/ Por Tânia Nogueira

Quando o consumidor pensa em vinho argentino, na maior parte das vezes lembra um malbec.

Não sem razão: a cepa é a mais cultivada no país. Produz vinhos deliciosos.

Algumas vezes, no entanto, fica aquela impressão de ser sempre a mesma coisa.

Ficava, no passado: bodegas e enólogos argentinos agora têm apostado na diversidade. Há experiências com outras cepas, mas a principal linha de investigação é voltada para a terra.

“Estamos em busca do detalhe, da diferença trazida pelo terroir”, disse o enólogo Sebastián Zuccardi, da Familia Zuccardi, durante evento da Wines of Argentina, que aconteceu em São Paulo em agosto.

Há uma série de regiões sendo exploradas. “Os novos solos, novos microclimas mostram perfis aromáticos originais, sabores e texturas para nosso varietal emble- mático, o malbec”, conta Alejandro Sejanovich, da Estancia Uspallata.





São muitas as regiões recentes, como a província de Jujuy, o Valle Calchaquies de Arriba, a Patagônia e até a região de Buenos Aires, conhecida como Atlântica. E mes- mo em Mendoza há muito o que explorar.

“Ainda existem lugares montanhosos, vales de maior altura a serem desenvolvidos. Também estamos redescobrindo áreas anti- gas, com o caso de Las Pareditas”, diz Sejanovich.

Com exceção da região Atlântica, onde se tem focado em brancos, espumantes e pinot noir, nas outras regiões o clima é desértico ou semidesértico e o foco permanece nos tintos.

Muitas áreas têm uma altitude elevada. O difícil acesso é outro ponto comum. “Por serem lugares marginais e extremos, a gestão da vinha é um desafio constante. Ao enfrentar esses obstáculos, estamos descobrindo facetas que são muito interessan- tes”, explica Sejanovich.



Vinícola Zuccardi_Revista Sociedade da Mesa

› Quebrada de Humahuaca, Jujuy

Em Jujuy está o vinhedo mais alto do mundo, a 3.329 metros de altitude, num vale chamado Quebrada de Hu- mahuaca, uma área fértil ladeada por montanhas áridas de terra colorida.

O fato de, na safra de 2011, os vinhos Pascana e Punta Corral da Bodega Fernando de Dupont Maimara terem recebido respectivamente 93 e 94 da Wine Advocate de Robert Parker projetou a região. É um lugar de tintos. Com clima seco e grande amplitude térmica, produz vinhos escuros e bastante encorpados.

› Tunuyán, Mendoza

Até os anos 1990, a região de Tunuyán, onde fica San Pablo, produzia árvores frutíferas. Em 1995, foram plantados os primeiros vinhedos. Como toda Mendoza, San Pablo tem clima árido, uma ótima insolação e uma grande amplitude térmica.

Os solos, com depósitos calcáreos, no entanto, parecem con- ferir mais mineralidade aos vinhos dessa região. Um bom exemplo do caráter do local é o vinho Poligonos del Valle de Uco Cabernet Franc 2018 San Pablo, da Bodega Zuc- cardi, que foi servido no evento da Wines of Argentina.

› Uspallata, Mendoza

No vale mais alto de Mendoza, no caminho para o Chile, Uspallata é uma área isolada e inóspita. A grande dificuldade da agricultura no local é conseguir água. “Pela lei, você só pode usar a água que começa e termina em suas terras”, revela Alejandro Sejanovich, da Estancia Uspallata, a única vinícola na região. “Então, para cultivar 3 hectares, você muitas vezes precisa de uma fazenda de 100 mil hectares”.

Ali, também venta muito e faz bastante frio, o que rende uma uva de pele grossa e, consequentemente, um vinho escuro, encorpado. O Malbec Estancia Uspallata 2017, que Sejanovich apresentou no evento da Wines of Argentina, mostrava um perfil dife- rente do resto de Mendoza, menos floral e mais sóbrio.


Vinhedos da Argentina_Revista Sociedade da Mesa

› Chañarmuyo, La Rioja

Com dias quentes e noites frias no verão e nevascas no inverno, o terroir de Chañarmuyo, em La Rioja, propicia uma incrível complexidade aromática a seus vinhos.

Potente e ao mesmo tempo elegante, o cabernet sauvignon Chañarmuyo Edicion Limitada 2014, que passou 24 meses em barris de carvalho francês, ainda não chegou ao auge, previsto para acontecer entre 2020 e 2025, mas já mostra uma boa gama de aromas, com frutas negras, especiarias, menta.

› Neuquén, Patagônia

Na região de Neuquén, que faz fronteira com Rio Negro, Mendonza e Chile, como em toda a Patagônia, os vinhedos são plantados a baixas altitudes, de 270 a 415 metros. O que garante a amplitude térmica é a lati- tude austral.

Os ventos, por sua vez, mantêm as uvas sãs. Os vinhos são escuros, frutados, com boa estrutura. Fermentado em madeira, o La Poderosa Red Blend 2018, da Bodega del Fin del Mundo, não descansa em carvalho. No nariz, tem fruta escura, algo que lembra cereja sotto spirito, tabaco e especiarias. Na boca, tem estrutura, mas os taninos são sedosos.

Loja Online de Vinhos