Ana Luiza Trajano – Sabor tipicamente brasileiro

Pesquisa é a palavra que melhor define a chef Ana Luiza Trajano, que trabalha buscando ingredientes regionais e valorizando a culinária típica de cada lugar. Ela diz que para conseguir realizar esse resgate, decidiu viajar pelo País para visitar moinhos de mandioca, engenhos de rapadura e até tribos indígenas, identificando uma comida que está distante das mesas dos restaurantes. Para ela, é essencial acompanhar todo o processo para compreender melhor o resultado. E o Brasil é um país riquíssimo em ingredientes, alguns ainda desconhecidos de boa parte da população. Por isso, é fundamental mapear e preservar essa astronomia que faz parte da cultura de cada lugar. “É muito importante valorizar as nossas próprias tradições e entender que as nossas receitas são as nossas histórias”, comenta. E, com o intuito de ajudar nesse resgate, foi criado o Instituto Brasil a Gosto que, há três anos, dedica-se à realização de pesquisas, promove aulas e apoia iniciativas em prol da cultura gastronômica. Sua missão é fomentar projetos que valorizem os ingredientes nacionais e garantam
sua acessibilidade ao público. “O Instituto Brasil a Gosto luta para que a autêntica cozinha brasileira, arraigada em técnicas, saberes e produtos, seja uma realidade nos fogões e nas mesas de todas as casas do País”, define Ana Luiza.

A chef Ana Luiza Trajano diz que os ingredientes nacionais são a sua maior inspiração e pesquisar ajuda a resgatar muitos desses sabores.

Para entender melhor esse mergulho em pesquisas, viagens e busca por uma comida simples, mas repleta de história, confira a entrevista com a chef Ana Luiza Trajano:

1. Como percebeu que não gostaria de seguir os negócios da família (ela é filha de Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza), mas sim, seguir pela trajetória da gastronomia?
Desde criança, sempre gostei muito da cozinha e tudo o que a envolvia. Da horta ao fogão, do pomar à mesa. Minha maior motivação é a busca, a pesquisa pelos ingredientes brasileiros e o que eles têm a oferecer. A gastronomia nacional é, sem dúvida, minha maior motivação. Sou neta de mineiros e cearenses. Sempre tive uma forte ligação com a cozinha e aprendi muito com meus avós. Desde menina, gosto de cozinhar para quem amo e acho que não escolhi, mas sim, fui escolhida pela gastronomia.

2. Você explora a cultura e os sabores de diversas regiões do Brasil. Como conseguiu realizar tantas descobertas?
Por meio das minhas viagens de pesquisas, nas quais mergulho na cultura e tento viver, ao máximo, como um local, descobrindo seus hábitos e costumes. Queria trazer ao público, em geral, o respeito às tradições culinárias, a valorização dos ingredientes e dos produtores região por região e o mais importante: a divulgação desses saberes. Com isso na cabeça, iniciei uma série de viagens pelo País, visitando desde moinhos de mandioca, engenhos de rapadura até tribos indígenas, para mostrar uma cultura que, às vezes, fica muito distante das mesas dos restaurantes e das recepções formais.

3. Por que você considera essencial valorizar a comida regional?
Porque é nela que moram nossos tantos “Brasis” e, assim, podemos mapear, entender e conhecer melhor a nossa cultura. #pelacozinhabrasileira se transformou em minha tatuagem de espírito e a tradução ideal do trabalho que tenho feito para que o brasileiro tenha orgulho de suas receitas, de seus produtos e leve essa tradição de sua casa para o mundo. Acredito que o Patrimônio Cultural Alimentar do Brasil também está nos mercados municipais, nas feiras de rua e supermercados, nas mesas de todos os brasileiros, de volta ao nosso dia a dia. Nossa culinária, muitas vezes esquecida e desvalorizada, precisa ser promovida e entendida para que se torne um agente importante de mudanças, preservando nossa identidade.

