação das abelhas”

O que está acabando com elas?
Ainda estamos no terreno das suspeitas. Algumas causas podem ser a “vespa invasora” da Ásia, que ataca e prejudica as colmeias; a poluição; as mudanças climáticas; o parasita Nosema apis, que ataca o aparelho digestivo das abelhas, a superpopulação urbana…
Mas a maior aposta culpa alguém que conhecemos muito bem: nós mesmos. Os agrotóxicos e pesticidas como neonicotinoides usados na agricultura muitas vezes são pulverizados no ar por aviões, e apesar de não serem direcionados às abelhas, acabam eliminando-as como consequência do combate a algumas pragas. Elas são atingidas de duas maneiras: as transmissões pelo ar podem eliminá-las na hora, ou as substâncias tóxicas contaminam as flores e, é lógico, o pólen. Isso atinge em cheio o sistema nervoso das abelhas, que perdem o senso de orientação e muitas vezes perecem antes mesmo de acharem o caminho pra voltar à colmeia.

A notícia boa é que já existem países que não querem pagar pra ver onde isso vai dar. A França, por exemplo, já proibiu o uso de cinco neonicotinoides. A União Europeia suspendeu o uso de iametoxam, imidacloprida e clotianidina, que são da mesma categoria. O uso, a partir de 19 de dezembro, só será permitido em estufas. Ainda assim, especialistas garantem que ainda há muito a fazer. Mas já é um começo.

Por isso, sem fatalismo barato, é bom pensarmos: preservando as abelhas, preservaremos a nós mesmos, ainda que com uma picada aqui e outra ali. E, pensando bem, seria interessante organizar um desfile em honra às abelhas no próximo 3 de outubro. Com fanfarra e tudo.

Abelhas e vinho: existe relação?
As abelhas não polinizam as videiras, pois as uvas são hermafroditas e fertilizam a si mesmas. Mesmo assim, muitas vinícolas contam com colmeias e apicultores profissionais. As abelhas polinizam as plantas que mantêm o equilíbrio dos níveis de nitrogênio no ar, resultando em plantações mais viáveis e exuberantes, que devolvem mais nutrientes ao solo.

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As plantas que ficam em torno dos blocos de vinhas também saem ganhando. Polinizadas, elas atraem joaninhas e outros “insetos do bem”, que defendem o vinhedo como predadores de pragas.
Assim, o ecossistema é mais diversificado, o vinhedo é mais saudável e as uvas têm melhor qualidade. E o ambiente de vinhedos livres de pesticidas também faz às abelhas. É uma
relação boa para todos.

Mel tem terroir
Não é só o vinho que reflete sua terra. O mel também. Seu gosto varia de acordo com a origem, o clima, o tipo de solo e seus minerais e até as flores por onde a abelha faz suas visitas.

Vinho de mel ou hidromel
Tido por muitos como a bebida alcóolica mais antiga do mundo, o vinho de mel é feito através da fermentação alcóolica do mel, água e levedura, em um processo bem parecido com a elaboração
do vinho tradicional. Quem experimenta, ama. Seja pelo teor alcóolico relativamente alto (esse também é pra beber com moderação), seja pelo misticismo e folclore envolvidos na origem e na trajetória da bebida, que nos trazem conteúdo suficiente para um futuro Almanaque exclusivamente para o hidromel.

Texto: Paulo Samá

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