Peeling na bancada

Pelo que se sabe, sempre coube à faca a estafante e tediosa missão de descascar alimentos. Em prisões, cozinhas, porões.
A lâmina pequena e pontuda, que mesmo nas mãos mais habilidosas, exigia o máximo de concentração para não pelar junto um pedaço de polegar.

Os Estados Unidos, onde o cultivo de maçã plantou-se desde a primitiva vida yankee, viu os primeiros descascadores
(de maçã), rústicos, semi-industriais, surgirem no fim do século XVIII. Meras manivelas para girar a fruta, com tiras de couro e pranchas de madeira para sustentar o peso do operador. Uma máquina de guerra.

Entre 1803 e 1910, pulularam centenas de patentes de descascadores de maçã e batata, com engrenagens em ferro fundido e extremidades afiadas. Até modelos que removiam os grãos das espigas de milho. Mas e no ambiente doméstico, como é que fica, como é que era?

O catálogo da Sears de 1906 – referência em tudo que é tipo de utensílio de cozinha – listava até um descaroçador de maçãs, mas nenhum descascador, nenhum “peeler”. No Reino Unido, apareceu o “Lancashire” (mesmo nome do condado inglês com fixação em batatas). Tinha cabo de madeira revestido de corda, lâmina fixa tosca e apoio insatisfatório. As versões americanas e francesas com mecanismo giratório eram melhores: cabo de aço cromado e lâmina de aço-carbono, que se moldava à curvatura dos vegetais. Porém, era doloroso na palma e produzia tantas bolhas quanto alimentos pelados.

Descascamos brevemente um pouco da tipia e cronologia evolutiva do aparelho.

Descascador reto, 1928 – O francês Victor Pouzet cria o “Econome”, com lâmina fixa de duas fendas paralela ao cabo, lembrando uma faca. Similar ao modelo britânico “Lancashire”.

Descascador Y, 1947 – Surge o ícone suíço “Zena Rex”, com lâmina de aço-carbono, perpendicular ao cabo de alumínio. É o descascador de legumes que parece um barbeador. Além de remover as cascas em tiras, vinha (e vem) com um extrator de “olhos” de batata, imperfeições e manchas nos legumes. A invenção de Alfred Neweczerzal rala também queijos duros e chocolate. De design atemporal, ainda vende muito no mundo todo.

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Descascador pivotante, 1953 – Desenhado na Suécia, o descascador “Jonas” original é produzido pela Linden Sweden e é dos mais populares nos E.U.A. Sua lâmina pivotante de dois gumes se autoajusta mediante a pressão aplicada, aliviando o manuseio.

No entanto, os descascadores mais ergonômicos só chegaram há pouco. Integram a nova era da cozinha moderna, que planeja equipamentos respeitando as limitações do corpo humano. O grande fator de mudança veio no fim dos anos 1980 com um aposentado e boa vida do ramo, Sam Farber, cujo tio possuía a Farberware, empresa de utilidades domésticas.

Ao observar o sofrimento da esposa artrítica empunhando um descascador
de maçãs, ele intuiu que a parte crucial era o cabo. Projetou-o mais macio e volumoso, um composto de plástico e borracha que lembra os guidões de bicicleta e absorve melhor a pressão, tornando mais fácil até a despelagem de abóboras duras e kiwis peludos. Fundou a OXO e lançou o descascador homônimo, que já comercializou mais de 10 milhões de unidades. O material emborrachado de revestimento, chamado “Santoprene”, estendeu-se a outras linhas de produto, moldado e angulado para ser confortável e seguro na mão.

Farber praticamente decretou a extinção de uma tarefa cansativa. Compreendeu bem o espírito da ergonomia aplicada na cozinha: não reinventar a culinária, apenas torná-la mais simples, dando mais desenvoltura ao dia a dia do ambiente e ao modo como preparamos os alimentos. Precisa de um corte “Julienne”, “Allumette” ou “Parisiènne”? Todo tipo de “peeling” leguminoso está ao seu alcance.

Texto: Fábio Angelini

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