Por Daniel Salles

Madame Lily Bollinger não engolia os rosés, lembrou a crítifca de vinhos Jancis Robinson em uma de suas recentes colunas no jornal britânico Financial Times.

Mandachuva da marca de champanhes da família, a incensada Bollinger, entre 1941 e 1971, a francesa era inflexível em relação ao rosado, que associava a endereços parisienses de má fama e a mulheres com a pior das reputações. Na visão dela, a maison jamais deveria produzi-los.

O primeiro rosé da Bollinger, uma variação do prestigiado La Grande Année, foi elaborado no verão de 1976 e lançado em meados da década seguinte – ela morreu em 1977. Em 2008, vieram ao mundo os rosés não safrados da marca.

Ninguém pensava como madame Lily na década passada. Mas a reputação dos rótulos do gênero, espumantes ou não, ainda não era das melhores.

Houve o boom dos rosés docinhos, baratos e de baixa qualidade, em meados do século 20, e um efeito colateral: todos passaram a ser tachados de bebida para quem não entende de vinho.

Entretanto, o empenho da associação de produtores da Provence, no sul da França, a Vins de Provence, em reabilitá-los, principalmente por meio de degustações nas principais feiras do setor, trouxe resultados impressionantes.

› NOVO SIGNIFICADO

Com status de vinho de balada, eles caíram nas graças dos frequentadores dos mais comentados destinos de férias europeus.

Ganharam o apelido de champanhe dos millennials e ainda de água dos Hamptons, por causa do apreço que os habitués dessa região no estado de Nova York têm por eles.

O cantor Jon Bon Jovi e seu filho, Jesse Bongiovi, de 24 anos, lançaram no ano passado o Diving into Hampton Water.

O rosé é elaborado com uvas grenache, cinsault e mourvèdre e produzido em Languedoc, também no sul da França. E não é o único do tipo ligado a uma celebridade.

Em 2011, quando ainda eram casados, Brad Pitt e Angelina Jolie arremataram uma propriedade na Provence por 67 milhões de dólares, onde são produzidos os rótulos Miraval Côtes de Provence Rosé (com uvas cinsault, grenache, rolle e syrah) e Muse de Miraval (com grenache e rolle).

Reabilitados, os rosados aguçaram o interesse dos críticos. “Tenho dado a eles, recentemente, a mesma atenção que dou aos bons tintos e brancos”, afirmou Jancis no mesmo artigo.

MERCADO AQUECIDO

De acordo com a consultoria Wine Intelligence, o consumo dos rosés cresceu 84% na Alemanha entre 2007 e 2017 – no mesmo período, o salto foi de 60% na Inglaterra e de 33% nos Estados Unidos.

Segundo a Ideal Consulting, 4,4% dos vinhos importados no Brasil em 2018 foram rosados. Ainda equivalem a uma gota no oceano: os brancos correspondem a 16,7% e os tintos, a 78,9%. Mas a fatia ocupada por eles, em 2014, era de 1,8%.

“Os números comprovam o potencial de crescimento desse vinho”, diz Luciana Salton, diretora-executiva da Salton. “No fim do terceiro trimestre deste ano, já vendemos a mesma quantidade de rosés que levamos 2018 inteiro para comercializar.”

Em setembro, a vinícola gaúcha incluiu mais dois representantes em seu portfólio, o Séries Rosé Brut, com castas ugni blanc, prosecco e merlot, e o Salton Frizz Rosé, frisante elaborado com as variedades prosecco e merlot. O espumante Salton Brut Rosé leva pinot noir e chardonnay.

Lançado em 2004, o francês Rosé Piscine foi um dos mais vendidos no Brasil no ano passado.

É produzido só com uvas negrette e tem mais estrutura do que os tradicionais, pois deve ser bebido com gelo, o que faz dele uma escolha sem erro no calor.

Neste ano, a marca lançou o Rosé Piscine Freez. Trata-se de um frisante feito só da casta moscato rosso e que também deve ser consumido com gelo, ideia replicada por diversas vinícolas.

A cultuada Moët & Chandon foi uma delas. Seu Ice Impérial Rosé, mix de pinot noir, pinot meunier e chardonnay, custa mais de 500 reais no Brasil.

A maioria dos rosés é produzida com uvas pinot noir, hoje mais saborosas graças aos verões cada vez mais quentes.

Nos anos 1980, quando a Krug lançou a versão rosada de seu incensado champanhe, grande parte apresentava uma coloração salmão clarinho.

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Sweet moments in the making with Krug Rosé

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Com o passar dos anos, surgiram representantes cada vez mais chamativos. Alguns, certamente não por acaso, podem ser confundidos com o badalado Aperol Spritz.

Como se sabe, o drinque deve boa parte de sua fama ao frescor e à cor, que magnetiza olhares.


CONSUMO DE ROSÉS NO MUNDO ENTRE 2007 E 2017

84% Alemanha

60% Inglaterra

33% Estados Unidos


› IMPORTAÇÃO DE RÓTULOS ROSÉS NO BRASIL

2018 – 4,4% 2014 – 1,8%


A CARA DE UMA GERAÇÃO

O sucesso se deve aos millenials (pessoas entre 18 e 35 anos), que adotaram a bebida em festas, no lazer e, principalmente, nas refeições.

vinhos rosés