Vinhos do Leste Europeu e do Oriente Médio são tendências no mercado

Ninguém, quando vai para a Europa, diz que vai para o Velho Mundo. Por lá, tampouco as pessoas se referem ao Brasil ou aos Estados Unidos como Novo Mundo. Isso é coisa de aula de história e filmes sobre a época do descobrimento da América, uma visão eurocentrista do planeta. Quando falamos de vinho, no entanto, continuamos dividindo a Terra em velho e novo, mas essa divisão não corresponde exatamente aos critérios históricos. Um vinho de Israel, por exemplo, é considerado do Novo Mundo, apesar de a região ser conhecida pelos europeus desde sempre. O vinho nasceu no Cáucaso, há 8 mil anos, e logo ocupou o Oriente Médio. Basta ler a Bíblia para ver que, bem antes de Jesus Cristo, já se tomava o fermentado da uva na região de Jerusalém. Jarros de vinho egípcios encontrados por pesquisadores mostram a existência de um refinado sistema de catalogação para a época, com indicação de procedência, produtor e classificação por qualidade.

Foram os gregos e, depois, os romanos que espalharam as videiras pelo Mediterrâneo. Acontece que, por séculos, desde a Idade Moderna, a Europa dominou a produção e o comércio internacionais, com a França na frente, seguida por Portugal, Itália e Espanha. Então, quando um vinho do Líbano ou mesmo do Leste Europeu chega a um mercado, ele é considerado novidade: é o novo Velho Mundo. É importante considerar também que a vitivinicultura dessas regiões, por diferentes motivos geopolíticos e econômicos, permaneceu estagnada por centenas de anos e, no século 20, quando houve um boom da tecnologia no setor, custou bem mais caro para países do Leste investir em qualidade do que para o lado ocidental da Europa. Com isso, muitos deles estão num estágio de desenvolvimento da viticultura parecido com o do Brasil, por exemplo.

O PRINCÍPIO DE TUDO

 

Há uns dez anos, existiam apenas o vinho branco, o tinto e o rosé. Hoje, há também o vinho laranja.

Essa moda começou com o redescobrimento da ex-república soviética da Geórgia, que é o berço da vitivinicultura mundial. Os achados arqueo-lógicos mais antigos com sinais de produção de vinho são de lá e datam de cerca de 6 mil anos antes de Cristo. O vinho era feito em ânforas
( jarras) de barro, que eram enterradas na terra. Nelas se jogavam as uvas com cascas e galhos: tudo era fermentado junto e por alguns meses. Não se acrescentava nenhuma levedura, nenhum produto químico. E até hoje é assim. O tal do vinho laranja, na verdade, nada mais é do que um branco que fermentou com as cascas e, por isso, tem mais cor e estrutura.

Esse método totalmente ancestral vai de encontro ao que tem de mais hypado na atualidade: a tendência dos vinhos naturais, feitos sem nenhuma manipulação. Os Estados Unidos e a Europa descobriram os vinhos da Geórgia em meados da década passada. Seu caráter único (inédito no Brasil) lançou tendência e, em 2013, a Unesco declarou a vinicultura georgiana Patrimônio Imaterial da Humanidade.

CHAMPANHE PARA AS MASSAS

Enquanto o comunismo serviu para manter a Geórgia na pobreza, na Rússia (ainda União Soviética, conhecida pela sigla URSS) ajudou a criar as indústrias estatais e incentivou uma produção em larga escala de baixa qualidade. Em 1917, no entanto, o país tinha duas joias que o ditador Josef Stalin fez questão de preservar: o vinho doce da Vinícola Massandra, na região da Crimeia, e o espumante da vinícola Abrau-Durso, fundada em 1870 pelo czar Alexandre II, que tinha a intenção de produzir rótulos primorosos. Essa iniciativa coincidiu com a expansão da viticultura comercial internacional, que foi percebida, inclusive, na Europa Ocidental.

Em 1896, a Abrau-Durso lançou seu primeiro “champanhe”, um espumante feito aos moldes da consagrada região francesa. Quando assumiu o poder, em vez de repudiar esse símbolo do capitalismo, Stalin decidiu que todo camarada deveria ter o direito a tomar “champanhe” e investiu na vinícola, que prosperou até a década de 1980, quando Mikhail Gorbachev estabeleceu uma política dura contra o alcoolismo, o que provocou um grande estrago na viticultura de toda a URSS. Depois da volta ao capitalismo, a crise se acentuou. Mas, nos anos 2000, muitas vinícolas adotaram métodos e tecnologias europeus e começaram a investir em qualidade. Aos poucos, o país se recuperou e já tem produtos dignos de nota, como os espumantes da própria Abrau-Durso e o Château Tamgne Crand Select, o único vinho russo vendido no Brasil, exclusivo para a Sociedade da Mesa.

A maior parte do território russo não é própria para o cultivo de videiras. A produção concentra-se em torno dos Mares Cáspio, Negro e Azov – onde os verões são quentes e os invernos, severos.

No Leste Europeu, a situação é bastante parecida. Mas alguns países mantiveram suas tradições vinícolas mais intactas, como é o caso da  Hungria e de seus famosos tokajs, vinhos de sobremesa cultuados no  mundo todo. Há também bons brancos e tintos, como o blend de uvas  francesas e locais Vylyan Ordog.

EM NOME DE ALÁ

A vitivinicultura resiste na maior parte dos países mulçulmanos. “Até na Síria se produzem vinhos”, diz Mario Telles Junior, diretor de cursos da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo. “Mas as condições lá são tão complicadas que os donos não vivem no país.” Situações de conflito ou governos radicais, por diversas vezes, impedem o desenvolvimento da indústria do vinho. Segundo ele, na Turquia, por exemplo, aconteceu uma diminuição da produção.

No Marrocos, embora o cenário político preocupe, são produzidos ótimos vinhos, como o Syrah Tandem, do Domaine des Ouleb Thaleb (veja o quadro abaixo). No Líbano, a produção vai muito bem, principalmente na região do Vale do Bekaa, onde o clima é quente e seco no verão, austero e frio no inverno.

Esse terroir dá aos vinhos elegância, complexidade, equilíbrio, uma acentuada mineralidade, acidez e tanicidade. O solo, de formação calcária e de argilo calcária, é irrigado pelas águas do degelo da neve das cordilheiras. Como acontece em rosés ao estilo da Provence.

NOVA ANTIGUIDADADE

Três rótulos do novo Velho Mundo que valem a pena conhecer:

 

CHÂTEAU TAMAGNE GRAND SELECT 2017 

É o único russo no Brasil. Tinto leve, sem passagem por madeira, fresco

e frutado. Tem um corte de uvas locais (anapskiy, krasnostop e saperavi) e

francesas (syrah e pinot noir). Custa R$ 70 na Sociedade da Mesa.

 

VYLYAN ORDOG 2015

Um húngaro com corte das francesas cabernet sauvignon e merlot com

a uva local zweigelt. Com 12 meses em barricas, tem aroma de frutas

escuras, especiarias e cacau. Na boca, embora encorpado, é vibrante.

Custa R$ 70 na Sociedade da Mesa.

 

TANDEM SYRAH DU MAROC 2016

Este syrah marroquino do Domaine des Ouleb Thaleb lembra um bom vinho

do Rhône. Tem frutas escuras e especiarias no nariz. É elegante, com taninos

aveludados e bom frescor. Custa R$ 178 no mercado.

 

 

Texto por: Tânia Nogueira

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