Coqueteleira – Shake and Rock’N’Roll

Em algum lugar da América do Sul de 9 mil anos atrás, o homem já misturava líquidos em cabaças. Em 1520, uma carta do conquistador Hernán Cortéz dizia que a bebida espumante à base de cacau, servida a ele e ao anfitrião Montezuma, era preparada em um recipientedourado cilíndrico, chacoalhado pra lá e pra cá.

Não há muito segredo mesmo. Basta contar com dois potes ou copos, as bocas de diâmetro diferentes, de forma que uma encaixe justa na outra. Os ingredientes vão no copo maior. A seguir, é só firmar as extremidades e agitar. Mas levou tempo até o utensílio engrenar. No início do século 19, barmans pioneiros ainda derramavam os ingredientes de um copo no outro, repetidamente, e só. Até que alguém juntou um copo ao outro, balançou e voilà. Tal é a mecânica, o show imutável de todas as coqueteleiras conhecidas.

Nem todos os drinks são batidos, alguns são apenas mexidos. Nesse caso, basta ter à mão um copo grande, ou mixing glass. Para todos os outros, no entanto, o “cocktail shaker” é fundamental. A regra básica do “shaker” é essa: qualquer coisa com suco, leite, ovo ou de densidade turva jamais deve ser mexida, deve ser sacudida. Tecnicamente falando, a diferença é que a coqueteleira facilita a vida no bar ou na cozinha, porque mistura mais rapidamente e melhor os elementos, conduz com mais eficiência térmica e dilui o gelo, resultando no contrapeso ideal e na fusão mais limpa e homogênea do drink. Desde a invenção do shaker primordial, patentes e derivações sem fim, ajustes, reviravoltas e maluquices despontaram até o fim do século 19. Até sobreviverem os três tipos tradicionais.

Boston Shaker
Por volta de 1840, com a disseminação do conceito de shaker nos EUA, nasceu a chamada Coqueteleira Boston. Dois recipientes, um de estanho (a base) e outro de vidro (o menor). Requer um coador separado (strainer), que é posicionado sobre as bordas do copo maior antes de entornar o preparo. Um modelo de coqueteleira que virou o preferido dos bares americanos naqueles tempos. Hoje em dia, a maioria elege as duas peças em aço, a maior com capacidade para 800 ml e a menor, 450 ml. Dá pra fazer dois ou três coquetéis ao mesmo tempo.

French Shaker
Mais ou menos três décadas depois, a Europa adotou um caminho ligeiramente diferente: duas peças de estanho (em formato cônico, uma delas fazendo o papel de tampa), em vez do potencialmente
perigoso vidro. Chamado de shaker francês ou parisiense. Mais elegante, seguro, durável e próprio para baixas temperaturas. Também precisa de uma peneira à parte para separar os resíduos ao fim do processo. Vantagem: por não ser quebrável e mais selada, permite acelerar a velocidade.

BCobbler Shaker
Em 1884, Edward Hauck, do Brooklyn, patenteou uma combinação de três partes: o copo com base cônica, uma parte intermediária com filtro integrado e a tampa superior de vedação (que serve
ainda como dosadora). O nome “Cobbler” vem do coquetel “Sherry Cobbler”, popularíssimo ao longo de todo o século 19. É mais lenta no manuseio e no preparo, porque sua menor capacidade limita o movimento dos ingredientes e do gelo. Ao mesmo tempo, permite melhor controle de aeração e diluição. É aquela coqueteleira clássica que conhecemos, e a mais recomendada para o uso doméstico e para os amadores.

A partir da revogação da Lei Seca, em 1933, as coqueteleiras agitaram mais a sociedade. Estavam nas telas de cinema e na moda, influenciando comportamento e design, mais acessíveis a todos. Toda família americana tinha ao menos uma na prateleira. O aço tomou definitivamente o posto do estanho, do niquelado e da prata. A forma variava ao gosto do freguês: saco de golfe, zepelim, galo, pinguim, sino, perna de moça, halteres.

Porém, a produção e o comércio enfraqueceram com a Segunda Guerra e após seu término. As mentes estavam mais ocupadas com aviões a jato, televisões, carros cromados e, finalmente, com os liquidificadores, que quase sepultaram os rituais, o carisma e a recompensa pelo esforço dos cocktail shakers. A ponto de termos hoje projetos como o “B4RM4N”, a coqueteleira inteligente que se conecta ao celular. Por aplicativo, escolhe o drink, avisa quando a quantidade de ingredientes e gelo está perfeita, e seu acelerômetro guia o usuário no processo de chacoalhar.

No país onde os drinks são praticamente uma instituição, é natural que as coqueteleiras ainda gozem de prestígio no ambiente doméstico. Por aqui, estão mais presentes nas mãos dos profissionais de bares e restaurantes, ou de colecionadores de peças decorativas. Uma delas é a Alessi Bauhaus Shaker, design de Marianne Brandt (1928), artista e diretora de metais do famoso
estúdio alemão. Na casa dos 330 dólares no ebay. Embelezando a sua casa, quem sabe.

Texto: Fábio Angelini

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