A rolha de cortiça

Retirar a rolha de cortiça de uma garrafa é um ritual tradicional. Há quem diga que é ela que envolve o sentido da audição na degustação. Alega-se que o típico som já estimula nossas expectativas pelo prazer que se aproxima.

Lado lúdico à parte, o fato é que, junto ao início da produção das garrafas modernas, o uso da rolha de cortiça para vedá-las no século 18 provocou uma revolução no mundo do vinho, por preservar o líquido, proporcionar a guarda e impulsionar o crescimento da indústria vinícola. Ela tem enorme importância na história da bebida que amamos. Vamos conhecê-la melhor.

De onde vem a rolha de cortiça?
Originária da casca do tronco do Sobreiro – Quercus suber L. -, árvore da família dos carvalhos, a rolha de cortiça não tem produção simples. A partir do plantio, a árvore leva cerca de 25 anos para chegar ao ponto da primeira extração da casca, que ainda não é própria para produzir rolhas.
A partir daí, ela se regenera e leva mais 9 anos para atingir novo ponto de extração. E só a partir da terceira extração é usada na produção de rolhas. Resumindo, do plantio à primeira extração apropriada à produção de rolhas transcorrem aproximadamente 43 anos. Haja tempo e paciência!

As qualidades únicas da cortiça
Seja como rolha ou nas indústrias de construção, moda, design, esporte, saúde e aeroespacial, por exemplo, a cortiça é escolhida por características únicas:

Leveza: devido à sua estrutura celular, cerca de 50% do seu volume é ar.
Impermeabilidade: total a líquidos e quase total a gases.
Elástica e compressível: pode ser comprimida até cerca da metade da largura, voltando facilmente à forma original. Graças à elasticidade, adapta-se a variações de temperatura e pressão, sem se alterar.
Isolante térmico e acústico: absorve sons e calor.
Combustão lenta: isso a torna um retardo natural ao fogo, além de não liberar gases tóxicos durante
a queima.
Hipoalergênica: não absorve pó e não desenvolve ácaros.
Resistente ao atrito: graças a seu formato, ela é menos afetada que as superfícies duras quando há atrito ou impacto.

Há séculos a rolha de cortiça tem sido o principal vedante dos vinhos, mas há algumas décadas foi acusada de ser responsável pela então alta contaminação por TCA (tricloroanisol) nos vinhos, o que causa o mal-afamado aroma “bouchonné” (bouchon = rolha em francês), cujos marcadores aromáticos mais conhecidos são o cheiro de “papelão molhado” ou mofo. Contudo, hoje as rolhas de cortiça têm essa batalha praticamente ganha, graças a tecnologias que permitem sua produção com a certificação “sem contaminação por TCA”.

Foi também durante o período da contaminação por TCA, que novos tipos de vedantes, como rolhas sintéticas e a tampa de rosca (screw cap), passaram a ser utilizados nos vinhos, inicialmente como opção para evitar a contaminação. De lá para cá, a tecnologia utilizada nesses vedantes evoluiu muito e eles têm se mostrado muito eficientes na função, emulando inclusive uma característica das rolhas de cortiça, a pequena transferência de oxigênio para dentro da garrafa, tida como benéfica para evolução do vinho.

Porém, para você que adora o ritual tradicional e o uso do saca-rolhas, informamos que a rolha de cortiça continuará fazendo parte da cultura do vinho por um longo futuro. Isso graças às mudanças da indústria corticeira, que investiu em tecnologia para dissipar a contaminação por TCA, e às campanhas mundiais de sensibilização para o valor da cortiça como vedante 100% natural, 100% reciclável e proveniente de recursos naturais renováveis (entre outros nobres usos).

Assim, a rolha de cortiça reafirmou sua liderança sobre os demais vedantes. Os números da indústria portuguesa, principal produtor mundial, comprovam: são cerca de 40 milhões de rolhas produzidas por dia no país, correspondendo a 72% das exportações do setor da cortiça, que é enviada para mais de 100 países. Um brinde à rolha de cortiça, e que tenha vida longa. Saúde!

Texto: Lucas Cordeiro

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