/Por Daniel Salles

Como diversos vinhos do Porto, o novo tratado comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE) demorou 20 anos para amadurecer.

Firmado em Bruxelas em junho, poderá formar uma das maiores áreas de livre-comércio do mundo – a entrada em vigor, prevista para daqui a dois anos, depende agora do aval do Legislativo de cada país envolvido.

Em resumo, o acordo elimina os tributos de produtos estratégicos para o Brasil, como suco de laranja, frutas e café solúvel, o que poderá injetar US$ 87,5 bilhões em nosso PIB em 15 anos, pelas contas do Ministério da Economia.

Responsáveis por 7% dos US$ 2,2 bilhões importados da Europa no ano passado, os vinhos não ficaram de fora. A proposta é eliminar as tarifas para rótulos de até 5 litros em oito anos.

A regra para os espumantes é diferente: os impostos para os que custam acima de US$ 8 por litro serão zerados de imediato e o livre-comércio só começará em 12 anos. Para vinhos a granel, mostos e suco de uva, fica tudo como está.

A seguir, saiba como isso afetará o mercado de vinhos brasileiros.

› EUROPEUS MAIS EM CONTA

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O impacto mais tangível para os consumidores brasileiros é a queda nos preços dos rótulos europeus.

“O consumidor vai conseguir perceber o menor valor na gôndola, criando uma tendência de maior competi-tividade no mercado de vinhos. Com isso, esperamos também um aumento do consumo da bebida, que ainda sofre com alguns estigmas de classe social”, diz Ricardo Dias, diretor financeiro (CFO) da Sociedade da Mesa.

Apesar de ainda ser cedo para apontar o tamanho dos descontos, já que a queda dos impostos deverá ser gradual, espera-se uma diminuição de até 30%, proporcional ao imposto que os importadores precisam desembolsar atualmente.

“Para os vinhos do Velho Mundo, ainda vistos como caros pelos brasileiros, o tratado é extremamente positivo”, diz Adilson Carvalhal Júnior, um dos diretores da importadora Casa Flora, na qual metade do portfólio é composta de rótulos europeus.

› GÁS NOVO PARA OS NACIONAIS

A insatisfação dos produtores brasileiros era esperada. Não bastasse muita gente ainda torcer o nariz para nossos produtos, eles terão de competir com rótulos estrangeiros mais em conta.

Para apaziguar os ânimos, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento anunciou que o governo criará um fundo para ajudar o vinho nacional a se modernizar e se tornar mais competitivo em relação ao europeu.

A expectativa é amealhar R$ 150 milhões com recursos oriundos do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) que incide no setor. As verbas destinadas poderão ser gastas com renovação de lavouras, financiamento, equalização de taxas de juros e melhoria da logística.

“É a grande chance para os produtores do Brasil, que não pagam aqueles 27% de importação, descobrirem por que não são competitivos”, diz Carvalhal Júnior.

Para os vinhos do Velho Mundo, ainda vistos como caros pelos brasileiros, o tratado é extremamente positivo”, diz Adilson Carvalhal Júnior, um dos diretores da importadora Casa Flora.

› HERMANOS EM ALERTA

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Para o Chile, a situação é de preocupação, pois é dos hermanos que mais compramos vinhos. O segundo lugar no ranking é ocupado por Portugal e o terceiro está com a Argentina, que também precisará se mexer para fortalecer os laços com os consumidores brasileiros.

“Para países como o Brasil e a Argentina, um acordo como esse é fundamental, pois aponta um caminho a seguir no longo prazo. Hoje, adotamos um trajeto a cada hora”, diz Alberto Arizu, presidente da associação Wines of Argentina e presidente da vinícola Luigi Bosca.

Para ter mais competitividade, o Ministério da Agricultura anunciou um fundo para ajudar produtores locais a se modernizarem!


NÚMEROS DO MERCADO

Como nossa economia pode reagir ao acordo de impostos com a UE

O acordo pode aumentar o PIB em até US$125 bi em 15 anos

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Juntos, os dois blocos representam cerca de 25% da economia mundial

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