Fernando Pessoa – Arroz doce

“A fome só se satisfaz com a comida e a fome da imortalidade com a própria imortalidade.”

Filósofo, poeta, astrólogo, escritor, editor, inventor, jornalista, empresário, publicitário, tradutor. Como outros gênios, Fernando Pessoa só despertou interesse
público após sua morte. Ele não estava nem aí com o que os outros pensavam ou julgavam, que o tomassem por bêbado ou louco. A escrita parecia lhe bastar para responder aos silêncios de sua alma essencialmente solitária, intensa e sensível, de lirismo saudosista, nacionalista e inquieta.
Para melhor dramatizar a alma portuguesa e a crise do sujeito moderno, criou Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e mais dezenas de heterônimos com personalidades, biografias e até caligrafias próprias. Fragmentou-se em inúmeros “eus” para dar vazão aos vários poetas que conviviam nele, contando vidas que não viveu. Escreveu e escreveu sem parar, muitas vezes em pé, na mesma medida em que bebeu. Absinto com Sá-Carneiro. Uísque, vinhos de vários cores. Priorizava a bagaceira, aguardente de uva. Só que em seus tempos de publicitário, o único comercial de bebidas que fez foi da Coca-Cola.

Das 4 obras que o maior poeta português do século 20 publicou em vida, 3 foram escritas em inglês. Pessoa nasceu em Lisboa, mas recebeu educação inglesa em Durban, África do Sul, onde morou com a mãe e o padrasto. No retorno à terra natal, em 1905, trouxe certo gosto pela galinha ao curry e outras especiarias do além-mar.

Equiparável a Camões no campo das letras, o plural e excêntrico Fernando Pessoa apreciava a simplicidade do cotidiano e a levava para as refeições. Não foi homem de receitas refinadas e tampouco era particularmente fã da culinária lusitana. Ovos com chouriço, pastel de bacalhau e dobrada à moda do Porto, gostava. Costeletas de porco, bolos, figos, chocolate, nozes, queijos e sardinhas estão registrados em seus versos.

“Ai, os pratos de arroz-doce Com as linhas de canela! Ai a mão branca que os trouxe! Ai essa mão ser a dela!”

Além dos heterônimos, colecionava botecos e afins na capital. O “Tavares Rico”, mais antigo restaurante da cidade (de 1784). O “Leão D’Ouro”, que lhe servia um prazeroso ensopado de camarão. Um dos mais frequentados, o centenário “Café A Brasileira” do Chiado, tem uma estátua de bronze do poeta sentado à mesinha. Outrora reduto de artistas e literatos, mantém a decoração intacta e o movimento.

Fernando jantava sempre às sete, em casa ou fora, e preferia uma sopa, um caldo verde. Comia muitos bifes e, se tinha algo que fazia brilhar os olhos de todos os seus alter egos, era o arroz doce. Sobremesa favorita de Luís IX e fórmula de Michelangelo para curar a ressaca.

Arroz cozido em leite com açúcar existe desde o século 6 a.C.. É um velho hábito em países orientais, na Índia, na China, no Paquistão. Faz parte da alimentação milenar árabe também o arroz de leite. Chegou à Europa pelo século 13, junto com o açúcar refinado. Só viria a ganhar evidência 5 séculos depois e seu encanto foi revelado em todos os livros de receita europeus.

Em Portugal, é doce tradição ancestral para honrar os dias festivos, com direito a variantes que o tornam único em cada mesa. Com canela ou coco ralado, casca de limão ou laranja, gemas, leite de vaca, ovelha ou condensado, muito ou pouco açúcar e canela, gelado ou quente…

O mundo inteiro testou o grão de arroz na versão doce, usando frutas secas, sementes, amêndoas, castanhas e até banha de porco. Aqui no Brasil, ele chegou sem muitas firulas, polvilhado com canela. Aquele que inspirava Fernando Pessoa.

“Comamos, bebamos e amemos (sem nos prender sentimentalmente à comida, à bebida e ao amor, pois isso traria mais tarde elementos de desconforto).”

ARROZ DOCE COM CANELA

INGREDIENTES:
• 1 xícara de arroz branco
• 1 xícara de água
• 1 lata de leite fresco
• 1 lata creme de leite (ou a mesma medida de leite de coco)
• 1 lata de leite condensado
• 1 pitada de canela em pó
• 2 pauzinhos de canela em pau
• 5 cravos-da-índia

PREPARO:
Pré-cozinhe o arroz branco com a xícara de água em fogo baixo e reserve. Em uma panela grande, adicione o leite, o cravo, a canela em pau, o leite condensado, o creme de leite e leve ao fogo brando. Mexa devagar para não queimar e adicione o arroz. À medida que o arroz termina de cozinhar, a mistura dos ingredientes vai secando e fi cando cremosa junto do arroz. Quando o arroz estiver macio, desligue. Sirva em um refratário e polvilhe a canela em pó. Leve à geladeira para gelar por mais ou menos 2 horas. Ou sirva quente com um delicioso café.

Texto: Fábio Angelini

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