4. Quais ingredientes são importantes para compor um bom cardápio? Qual sua sugestão em uma feira livre, por exemplo? O que sempre deve ser levado e por quê?
O que é importante para compor um bom cardápio é ter equilíbrio dos sabores e também um equilíbrio nutricional dos pratos. Quando você vai à feira, depende
muito de procurar e selecionar o que está na estação. Se você não é muito familiarizado com a cozinha, proponha- se a sempre pegar algo diferente para ir trabalhando e não ficar sempre na mesma seleta de produtos.

5. Para você, quais são os ingredientes mais versáteis da culinária brasileira? Vale apostar nesses alimentos para buscar diferentes formas e sabores?
Os versáteis da cozinha brasileira são o milho e a mandioca. Você pode fazer coisas doces e salgadas,cozidos ou feito um purê, e ainda pratos com as farinhas que eles dão. Das ervas: coentro, salsinha, cebolinha. Outro ingrediente muito versátil é a abóbora, sem esquecer as pimentas, que acompanham tudo.

6. Você acha que o brasileiro está se reencontrando com suas tradições culinárias, ou seja, aprendendo a valorizar coisas simples, mas muito nutritivas?
Acho que a gente está se reencontrando com o que a gente sempre comeu. É muito importante valorizar as nossas próprias tradições e entender que as nossas receitas são as nossas histórias. Na verdade, o que estamos fazendo é nos reconectar com o que sempre fomos. Um exemplo disso é a própria tapioca, que voltou ao café da manhã de muitas pessoas por uma questão de saúde, afinal a mandioca tem glúten com baixo índice glicêmico.

sociedade-da-mesa

7. E com relação aos condimentos, o que não pode faltar?
Uma boa pimenta não pode faltar, uma boa base de um refogado de alho e cebola para qualquer preparo de comida brasileira e muitas ervas. A gente tem uma infinidade de ervas que vão muito além da salsinha e cebolinha.

8. Você gosta de criar novas receitas. Quais são suas inspirações para cozinhar?
A criação faz parte da minha base do cotidiano. Principalmente na cozinha caseira, se você for pensar, a gente tem que estar o tempo todo criando para fazer pratos maravilhosos e evitar o desperdício. A base da carreira de um chef é sempre estar criando a partir de algo que vê. As minhas inspirações para as minhas criações sempre foram as minhas viagens e conhecer a fundo as formas artesanais e ancestrais de produção.

9. O que mais gosta de preparar? Por quê? E para quem?
Eu gosto de preparar qualquer coisa na cozinha. Cozinhar para mim é a minha terapia; não tem o que eu mais gosto de cozinhar, depende do dia e do humor, e do que eu quero fazer.

10. Comida precisa ter alma? Qual o segredo para colocar amor em um prato?
A comida precisa de entrega e para tudo que a gente tem muito amor, também tem muita entrega. Eu acredito que uma comida feita com muita entrega, transparece
no resultado final, a comida fica mais saborosa. Tem algo invisível ali. Sim, eu acredito.

11. O Instituto Brasil a Gosto foi criado com o intuito de valorizar e preservar a culinária brasileira, destacando suas matérias-primas e processos artesanais. Qual é a importância desse trabalho desde o seu início?
A ideia do instituto é ter um espaço totalmente dedicado para a realização de pesquisas com o objetivo de resgatar as tradições gastronômicas nacionais e poder divulgar o conhecimento sobre a nossa cozinha. Além das pesquisas, há também cursos sobre temas específicos como queijos, fermentação de pães e bebidas brasileiras, ministrados por profissionais especialistas em cada tema. O instituto promove e apoia diversas iniciativas para que a gente possa conhecer e consumir cada vez mais a nossa cultura gastronômica. Acho muito importante resgatarmos os sabores e nossas lembranças e assim fomentarmos a culinária nacional.

Pingue-pongue:
Um hobby: estar com a família e amigos.
Um desejo: que a cozinha brasileira volte ao cotidiano das pessoas.
Qual palavra te define: pesquisadora.
Para ser um Chef consagrado, é preciso: entender o que está por trás de um determinado prato, desde a sua origem, os ingredientes utilizados até o seu preparo.

Texto: Simone Cunha

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!

Deixe uma resposta